As coisas andam meio estranhas. Volto a ter dias cinzas com mais frequência. Os questionamentos sobre o que ando fazendo da vida têm tornado meus dias um castigo.
O trabalho se acumula. A falta de concentração me deixa inquieta... Ou a inquietude me tira a concentração. Não sei a resposta.
Tenho pensamentos negativos novamente. Parece um ciclo. Vão e vem quando querem. O sono está absurdo. Continuo acordando pesada, cansada.
Cansada. Virou meu mantra. Meu hino. Me sinto cansada o tempo todo. Até eu canso de dizer que estou cansada. Mas quando paro pra pensar (e penso o tempo todo) no que estou sentindo, só sinto cansaço.
Pensar e cansar de pensar. O gasto de energia está enorme. O trabalho está sufocante. Uma avalanche de problemas. As pessoas ao meu redor sem objetividade. Isso me estressa. Estou me tornando intolerante. Isso cansa.
Penso em mim. Decidi procurar o psicólogo. As consultas espaçadas com o psiquiatra não estão ajudando muito. Ele trata a causa, preciso tratar as consequências.
Autoconhecimento. Sei que preciso disso. Mas não nego, tenho medo do meu lado sombrio.
As coisas em casa, me sinto em um teatro. Encenação. Ele finge que eu estou bem, eu finjo que ele acredita. Ele está me cercando absurdamente. Se eu falo que senti vontade de alguma coisa, prontamente ele providencia. Quer me tocar o tempo todo, estar próximo. Não respiro.
As noites têm sido as piores. Eu, cansada no ponto máximo, e ele ligado no 220v. Fala o tempo todo. Quer planejar. Quer discutir a relação. Quer saber sobre meu dia. E o contato. Está virando uma luta. Aprendeu agora a falar se encostando em mim. Me seguro para não afastar.
Transamos duas vezes depois que baixei a guarda. A primeira, expectativas e frustração. Não adianta. Ele continua o mesmo. A segunda, diferente do contexto. Começou com uma dor nas costas que ele se propôs a usar o massageador para aliviar. Não tenho paciência para a dor. Nem para ele. Mas deixei.
Das costas, a massagem com o aparelho seguiu para as coxas e bumbum. Queria que eu tirasse a calcinha... sabia que ele não perderia a oportunidade. Mas não tirei. Só que não vou negar, a sensação do massageador nas áreas onde a cirurgia pegou pesado é um alívio incrível. As sessões de drenagem acabaram e o corpo sofre pra voltar ao normal. Mas a sensação é boa de verdade. Um misto de relaxamento e excitação, quando ele começa a ser mais ousado com o massageador. Ele pergunta se eu quero a massagem na barriga. Relaxo, esqueço meus bloqueios com ele e me viro.
Cubro o rosto com a toalha. Ele espalha o óleo e volta a usar o massageador. Me ligo nas sensações. Esqueço quem está ali. Ele está quieto. Nem ouço sua respiração.
Meus pensamentos vão pra outro lugar. A sensação dos olhos vendados. A expectativa. O massageador. E eu permaneço de olhos fechados.
Ele aproxima o aparelho das minhas coxas. Sobe com ele. Faz movimentos me provocando. Sei das suas intensões. Ele tira a minha calcinha. Não ofereço resistência nenhuma. Os olhos fechados, as expressões do rosto escondidas sob a toalha. A culpa começa a me rondar. Sentimento de traição. Permaneço.
Ele ousa, percebe minhas reações. O massageador agora está por áreas que não deveria estar. A sensação é extasiante. Meu corpo reage. Impossível não associar os momentos.
Estou excitada. Muito. Há tempos não me sentia assim. O corpo quente. Úmido. Não quero abrir os olhos.
Sinto vontade de me tocar. Mantenho os olhos fechados. Me toco. Sinto um prazer já conhecido. O corpo se arrepia de satisfação. De novo, meu prazer na minha mão. Ele para com a massagem. Não sei se me olha. Deve estar olhando. Não me importo.
Me concentro no meu prazer. Sinto meu coração acelerado. A respiração mais curta. Até que meu corpo se contrai. Sinto a corrente de energia passando por todas as minhas terminações nervosas. Prolongo a sensação o máximo que posso. O ápice. Relaxo. Realizada.
Abro os olhos. A realidade bruta volta. Vejo quem está do meu lado. Olhos famintos. Sinto misto de decepção e culpa. Ele quer a parte dele. Tira a roupa. Sua falta de sei lá o que de sempre. E de repente percebo que toda a excitação se foi. O momento dele pra mim é tormento. Incômodo, tensão. Corpo não quer. Mente se sente traindo. Enfim, ele termina.
Volto ao meu mundo de pensamentos negativos. Até quando vou permitir isso? Adormeço.
De manhã, o mundo é o céu pra ele. Não sei disfarçar a sensação de coisa ruim. Me sinto suja. Esses sentimentos me dão raiva.
Todo momento ele usa pra um toque sexual. Isso é desgastante. Mas eu deixei chegar neste ponto. Não posso reclamar.
Finalmente ele se vai. Meus pensamentos que antes já estavam ruins, agora estão piores.
Eu preciso saber como conduzir isso. Ou eu permito, assumo e deixo o barco ir. Ou eu paro. Porque viver assim só torna as coisas piores.
Eu me sinto traindo. Isso está me bloqueando mais ainda. Não estou fazendo nada demais. Indo pra cama com o meu marido. Mas o envolvimento emocional que tenho com outra pessoa tem um peso enorme pra mim. Não sei mais o que fazer com relação a isso.
Preciso tocar a vida. E não vejo alternativas para a paz que eu procuro.
A culpa está sempre me perseguindo. A ausência de carinho e contato físico me assustam. E tudo, absolutamente tudo, me cansa.
Mas não posso me entregar. Não agora. Eu não posso desistir. Meu anjo não está pronto pra isso. Eu preciso achar uma forma de me manter bem até ele estar firme nas decisões que precisa tomar.
Mas esse jogo todo de esperar, escolher ficar sozinha ou continuar, me sentir sozinha, carente e sem prazer, o cansaço... Tudo isso me desnorteia.
Sigo me sentindo fazendo a coisa errada. Traindo meus sentimentos e os dele. Ou não. Pode ser mais uma invenção dos meus pensamentos para continuar me jogando na lama.
Se estou certa ou errada, não sei dizer. Só penso que não é uma coisa muito fácil de se resolver.
Deu a hora. Preciso ir trabalhar.
quarta-feira, 29 de abril de 2020
domingo, 26 de abril de 2020
Vinte anos depois
O que pode acontecer em vinte anos? Como estarei daqui há vinte anos? Quem eu era há vinte anos atrás?
2018. A vida vai entrando nos eixos aos poucos. Acho que estou no caminho certo. Faculdade concluída, pós em andamento. Cirurgia feita. Se não fosse pela perda do bebê, talvez eu estivesse melhor. Mas são os revezes da vida. Faz parte.
