Aja como se.
Agir como se não estivesse com
depressão. Essa é a proposta do psicólogo essa semana. De cara, achei uma
tarefa bem fácil. Afinal, passar um dia fazendo só as coisas que gosta e outro
se dedicando ao trabalho, não deve ser nenhum problema fora do comum.
Mas uma coisa me intriga desde
que ele lançou o exercício: não consigo me lembrar de fazer coisas prazerosas.
Não sei o que fazer. Mas calma. Ainda tem dois dias para descobrir.
Paro para pensar na minha vida.
Não é tão ruim assim. Viajo com uma certa frequência... isso me dá prazer.
Avalio as últimas viagens... definitivamente não me dão prazer. Pode ser
reflexo da depressão. Afinal, até hoje não consigo identificar desde quando ela
toma conta dos meus pensamentos.
Corto viajar. Não é isso. Exercícios
físicos. Acho que é isso. Sou muito comprometida. Fora no auge da depressão,
que eu simplesmente inventava mil desculpas para não ir, me lembro que gostava.
Ou não. Talvez a motivação fosse não ser mais um caso nas estatísticas de quem
já fez a bariátrica e engordou tudo de novo. De fato, não é uma coisa muito prazerosa
ficar levantando peso e fazendo os mesmos movimentos repetidas vezes... Corto
atividade física.
Embora eu gostasse de correr.
Acho que pelo momento só meu. Absorta nos pensamentos. Sozinha, música nos
ouvidos, pensamentos soltos. Realmente, momentos de satisfação. Além do desafio
contra si mesma. É... mas ainda não posso correr. Quem sabe uma caminhada. Um
item para a lista.
Me lembro agora dos últimos
momentos que eu me senti verdadeiramente alegre: meu anjo. Sempre me vêm
à cabeça essas recordações. São tempos de completa felicidade. Até eu perceber
que são passageiros. Ai, toda a tristeza cai de volta sobre mim, e eu volto ao
mundo real. Se não fosse a partida sem perspectiva de próxima vez, seriam os
tempos perfeitos, onde a depressão não cabe, não entra e não tem vez.
Ler. Era apaixonada por livros.
Ler era o meu hobby. Ficção. Romance. Histórias. Remexo numa caixa antiga e
empoeirada. Resgato alguns livros que nem lembro se já li. Segundo item na
minha lista. Já está melhorando.
Nunca tive talentos na cozinha.
Sei fazer o básico para me virar. Nunca me fez falta saber cozinhar. Nem cuidar
da casa. Sempre tive quem fizesse por mim. Minha prioridade nunca foi ser bela,
recatada e do lar. Cozinhar alguma coisa está fora da minha lista.
Do lar não, mas do bar. Agora que
estou pensando nas coisas que gostava de fazer, me vem à mente a lembrança de
estar em bares. Às vezes com amigos, às vezes, sozinha. Sempre gostei. Alguma
coisa para beber, uma música ao vivo. Ou conversar muito. Com pessoas
diferentes. Assuntos novos ou velhos. Uma coisa que me dava prazer. Muito. E
simplesmente saiu da minha vida. Como eu deixei isso acontecer?
Amigos. Sempre tive muitos
amigos. Vivia rodeada deles. Minha casa era sempre o ponto de encontro. O lugar
onde se podia ter um espaço tranquilo e legal. Os pais dos amigos gostavam de
mim. Apesar de sempre ter um pouco de bebidas e eventualmente um cigarro, nunca
houve drogas nem nada ilícito. Nem brigas, nem desentendimentos.
Havia sempre música. A música
sempre esteve comigo. Das tardes de domingo na infância, quando nos reuníamos
ao redor do pai ao violão e cantávamos juntos, até os shows que eu sempre
gostei de ir. Zé Ramalho pelas madrugadas frias de Barbacena, um maço de gudan
e um litro de catuaba. Para sete, oito pessoas. E a gente via o dia amanhecer.
Felizes.
Sempre gostei de dançar. Desde os
bailinhos na adolescência, ao som de Roxete, Erik Clapton, Simply Red, passando
pelo forró gostoso no Espírito Santo e pelo modão lá em Goiás. Dançar juntos.
Mãos na cintura, sensualidade e flerte. Essas lembranças me fazem sorrir.
Comer nunca foi uma fonte de
prazer. Claro que boas comidas sempre trazem uma sensação boa, mas a minha
relação com a comida nunca foi muito amistosa. Além de muito tempo morando
sozinha, sem grandes avanços na culinária, a forma como o alimento é visto na
minha vida hoje não me agrada. Todos os passeios envolvem comer. E eu não sinto
satisfação nisso, por não comer muito e por ter que encarar esses momentos como
a principal fonte de lazer da família.
Eu penso nos momentos que eu
realmente fui feliz nesses últimos anos da minha vida. Não consigo lembrar de
muitos. Os momentos com meu anjo, sempre. Momentos de reconhecimento profissional.
Minha formatura, como primeira aluna do curso, depois de seis anos de luta e
abdicação. Meu filho. A sombra da depressão faz tudo ficar cinza.
Bom, não quero pensamentos
negativos agora. Tenho algumas coisas que posso fazer. Que venha o domingo.