Mas a verdade é que não. Estou sozinha. Casada e só. A solidão a dois é uma coisa muito forte. Por fora um casamento feliz. Realizações, viagens, compramos uma casa, trocamos de carro a cada dois, três anos. Filho com saúde. As coisas indo bem.
Por dentro, solidão. Não se pode ter tudo.
Dentro de quatro paredes, muita coisa sem sentido. A falta de afeto no dia a dia, a busca incansável em agradar. Andar separados, sem beijos ou carinhos fora da cama. Surpresas e presentes atrelados ao sexo. Por vezes ajo e me sinto como uma prostituta.
Ele me trata como uma. Me agrada na hora do sexo. Fora isso, dois amigos com algumas despesas em comum e um filho.
Mas todos nos vêem como um casal modelo. Sem uma briga, sem discussões. Onde um vai o outro está junto.
Na verdade, o que todos acham que é cumplicidade e amor, pra mim é só posse. Mas segue a vida.
E um dia, meio do ano mais ou menos, uma mensagem por uma rede social: oi, sou seu Anjo, 20 anos depois, lembra de mim? Um perfil sem foto, com informações estranhas. Mas se eu me lembro? Claro que sim.
Quando saí do meu primeiro emprego, nosso contato ficou muito limitado. Nos vimos ainda uma vez, ele foi me ver. Depois, a distância e as dificuldades da época com relação à comunicação nos fizeram perder o contato. Nossas vidas seguiram rumos muito diferentes.
Na primeira conversa já me senti a vontade. Reconhecendo tantas coisas que foram importantes pra mim. Redescobrindo coisas. Conhecendo outras.
Surpresa, que ele ainda está casado, tem mais um filho. Uma certa melancolia bate em mim. Um filho que por vezes quis ter com ele.
Mais tarde descubro que na verdade eram mais dois... Mas isso é outra história.
Vamos conversando com alguma frequência. Passo a ficar ansiosa por esses momentos. Passamos a conversar mais vezes. A internet é uma ferramenta poderosa.
Ele quer saber de mim. Tem sede e pressa de descobrir 20 anos de histórias..
Os dias passam, e o que eram conversas espaçadas começam a virar uma rotina.
Sua presença passa a fazer parte da minha vida constantemente. De repente, não saio mais do telefone.
Os sentimentos vão reaparecendo. Começo a sentir sua falta. Sua rotina me dá uns dias longe da família, no trabalho ele está sempre mais disponível pra mim.
Mas os seus períodos em casa são longos. E eventualmente ele some. Viagens com a família, passeios. Tem uma vida agitada.
E nos dias de ausência, sinto sua falta.
Quando percebo, já estou com todos os sentimentos por ele novamente despertos. Vinte anos adormecidos. Tantas lembranças de volta. E eu começo a me preparar para sofrer de novo.
Primeiro golpe foi sua sinceridade habitual: vida estabilizada, casamento sólido, filhos em formação. Não pretende mexer em nenhum destes pilares.
E então, me pergunto porque ele veio atrás de mim, depois de tantos anos? Porque veio despertar um amor há tanto tempo adormecido? Acho que está somente querendo testar se ainda sinto algo por ele.
Penso neste momento que devo parar. Hora de parar com isso. Já tive uma experiência muito ruim com isso no passado, e a sua ausência moldou a minha vida dali pra frente. Não quero isso de novo.
Mas ele começa a dividir coisas comigo. Quando sofreu uma perda importante na sua vida, falou comigo. Isso me tocou. Problemas sérios com um dos filhos. Dividiu comigo também. A teia de confiança e cuidado um com o outro crescia. Difícil sair.
Começam os questionamentos pelo meu passado. Sei que fiz inúmeras burradas desde que nos separamos. Hoje penso que foi uma forma que eu mesma achei de me punir e não me envolver. Porque amar me fez sofrer demais. Posso dizer com toda a convicção do mundo que não amei ninguém depois dele. Gostei, me encantei, passou. Amor, nunca mais vivi.
Mais uma vez ele me joga a realidade. Em uma ligação, deixa claro de novo que me procurou pra saber como eu estava, pra saber de mim. Nada mais que isso. Havia carinho. Não havia amor.
Mas mesmo assim meu coração espera ansioso por cada mensagem dele. As coisas começam a ficar estranhas em casa comigo.
Conversamos sobre tudo. Nosso assunto preferido, sempre sexo. Gostamos da provocação. Estou totalmente envolvida. Ele, sempre reservado, vai se abrindo ao poucos. Conectados novamente. Como se nunca tivéssemos nos afastado. Amor de novo. Intenso, verdadeiro.
Mas ele tem uma vida construída, e aos poucos vou deixando a minha realidade ser aberta.
Em casa, cada dia pior. Ciúmes, discussões, mensagens lidas.
Mas eu só penso nele. Minto, disfarço. Crio situações insustentáveis. Preciso vê-lo.
Ele quer me ver. Nem acredito nisso.
Mas a coragem falta. As mensagens lidas me fazem temer. Ele não consegue disfarçar o desapontamento.
O tempo passa, a sincronia, intimidade e sentimentos só aumentam.
Finalmente ele reconhece também seu envolvimento. Seu amor. Vou às nuvens. Um sonho. O amor de uma vida inteira.
Mas não passa disso. Amor platônico, à distância. Sem chances de ser mais.
Começo a descobrir fantasmas em seu passado. Situações que têm um peso impossível de se carregar.
Ele está preso no seu passado. E o preço disso é a nossa história.
Eu me revolto, choro, não consigo acreditar. Tanto amor, tanta coisa pra viver juntos. Mas nosso passado vai nos afastar.
O primeiro encontro, da apreensão à explosão de amor. E todos os outros dali por diante.
No meu coração não há espaço pra mais nada. Meu corpo só descansa no seu.
Os momentos juntos, sonho e realidade se misturam. O prazer fora do normal. O entendimento. Tudo é intenso.
Mas ele não consegue. Ele simplesmente não acha um lugar pra mim na sua vida.
Seus medos, seus fantasmas, sua dívida. Não há espaço pra mim.
Por mais que ele diga que sim. Eu sei que não.
Novamente eu me revolto. Mais uma vez a dor de não ser a escolhida. A rejeição. Um amor maior que eu e ele juntos. Fadado a não ser nada mais que um lugar de boas memórias.
Eu penso em o quanto a minha vida se transformou depois que ele voltou. Tudo está revirado. Cabeça, coração. Tudo pelo avesso. Avesso ao real que eu vivo.
Imploro, choro, rastejo. Hora penso que posso viver com a sobra do seu amor. Hora acredito que isso vai acabar com o amor que tenho por ele.
Tento, Deus sabe disso, que eu tentei tirá-lo da minha vida. Voltar para a mediocridade que eu vivia antes. Tocar a vida. Voltar ao lugar de antes.
Mas como? Como simplesmente esquecer o que é ser amada de verdade?
Como esquecer o toque com carinho, o sexo com dedicação, a segurança e o amor?
Mas não há lugar pra mim na sua história. Só me cabe no universo paralelo que criamos.
Enquanto meu mundo desabou por causa dele, o dele continua resguardado e intacto.
Minha vida remexida e revirada. Casamento por um fio, exposta, humilhada. Desacreditada. Lutando por um amor que não pode ser meu.
Tantas vezes me perguntei porque não consigo sair disso. Porque não consigo admitir que nossa história não é para essa vida?
Há muitos assuntos mal resolvidos na vida dele, que vão levar mais que essa vida pra serem resolvidos. E enquanto ele não superar isso, não vamos poder viver nosso amor. Ele me ajuda na minha evolução, mas não consegue cumprir a sua.
E com isso, o preço que pagamos é o nosso sofrimento. Estarmos longe um do outro.
Ele talvez só pense no que tem feito por mim, como tem ajudado na minha evolução. Mas não entendeu ainda que a evolução dele é tão importante quanto a minha.
Eu sei hoje que nossa luta não vem dessa vida. Nossa dívida com outras pessoas têm nos mantido afastados durante muito mais tempo do que imaginamos.
Penso em ir embora da sua vida. Pra poder voltar pra minha. Minha vida fria e sem cor. Eu queria que ele me deixasse partir.
Mas a nossa evolução nos prende um ao outro.
E ambos estamos causando o sofrimento em nós. E talvez, não vamos conseguir superar isso. E mais uma vez, mais uma vida, vamos desperdiçar o amor. E vamos pagar o preço por isso. Sofrendo agora.
Eu posso pedir pra ele ir. E sei que ele vai fazer isso por mim. Porque eu já pedi pra ele ficar ao meu lado e aceitar que eu estou com ele para o ajudar a superar suas dívidas com as pessoas que ele tem ao seu redor. Mas ele não aceita minha mão estendida.
Enquanto isso ele se concentra nos meus problemas e na minha evolução. E ele está traindo sua própria evolução.
O nosso amor é imortal. E como eu disse, talvez não tenho seu encontro nessa vida.
E é por isso que eu penso se realmente devo insistir. Se devo deixar meu coração nas suas mãos. Porque talvez não seja o momento dele. E ele precise de mais tempo.
Então, eu só peço aos meus anjos que me protegem que me façam ver e aceitar o que o coração dele tem pra mim.
Me conforta ter a certeza que nosso destino é estar juntos. Mas me entristece saber que talvez não seja agora.
Tenho medo da morte e da perda. Tenho medo de não saber mais seguir sem ele. Mas sei que precisamos passar por tudo isso.
E hoje, a única e mais sincera coisa que espero dele é que me diga que não espero em vão. Mas se ele acha que essa vida ainda é pouco para ele estar pronto pra mim, que ele me diga. Porque eu simplesmente vou esperar. Mais 20 anos. 200 anos. 2000 mil se for preciso. Mas eu ainda vou viver esse amor. Por ele e por mim. Pra sempre.
2018. A vida vai entrando nos eixos aos poucos. Acho que estou no caminho certo. Faculdade concluída, pós em andamento. Cirurgia feita. Se não fosse pela perda do bebê, talvez eu estivesse melhor. Mas são os revezes da vida. Faz parte.
Mas a verdade é que não. Estou sozinha. Casada e só. A solidão a dois é uma coisa muito forte. Por fora um casamento feliz. Realizações, viagens, compramos uma casa, trocamos de carro a cada dois, três anos. Filho com saúde. As coisas indo bem.
Por dentro, solidão. Não se pode ter tudo.
Dentro de quatro paredes, muita coisa sem sentido. A falta de afeto no dia a dia, a busca incansável em agradar. Andar separados, sem beijos ou carinhos fora da cama. Surpresas e presentes atrelados ao sexo. Por vezes ajo e me sinto como uma prostituta.
Ele me trata como uma. Me agrada na hora do sexo. Fora isso, dois amigos com algumas despesas em comum e um filho.
Mas todos nos vêem como um casal modelo. Sem uma briga, sem discussões. Onde um vai o outro está junto.
Na verdade, o que todos acham que é cumplicidade e amor, pra mim é só posse. Mas segue a vida.
E um dia, meio do ano mais ou menos, uma mensagem por uma rede social: oi, sou seu Anjo, 20 anos depois, lembra de mim? Um perfil sem foto, com informações estranhas. Mas se eu me lembro? Claro que sim.
Quando saí do meu primeiro emprego, nosso contato ficou muito limitado. Nos vimos ainda uma vez, ele foi me ver. Depois, a distância e as dificuldades da época com relação à comunicação nos fizeram perder o contato. Nossas vidas seguiram rumos muito diferentes.
Na primeira conversa já me senti a vontade. Reconhecendo tantas coisas que foram importantes pra mim. Redescobrindo coisas. Conhecendo outras.
Surpresa, que ele ainda está casado, tem mais um filho. Uma certa melancolia bate em mim. Um filho que por vezes quis ter com ele.
Mais tarde descubro que na verdade eram mais dois... Mas isso é outra história.
Vamos conversando com alguma frequência. Passo a ficar ansiosa por esses momentos. Passamos a conversar mais vezes. A internet é uma ferramenta poderosa.
Ele quer saber de mim. Tem sede e pressa de descobrir 20 anos de histórias..
Os dias passam, e o que eram conversas espaçadas começam a virar uma rotina.
Sua presença passa a fazer parte da minha vida constantemente. De repente, não saio mais do telefone.
Os sentimentos vão reaparecendo. Começo a sentir sua falta. Sua rotina me dá uns dias longe da família, no trabalho ele está sempre mais disponível pra mim.
Mas os seus períodos em casa são longos. E eventualmente ele some. Viagens com a família, passeios. Tem uma vida agitada.
E nos dias de ausência, sinto sua falta.
Quando percebo, já estou com todos os sentimentos por ele novamente despertos. Vinte anos adormecidos. Tantas lembranças de volta. E eu começo a me preparar para sofrer de novo.
Primeiro golpe foi sua sinceridade habitual: vida estabilizada, casamento sólido, filhos em formação. Não pretende mexer em nenhum destes pilares.
E então, me pergunto porque ele veio atrás de mim, depois de tantos anos? Porque veio despertar um amor há tanto tempo adormecido? Acho que está somente querendo testar se ainda sinto algo por ele.
Penso neste momento que devo parar. Hora de parar com isso. Já tive uma experiência muito ruim com isso no passado, e a sua ausência moldou a minha vida dali pra frente. Não quero isso de novo.
Mas ele começa a dividir coisas comigo. Quando sofreu uma perda importante na sua vida, falou comigo. Isso me tocou. Problemas sérios com um dos filhos. Dividiu comigo também. A teia de confiança e cuidado um com o outro crescia. Difícil sair.