E ele chega. Primeiro plano pra
hoje: uma caminhada na praia logo cedo, se a chuva der uma trégua. O relógio
desperta por volta das cinco e pouco da manhã. Olho pela janela e vejo um céu
limpo, azul, sem sinal de chuva. Que droga, no fundo, queria que amanhecesse
chovendo. Ele desliga o despertador e não fala nada. Finjo que estou dormindo.
Aguardo ele me perguntar se vamos mesmo caminhar. Ele não fala nada. Eu volto a
dormir. Um a zero para a depressão.
E lá vem a culpa. Comecei mal.
Penso em levantar e preparar o café da manhã para todos. O sono volta. Quando
acordo, mãe já está de pé, preparando tudo. Dois a zero para a depressão.
Deixei a preguiça dominar. Vou ficando triste. Mas não. Hoje não.
Levanto, arrumo a cama, coisa
rara em um domingo. Normalmente passo o dia todo deitada. Tiro o pijama e visto
uma roupa para sair. Não vou ficar de pijama o dia todo. Dois a um. Nessa, a
depressão não vai levar.
Venho enrolando sobre fazer as
compras no supermercado. Mas não quero perder o meu “happy day” com isso. Mas
preciso de alguma coisa para o almoço. Pensei em tantas coisas que poderia
comer que me trouxessem algum prazer. Decido. Vamos buscar. Só nos dois. Peço para
ir de moto com ele. No início do nosso namoro, quando morávamos no interior,
nossa diversão era vir de moto à capital, passear por alguma praia. Quem sabe?
O vento no rosto. A visão do mar.
O sol aquecendo meus braços. Fecho os olhos. É uma sensação boa. Não preciso
conversar. Não preciso interagir. Só sentir o momento. Quando tudo isso passar,
quero vir mais vezes ver o mar. Realmente me sinto bem. Mercado, não tem como
escapar. Uma sobremesa que me remete à infância. Uma cerveja sem álcool. Vamos
para casa.
Um livro. Muito tempo que não
leio. Escolho um que realmente sei que não li. São contos de renomados
escritores do mundo inteiro. Textos curtos. Leio rápido. Ele me interrompe
algumas vezes. Não entende que estou no meu momento. Isso me chateia. Sinto
vontade de parar de ler e dormir. Mas insisto. Ignoro os comentários até ele
perceber que quero continuar lendo em paz. Dois a dois. Não vou deixar isso me
afetar.
Quase terminando o livro. Levanto,
vou tomar minha cerveja. É um prazer passageiro, na verdade, mais uma afronta
que um deleite. Sei que ele não gosta. Mas a ideia não é agradá-lo. É agradar a
mim. E me trazer recordações de momentos felizes. Bebo com satisfação. Dois a
três. Virei o jogo.
Já o almoço não é como eu esperava.
A comida não me traz a satisfação de antes. Como em silêncio e todos me
acompanham na falta de assunto. Poderia ter escolhido outra comida. Ter feito
alguma coisa para todos. Culpa. Três a três. Que droga... Ela empatou a
partida.
Termino rápido, a sobremesa já
não parece tão gostosa como eu imaginei. A tristeza ronda, o dia vai pela
metade e quase não fiz nada. Vou me deitar um pouco. Quatro a três. Está me
vencendo.
Não consigo dormir. Inquieta,
hora sinto frio, hora sinto calor. Sede, xixi... Vou me irritando. Sempre
gostei do meu sono da beleza depois do almoço. Nem isso hoje me dá prazer. A
raiva aumenta. Cinco a três. Meu domingo está perdido.
Pensei em tanta coisa. Já são
quase três da tarde e eu não fiz quase nada. Volto ao livro. Pelo menos vou
terminar. Às vezes tenho que ler o mesmo trecho mais de uma vez pra entender,
porque a falta de concentração me faz passar pelas palavras sem conectá-las.
Que luta. Mas termino. A sensação é boa. Cinco a quatro. Ainda posso pelo menos
empatar.
Resolvo que vou caminhar. Uma
atividade física tem que ter. Queria ir sozinha, mas sei que vai ser
impossível. Ele quer que seja só nós dois. Mas eu convido a todos. Pelo menos,
não preciso interagir. E vamos todos. Coloco meus fones de ouvido na clara
demonstração que não quero conversa. Mas vejo o jogo mudar. Cinco a cinco. Eu
posso vencer.
A caminhada não é exatamente como
queria. Local feio. Puxando outras pessoas, não vou no meu ritmo. Mas não me
deixo abater. A lista de música que toca foi toda feita para meu anjo. Vou pensando
em nós o tempo todo. No que vivemos. No que poderíamos viver. Penso em falar
dele para o psicólogo, admitir que muito do que vivo hoje tem a sua influência.
Mas ainda não é o momento. Volto a sonhar.
Estou cansada. Há tempos que não
faço nenhuma atividade. Mas me sinto bem. Acho que valeu o ponto positivo.
Já está ficando tarde. Tinha em
mente ainda escrever e ver um filme. Escolho escrever, embora não saiba ainda
sobre o quê. Escrevo sobre o dia. Mais uma atividade que me faz bem. Cinco a
seis. Se eu não me entregar até a hora de dormir, posso encerrar com um saldo
positivo. Ainda há coisas que queria ter feito. Mas entendo que foi um bom dia.
Talvez eu consiga outros dias assim.
E a vida segue. Devagar...
Nenhum comentário:
Postar um comentário