Começam os questionamentos pelo meu passado. Sei que fiz inúmeras burradas desde que nos separamos. Hoje penso que foi uma forma que eu mesma achei de me punir e não me envolver. Porque amar me fez sofrer demais. Posso dizer com toda a convicção do mundo que não amei ninguém depois dele. Gostei, me encantei, passou. Amor, nunca mais vivi.
Mais uma vez ele me joga a realidade. Em uma ligação, deixa claro de novo que me procurou pra saber como eu estava, pra saber de mim. Nada mais que isso. Havia carinho. Não havia amor.
Mas mesmo assim meu coração espera ansioso por cada mensagem dele. As coisas começam a ficar estranhas em casa comigo.
Conversamos sobre tudo. Nosso assunto preferido, sempre sexo. Gostamos da provocação. Estou totalmente envolvida. Ele, sempre reservado, vai se abrindo ao poucos. Conectados novamente. Como se nunca tivéssemos nos afastado. Amor de novo. Intenso, verdadeiro.
Mas ele tem uma vida construída, e aos poucos vou deixando a minha realidade ser aberta.
Em casa, cada dia pior. Ciúmes, discussões, mensagens lidas.
Mas eu só penso nele. Minto, disfarço. Crio situações insustentáveis. Preciso vê-lo.
Ele quer me ver. Nem acredito nisso.
Mas a coragem falta. As mensagens lidas me fazem temer. Ele não consegue disfarçar o desapontamento.
O tempo passa, a sincronia, intimidade e sentimentos só aumentam.
Finalmente ele reconhece também seu envolvimento. Seu amor. Vou às nuvens. Um sonho. O amor de uma vida inteira.
Mas não passa disso. Amor platônico, à distância. Sem chances de ser mais.
Começo a descobrir fantasmas em seu passado. Situações que têm um peso impossível de se carregar.
Ele está preso no seu passado. E o preço disso é a nossa história.
Eu me revolto, choro, não consigo acreditar. Tanto amor, tanta coisa pra viver juntos. Mas nosso passado vai nos afastar.
O primeiro encontro, da apreensão à explosão de amor. E todos os outros dali por diante.
No meu coração não há espaço pra mais nada. Meu corpo só descansa no seu.
Os momentos juntos, sonho e realidade se misturam. O prazer fora do normal. O entendimento. Tudo é intenso.
Mas ele não consegue. Ele simplesmente não acha um lugar pra mim na sua vida.
Seus medos, seus fantasmas, sua dívida. Não há espaço pra mim.
Por mais que ele diga que sim. Eu sei que não.
Novamente eu me revolto. Mais uma vez a dor de não ser a escolhida. A rejeição. Um amor maior que eu e ele juntos. Fadado a não ser nada mais que um lugar de boas memórias.
Eu penso em o quanto a minha vida se transformou depois que ele voltou. Tudo está revirado. Cabeça, coração. Tudo pelo avesso. Avesso ao real que eu vivo.
Imploro, choro, rastejo. Hora penso que posso viver com a sobra do seu amor. Hora acredito que isso vai acabar com o amor que tenho por ele.
Tento, Deus sabe disso, que eu tentei tirá-lo da minha vida. Voltar para a mediocridade que eu vivia antes. Tocar a vida. Voltar ao lugar de antes.
Mas como? Como simplesmente esquecer o que é ser amada de verdade?
Como esquecer o toque com carinho, o sexo com dedicação, a segurança e o amor?
Mas não há lugar pra mim na sua história. Só me cabe no universo paralelo que criamos.
Enquanto meu mundo desabou por causa dele, o dele continua resguardado e intacto.
Minha vida remexida e revirada. Casamento por um fio, exposta, humilhada. Desacreditada. Lutando por um amor que não pode ser meu.
Tantas vezes me perguntei porque não consigo sair disso. Porque não consigo admitir que nossa história não é para essa vida?
Há muitos assuntos mal resolvidos na vida dele, que vão levar mais que essa vida pra serem resolvidos. E enquanto ele não superar isso, não vamos poder viver nosso amor. Ele me ajuda na minha evolução, mas não consegue cumprir a sua.
E com isso, o preço que pagamos é o nosso sofrimento. Estarmos longe um do outro.
Ele talvez só pense no que tem feito por mim, como tem ajudado na minha evolução. Mas não entendeu ainda que a evolução dele é tão importante quanto a minha.
Eu sei hoje que nossa luta não vem dessa vida. Nossa dívida com outras pessoas têm nos mantido afastados durante muito mais tempo do que imaginamos.
Penso em ir embora da sua vida. Pra poder voltar pra minha. Minha vida fria e sem cor. Eu queria que ele me deixasse partir.
Mas a nossa evolução nos prende um ao outro.
E ambos estamos causando o sofrimento em nós. E talvez, não vamos conseguir superar isso. E mais uma vez, mais uma vida, vamos desperdiçar o amor. E vamos pagar o preço por isso. Sofrendo agora.
Eu posso pedir pra ele ir. E sei que ele vai fazer isso por mim. Porque eu já pedi pra ele ficar ao meu lado e aceitar que eu estou com ele para o ajudar a superar suas dívidas com as pessoas que ele tem ao seu redor. Mas ele não aceita minha mão estendida.
Enquanto isso ele se concentra nos meus problemas e na minha evolução. E ele está traindo sua própria evolução.
O nosso amor é imortal. E como eu disse, talvez não tenho seu encontro nessa vida.
E é por isso que eu penso se realmente devo insistir. Se devo deixar meu coração nas suas mãos. Porque talvez não seja o momento dele. E ele precise de mais tempo.
Então, eu só peço aos meus anjos que me protegem que me façam ver e aceitar o que o coração dele tem pra mim.
Me conforta ter a certeza que nosso destino é estar juntos. Mas me entristece saber que talvez não seja agora.
Tenho medo da morte e da perda. Tenho medo de não saber mais seguir sem ele. Mas sei que precisamos passar por tudo isso.
E hoje, a única e mais sincera coisa que espero dele é que me diga que não espero em vão. Mas se ele acha que essa vida ainda é pouco para ele estar pronto pra mim, que ele me diga. Porque eu simplesmente vou esperar. Mais 20 anos. 200 anos. 2000 mil se for preciso. Mas eu ainda vou viver esse amor. Por ele e por mim. Pra sempre.
Mente sã, corpo são.
Então, o inverso também deve ser verdadeiro. Nas ciências exatas, grandezas diretamente proporcionais.
Difícil é dizer quem comanda o quê. Porque não sei mais se meu corpo está doente porque minha mente está doente, ou se minha mente adoeceu porque meu corpo não está bem.
Tomo o remédio e vou dormir. Um amigo médico me disse que é um indutor do sono. Não te mantém dormindo. Te faz dormir. Eu já havia descoberto isso.
Acordo por volta das 02:30h. Virou um hábito. Vou ao banheiro. Tenho sede também. Bebo o resto da água da garrafa sobre a cômoda. Foi meu erro.
O celular está aceso. Isso me incomoda. Desbloqueio a tela e vejo: whatsapp fazendo donwload. Vejo sua última mensagem. Pergunta se já vou dormir. Fico triste por não ter respondido. Não gosto de dormir sem me despedir. Mas agora é tarde. Literalmente.
Volto pra cama. Sinto uma dor de cabeça começando, bem longe. Penso em tomar um remédio logo. Tomei a água toda. Agora já era. Abrir a porta do quarto está fora de cogitação. Voltou a fazer barulho. Isso me irrita muito. Acorda a casa toda se for abrir. Porque ele demora tanto para resolver essas coisas simples? Tento dormir. Felizmente o sono vem logo. Ou infelizmente.
Tenho sonhos estranhos. Momentos agradáveis entre amigos. Dificuldade em me mover. Um sonho que vem se repetindo. Lembro que tenho que falar sobre isso com o psiquiatra. As pernas não me obedecem no sonho. Pequenas distâncias são um martírio pra percorrer. Sonho com duas mulheres sendo abusadas por um jacaré em miniatura, que está dentro do corpo delas. Há sangue e dor. Sonhos são estranhos.
A cabeça começa a doer mais. Acordo. Me mexo. Ele está ressonando tão alto. Não chega a ser um ronco. Mas incomoda. Me deito para os pés da cama. Muito comum também. Sempre faço isso. Ele já se acostumou.
Volto a dormir. Sonho com um elevador. Engraçado. Sonho bastante com elevadores. Não sei o que isso significa. Normalmente não consigo chegar ao andar que quero. Há muita gente dentro do elevador.
A dor na cabeça me acorda. Os olhos doem. A sensação é que estão empurrando seus olhos pra dentro. A testa dói também. A parte da frente da cabeça. A dor é pulsante. Acompanha as batidas do meu coração.
Está amanhecendo. Que droga, quando vamos colocar uma cortina neste quarto? Só depois do gesso, ele sempre responde. Porque eu sou tão passiva com essas coisas?
A claridade começa a me incomodar muito. Viro de lado, de costas para a janela. Mas isso faz meus seios doerem. Reflexo da cirurgia ainda.
Deito de costas. Coloco o braço sobre os olhos. Porque fui beber a água toda?Penso em tomar o remédio com a água da torneira.
Cochilo um pouco.
Acordo de novo com a dor de cabeça mais forte ainda. O braço sobre os olhos está incomodando. A pressão sobre eles gera imagens estranhas dentro do meu cérebro. Preciso tirar o braço dos olhos. Não consigo.
De repente, me dei conta que estou imóvel.
Ouço a respiração dele do outro lado da cama. O ar condicionado está ligado. Arma e desarma pela oscilação da temperatura. Um carro passa na rua.
E eu não consigo me mexer. Acho que é coisa da minha cabeça. Preciso tirar o braço dos olhos. Está doendo.
Ouço o sangue passando por alguma veia perto dos meus ouvidos. O som é alto. Faz minha cabeça doer mais.
Preciso me mexer. Fico com medo. O coração acelera e o som do sangue aumenta.
O braço pesa. De repente, sinto minha boca formigando. Dormente. Somente o lado esquerdo. Agora minha mão esquerda. Meu pé. Só o lado esquerdo. Penso em um derrame. Não sei. A cabeça dói absurdamente. Preciso chamá-lo. Não consigo me mover.
Tento relaxar o corpo. E a cada tentativa, meu corpo se contrai mais. Os dedos das mãos, lentamente estão se fechando. Um por um. Uma mão sobre o rosto. A outra sobre a barriga. Os dedos doem de tanto se contraírem. Eu simplesmente não consigo me mexer.
As mãos, agora completamente fechadas. A cabeça latejando de dor. E eu não me mexo. Nenhum centímetro do meu corpo se mexe.
A boca extremamente seca. Eu preciso sair disso.
Penso nele. No Anjo. Ele pediu que eu acendesse uma vela para meu anjo da guarda. Não tive como fazer isso. Penso nele de novo. Preciso sair disso.
Rezo. Ele sempre me pergunta se eu rezei. Rezo. Peço a Deus que me ajude. Tento chamar marido que dorme profundamente ao meu lado.
Continuo rezando. Consigo afastar a perna, toco no travesseiro dele. Ele está tão distante. Que droga. Sempre dorme perto de mim. Hoje parece que a cama é muito maior do que é realmente. Não consigo emitir nenhum som.
A cabeça está me enlouquecendo. Sinto enjoo. Se eu vomitar aqui vou morrer sufocada. Ninguém vai ver.
As lágrimas escorrem pelos meus olhos. Movimento a perna mas ele não acorda. A força que faço pra isso faz minha cabeça doer mais ainda. Me esforço mais. Senhor, me ajude. Começo a gemer. Bato a perna nele. O braço sobre os olhos, não consigo engolir a saliva que se acumula na minha garganta. Acho que agora vou morrer.
Penso no Anjo. Rezo de novo. Finalmente ele se acorda.
Pergunta o que está acontecendo. Eu não consigo falar. As lágrimas escorrem. Eu peço no meu pensamento pra ele tirar o meu braço dos meus olhos. Ele percebe minhas mãos contraídas. Me abraça. Idiota.. eu grito no meu pensamento. Estou sufocando, não me abrace, solte meus braços. Ele não sabe o que fazer. Coloca o seu braço sobre o meu na minha barriga. Eu só consigo chorar. Agora mal consigo respirar e ele não percebe. Só piora.
Enfim ele percebe. Tira meus braços do lugar. Estão tão tensos que dói. Tenta abrir minhas mãos. O corpo está se soltando. Está passando. Ainda não consigo falar.
Penso que preciso ir para um hospital. A cabeça está insuportável. Os mínimos sons doem profundamente na minha cabeça.
Já tive algumas crises de enxaqueca. Já me senti paralisada assim antes. Mas não tudo junto.
Preciso parar. Vou falar com o psiquiatra. Mas se ele me afastar das minhas atividades, acabou minha carreira. Ninguém quer uma gerente com problemas psicológicos. E se eu ficar em casa, minha família vai ficar apavorada.
Consigo dizer pra ele que estou com dor de cabeça. Ele não quer me dar o remédio porque estou de estômago vazio. Eu insisto. Ele vai buscar água. Quando abre a porta, quase morro com o barulho. Que ódio dessa porta.
Não sei mais o que pensar. Estou doente. Só não sei se do corpo, da mente ou do espírito. Ou de tudo junto.
Penso no Anjo. De longe, me ajudando. Mas se eu estivesse sozinha, teria saído disso?
O medo. Sempre o medo ao meu redor. Estou perdendo a razão. A noção e o bom senso. Não consigo mais me manter sã. Estou apavorada.
Muito.
Eu penso na paz que preciso. O remédio começa a fazer efeito. Fecho os olhos novamente. Não quero abrir mais.
Difícil é dizer quem comanda o quê. Porque não sei mais se meu corpo está doente porque minha mente está doente, ou se minha mente adoeceu porque meu corpo não está bem.
Tomo o remédio e vou dormir. Um amigo médico me disse que é um indutor do sono. Não te mantém dormindo. Te faz dormir. Eu já havia descoberto isso.
Acordo por volta das 02:30h. Virou um hábito. Vou ao banheiro. Tenho sede também. Bebo o resto da água da garrafa sobre a cômoda. Foi meu erro.
O celular está aceso. Isso me incomoda. Desbloqueio a tela e vejo: whatsapp fazendo donwload. Vejo sua última mensagem. Pergunta se já vou dormir. Fico triste por não ter respondido. Não gosto de dormir sem me despedir. Mas agora é tarde. Literalmente.
Volto pra cama. Sinto uma dor de cabeça começando, bem longe. Penso em tomar um remédio logo. Tomei a água toda. Agora já era. Abrir a porta do quarto está fora de cogitação. Voltou a fazer barulho. Isso me irrita muito. Acorda a casa toda se for abrir. Porque ele demora tanto para resolver essas coisas simples? Tento dormir. Felizmente o sono vem logo. Ou infelizmente.
Tenho sonhos estranhos. Momentos agradáveis entre amigos. Dificuldade em me mover. Um sonho que vem se repetindo. Lembro que tenho que falar sobre isso com o psiquiatra. As pernas não me obedecem no sonho. Pequenas distâncias são um martírio pra percorrer. Sonho com duas mulheres sendo abusadas por um jacaré em miniatura, que está dentro do corpo delas. Há sangue e dor. Sonhos são estranhos.
A cabeça começa a doer mais. Acordo. Me mexo. Ele está ressonando tão alto. Não chega a ser um ronco. Mas incomoda. Me deito para os pés da cama. Muito comum também. Sempre faço isso. Ele já se acostumou.
Volto a dormir. Sonho com um elevador. Engraçado. Sonho bastante com elevadores. Não sei o que isso significa. Normalmente não consigo chegar ao andar que quero. Há muita gente dentro do elevador.
A dor na cabeça me acorda. Os olhos doem. A sensação é que estão empurrando seus olhos pra dentro. A testa dói também. A parte da frente da cabeça. A dor é pulsante. Acompanha as batidas do meu coração.
Está amanhecendo. Que droga, quando vamos colocar uma cortina neste quarto? Só depois do gesso, ele sempre responde. Porque eu sou tão passiva com essas coisas?
A claridade começa a me incomodar muito. Viro de lado, de costas para a janela. Mas isso faz meus seios doerem. Reflexo da cirurgia ainda.
Deito de costas. Coloco o braço sobre os olhos. Porque fui beber a água toda?Penso em tomar o remédio com a água da torneira.
Cochilo um pouco.
Acordo de novo com a dor de cabeça mais forte ainda. O braço sobre os olhos está incomodando. A pressão sobre eles gera imagens estranhas dentro do meu cérebro. Preciso tirar o braço dos olhos. Não consigo.
De repente, me dei conta que estou imóvel.
Ouço a respiração dele do outro lado da cama. O ar condicionado está ligado. Arma e desarma pela oscilação da temperatura. Um carro passa na rua.
E eu não consigo me mexer. Acho que é coisa da minha cabeça. Preciso tirar o braço dos olhos. Está doendo.
Ouço o sangue passando por alguma veia perto dos meus ouvidos. O som é alto. Faz minha cabeça doer mais.
Preciso me mexer. Fico com medo. O coração acelera e o som do sangue aumenta.
O braço pesa. De repente, sinto minha boca formigando. Dormente. Somente o lado esquerdo. Agora minha mão esquerda. Meu pé. Só o lado esquerdo. Penso em um derrame. Não sei. A cabeça dói absurdamente. Preciso chamá-lo. Não consigo me mover.
Tento relaxar o corpo. E a cada tentativa, meu corpo se contrai mais. Os dedos das mãos, lentamente estão se fechando. Um por um. Uma mão sobre o rosto. A outra sobre a barriga. Os dedos doem de tanto se contraírem. Eu simplesmente não consigo me mexer.
As mãos, agora completamente fechadas. A cabeça latejando de dor. E eu não me mexo. Nenhum centímetro do meu corpo se mexe.
A boca extremamente seca. Eu preciso sair disso.
Penso nele. No Anjo. Ele pediu que eu acendesse uma vela para meu anjo da guarda. Não tive como fazer isso. Penso nele de novo. Preciso sair disso.
Rezo. Ele sempre me pergunta se eu rezei. Rezo. Peço a Deus que me ajude. Tento chamar marido que dorme profundamente ao meu lado.
Continuo rezando. Consigo afastar a perna, toco no travesseiro dele. Ele está tão distante. Que droga. Sempre dorme perto de mim. Hoje parece que a cama é muito maior do que é realmente. Não consigo emitir nenhum som.
A cabeça está me enlouquecendo. Sinto enjoo. Se eu vomitar aqui vou morrer sufocada. Ninguém vai ver.
As lágrimas escorrem pelos meus olhos. Movimento a perna mas ele não acorda. A força que faço pra isso faz minha cabeça doer mais ainda. Me esforço mais. Senhor, me ajude. Começo a gemer. Bato a perna nele. O braço sobre os olhos, não consigo engolir a saliva que se acumula na minha garganta. Acho que agora vou morrer.
Penso no Anjo. Rezo de novo. Finalmente ele se acorda.
Pergunta o que está acontecendo. Eu não consigo falar. As lágrimas escorrem. Eu peço no meu pensamento pra ele tirar o meu braço dos meus olhos. Ele percebe minhas mãos contraídas. Me abraça. Idiota.. eu grito no meu pensamento. Estou sufocando, não me abrace, solte meus braços. Ele não sabe o que fazer. Coloca o seu braço sobre o meu na minha barriga. Eu só consigo chorar. Agora mal consigo respirar e ele não percebe. Só piora.
Enfim ele percebe. Tira meus braços do lugar. Estão tão tensos que dói. Tenta abrir minhas mãos. O corpo está se soltando. Está passando. Ainda não consigo falar.
Penso que preciso ir para um hospital. A cabeça está insuportável. Os mínimos sons doem profundamente na minha cabeça.
Já tive algumas crises de enxaqueca. Já me senti paralisada assim antes. Mas não tudo junto.
Preciso parar. Vou falar com o psiquiatra. Mas se ele me afastar das minhas atividades, acabou minha carreira. Ninguém quer uma gerente com problemas psicológicos. E se eu ficar em casa, minha família vai ficar apavorada.
Consigo dizer pra ele que estou com dor de cabeça. Ele não quer me dar o remédio porque estou de estômago vazio. Eu insisto. Ele vai buscar água. Quando abre a porta, quase morro com o barulho. Que ódio dessa porta.
Não sei mais o que pensar. Estou doente. Só não sei se do corpo, da mente ou do espírito. Ou de tudo junto.
Penso no Anjo. De longe, me ajudando. Mas se eu estivesse sozinha, teria saído disso?
O medo. Sempre o medo ao meu redor. Estou perdendo a razão. A noção e o bom senso. Não consigo mais me manter sã. Estou apavorada.
Muito.
Eu penso na paz que preciso. O remédio começa a fazer efeito. Fecho os olhos novamente. Não quero abrir mais.
sábado, 25 de abril de 2020
Dia cinza
Não. Não amanheceu chovendo. Nem nublado. Um dia de sol. Como tantos outros por aqui. Mas alguma coisa está cinza dentro de mim.
Tenho medo de dias assim. Sei que vai ser um dia longo.
Acordo parecendo que estou bêbada. Têm dias que a impressão que tenho é que o remédio pra dormir começou a fazer efeito na hora de acordar. É horrível.
Tomo um banho pra espantar o sono. Mal consigo manter os olhos abertos. Conheço a sensação. Tem sido comum.
Ele está preparando o café. Nem fome eu sinto. Mas não tem como escapar. Vou pra cozinha. Aquele momento constrangedor de sempre. Hoje nem me esforço pra conversar. Estou em outra dimensão.
Penso no dia de trabalho. Vou vestir o que pra sair hoje? Talvez a mesma roupa de ontem. Tanto faz.
A hora se arrasta. Ele não vai embora. Estou inquieta. Vontade de voltar pra cama. Avalio a possibilidade de não ir trabalhar. Penso numa desculpa. Febre? Tosse? Em época de pandemia seria a desculpa perfeita. Só que não gosto disso. Inventar doença. Deus castiga. E a minha conta já está muito alta.
Começo a arrumar o quarto. Ele está sentado em um canto do quarto me olhando. Não gosto disso. Parece um raio x.
Sigo na arrumação sem sentido. Os minutos se arrastam.
Ele ensaia um tchau. Dou um beijo. Finalmente ele se vai.
Estou cansada e ainda não são sete horas da manhã. Me deito na cama ainda desarrumada. Preciso me vestir. Os olhos pesam. Confiro o despertador no celular, fecho os olhos. Entregue. Não quero levantar mais.
Os pensamentos correm velozes. Não há controle. Você pensa no esforço que vai ter que fazer para passar o dia. Aperto os olhos para impedir as lágrimas. É mais forte do que eu.
Sempre uma sensação de peso. O mundo sob seus ombros. O choro te domina. Você nem sabe mais ao certo porque chora.
Você só quer paz. Não consegue mais enfrentar as situações do dia a dia. Não quero nem abrir os olhos. A claridade do dia é uma afronta à sua alma triste e cansada.
Preciso levantar. Me vestir. Meu corpo está pesado, muito pesado. Não me obedece. A garganta apertada com uma vontade eterna de chorar. Você só pensa que não dá mais.
A porta está fechada. Assim como meus olhos. Penso nas dificuldades, nas coisas que terei que enfrentar durante o dia.
As coisas no trabalho não esperam. Já ando dispersa demais. Preciso de foco.
Penso em levantar. Uma mão pesada me prende na cama. Uma mão invisível. Má. Essa mão hora está sob meu coração, apertando. Hora na minha garganta, me impedindo de respirar. Eu luto pra continuar viva.
O choro vai cessando lentamente. A boca seca. O coração cansado. Você só pensa que não quer mais.
Não quer mais se levantar. Lutar para realizar o mínimo possível das suas tarefas diárias. Lutar para vencer a inércia.
Você não sente fome. Você não sente sede. Você se sente só. Exausta. Simplesmente chegou ao seu limite. Não dá mais.
Seu coração suspira aliviado. Finalmente você percebeu que não vale mais a pena lutar. Você não tem mais energia para isso. Só precisa deitar e não se levantar mais.
E esta constatação te traz alento. A paz que vc procura. Você só precisa não abrir mais os olhos. Só precisa dar um passo para a escuridão e se entregar.
E nessa entrega você enxerga paz. A paz que vc quer, que seu coração merece. Fechar os olhos, mergulhar na escuridão.
Você pensa nas suas opções. As caixas de medicamento estão sob a cômoda. Tanto me esforcei que convenci a todos que não precisam se preocupar com isso. Podiam deixar novamente os remédios próximos a mim. Não faria nada a este respeito.
Olho para a porta do banheiro. Me trancar lá. Tomar todos os comprimidos, esperam o mundo se apagar de vez... Paz. Você só vê isso ao seu redor. Descansar das suas lutas, do esforço diário para fingir que está tudo bem. Mas se alguém notar a minha falta antes da hora, pode dar errado. Quais as minhas outras opções?
Penso na janela do banheiro. Posso passar um cinto. Presa pelo pescoço, onde tantas vezes me senti sufocada.
De repente, penso no meu filho, me vendo pendurada pela pescoço, na janela do banheiro. Penso em minha mãe desesperada, sabendo que estou presa dentro do banheiro e não respondo. Quem vai me achar? Da última vez que isso aconteceu, havia um anjo lutando por mim. Mas agora, não haveria ninguém a fazer isso.
A certeza da paz se transforma em pesadelo. Não posso permitir isso. Não em casa. A sensação de falta de ar volta. As mãos formigam. A medida que o ar falta, o coração dispara e a cabeça roda. Você não sabe como se acalmar.
Tem que ser fora de casa, talvez no trabalho. Não consigo forças pra levantar. Preciso de uma forma de fazer acontecer.
Eles vão chorar por mim. Vão se culpar um pouco. Sentir falta talvez. Mas vai passar. Vão ver os sinais que eu vinha mostrando de não estar mais aguentando, que eles fingiram não ver.
Meu anjo talvez custe a saber. Não vai acreditar. Talvez vá se culpar.
A culpa. Desejando tirar a própria vida. Uma vida boa. Estabilizada. Uma vida cercada de realizações pessoais. Uma vida confortável. A culpa de novo. Fazer seus amores mais importantes sofrerem pra você ter paz. Culpa por cima de culpa.
O relógio chama, não descansei nada. Estou pior que antes.
Escovo os dentes. Me forço pra sair do banheiro. Visto qualquer coisa. Vou trabalhar. Não posso fingir e nem me enganar mais.
Guardo a culpa, o cansaço, o desânimo na caixinha que levo junto a mim. Fecho a caixa.
Sigo enfrente. Por mais essa eu escapei. Talvez pelas outras também,mas não posso mais arriscar, preciso de ajuda. Urgente.
Estou cansada e ainda não são sete horas da manhã. Me deito na cama ainda desarrumada. Preciso me vestir. Os olhos pesam. Confiro o despertador no celular, fecho os olhos. Entregue. Não quero levantar mais.
Os pensamentos correm velozes. Não há controle. Você pensa no esforço que vai ter que fazer para passar o dia. Aperto os olhos para impedir as lágrimas. É mais forte do que eu.
Sempre uma sensação de peso. O mundo sob seus ombros. O choro te domina. Você nem sabe mais ao certo porque chora.
Você só quer paz. Não consegue mais enfrentar as situações do dia a dia. Não quero nem abrir os olhos. A claridade do dia é uma afronta à sua alma triste e cansada.
Preciso levantar. Me vestir. Meu corpo está pesado, muito pesado. Não me obedece. A garganta apertada com uma vontade eterna de chorar. Você só pensa que não dá mais.
A porta está fechada. Assim como meus olhos. Penso nas dificuldades, nas coisas que terei que enfrentar durante o dia.
As coisas no trabalho não esperam. Já ando dispersa demais. Preciso de foco.
Penso em levantar. Uma mão pesada me prende na cama. Uma mão invisível. Má. Essa mão hora está sob meu coração, apertando. Hora na minha garganta, me impedindo de respirar. Eu luto pra continuar viva.
O choro vai cessando lentamente. A boca seca. O coração cansado. Você só pensa que não quer mais.
Não quer mais se levantar. Lutar para realizar o mínimo possível das suas tarefas diárias. Lutar para vencer a inércia.
Você não sente fome. Você não sente sede. Você se sente só. Exausta. Simplesmente chegou ao seu limite. Não dá mais.
Seu coração suspira aliviado. Finalmente você percebeu que não vale mais a pena lutar. Você não tem mais energia para isso. Só precisa deitar e não se levantar mais.
E esta constatação te traz alento. A paz que vc procura. Você só precisa não abrir mais os olhos. Só precisa dar um passo para a escuridão e se entregar.
E nessa entrega você enxerga paz. A paz que vc quer, que seu coração merece. Fechar os olhos, mergulhar na escuridão.
Você pensa nas suas opções. As caixas de medicamento estão sob a cômoda. Tanto me esforcei que convenci a todos que não precisam se preocupar com isso. Podiam deixar novamente os remédios próximos a mim. Não faria nada a este respeito.
Olho para a porta do banheiro. Me trancar lá. Tomar todos os comprimidos, esperam o mundo se apagar de vez... Paz. Você só vê isso ao seu redor. Descansar das suas lutas, do esforço diário para fingir que está tudo bem. Mas se alguém notar a minha falta antes da hora, pode dar errado. Quais as minhas outras opções?
Penso na janela do banheiro. Posso passar um cinto. Presa pelo pescoço, onde tantas vezes me senti sufocada.
De repente, penso no meu filho, me vendo pendurada pela pescoço, na janela do banheiro. Penso em minha mãe desesperada, sabendo que estou presa dentro do banheiro e não respondo. Quem vai me achar? Da última vez que isso aconteceu, havia um anjo lutando por mim. Mas agora, não haveria ninguém a fazer isso.
A certeza da paz se transforma em pesadelo. Não posso permitir isso. Não em casa. A sensação de falta de ar volta. As mãos formigam. A medida que o ar falta, o coração dispara e a cabeça roda. Você não sabe como se acalmar.
Tem que ser fora de casa, talvez no trabalho. Não consigo forças pra levantar. Preciso de uma forma de fazer acontecer.
Eles vão chorar por mim. Vão se culpar um pouco. Sentir falta talvez. Mas vai passar. Vão ver os sinais que eu vinha mostrando de não estar mais aguentando, que eles fingiram não ver.
Meu anjo talvez custe a saber. Não vai acreditar. Talvez vá se culpar.
A culpa. Desejando tirar a própria vida. Uma vida boa. Estabilizada. Uma vida cercada de realizações pessoais. Uma vida confortável. A culpa de novo. Fazer seus amores mais importantes sofrerem pra você ter paz. Culpa por cima de culpa.
O relógio chama, não descansei nada. Estou pior que antes.
Escovo os dentes. Me forço pra sair do banheiro. Visto qualquer coisa. Vou trabalhar. Não posso fingir e nem me enganar mais.
Guardo a culpa, o cansaço, o desânimo na caixinha que levo junto a mim. Fecho a caixa.
Sigo enfrente. Por mais essa eu escapei. Talvez pelas outras também,mas não posso mais arriscar, preciso de ajuda. Urgente.
sexta-feira, 24 de abril de 2020
Pai
Eu me lembro de acordar cedo aos domingos para ir à feira com você. Íamos só nós dois. Comer pastel e caldo de cana. Na época, eu não tinha dimensão do que isso significava, te ver bebendo tão cedo da manhã. Mas era a minha hora com você. A preguiça dos meus irmãos era minha aliada, ninguém queria acordar cedo aos domingos...
Você me levava para a escola. Eu acordava antes, pra estar pronta e não te dar trabalho.
Os domingos depois do almoço eram os meus momentos especiais também. Você no violão, e nós acompanhávamos cantando... La Bamba, Professorinha... Nelson Gonçalves... Essas canções ainda ecoam na minha cabeça e me levam para um tempo que a felicidade era nossa companheira.
Eu não entendia as lutas que você passava. Pra mim, a vida era tão boa, não sentia falta de nada.
Você fez um carrinho de rolimã para o mais novo. Isso foi fantástico... Você tinha a letra mais linda, adorava quando você fazia as capas dos meus trabalhos.
Você tinha orgulho de mim, eu sei disso. Ir na minha reunião de pais e mestres pra quê? Só elogios.
Você fez a árvore de natal. Um ano, arames e bolinhas de isopor pintadas de verde. Outro ano, garrafas pet. Eu nunca imaginei que aquilo era por não ter dinheiro. Porque a minha árvore era a mais especial, única. Ele fez pra mim.
Tudo você entendia. Advogado. Eu tinha tanto orgulho em dizer isso.
Uma pochete preta na cintura, dentro dela alguns trocados, seus documentos. Não tenho certeza, mas acho que você tinha fotos nossas na carteira.
Você gostava de colocar essência de eucalipto no banheiro na hora do banho. Dizia que parecia uma sauna. Eu achava tão engraçado...
Você era tão alto... lembro de você sempre assim. Grande. Bonito. Vaidoso.
Era o mais engraçado. Todos riam perto de você.
Mas seu olhar sempre teve alguma coisa de distante, de renúncia.
Falavam escondido que o seu sonho era ser arquiteto. Você desenhava tão bem. Mas foi ser advogado, porque tia e vó que pagaram sua faculdade, e elas queriam um doutor.
Nunca te vi atuar como advogado. Só uns ternos antigos no cabide deixavam uma pista sobre isso. E uma maleta bonita. Marrom. Tinha uma dessas. Coisa de doutor mesmo.
Eram tantas histórias sobre você. Mozão... era assim que você me chamava.
De repente, as coisas começaram a ficar estranhas.
A frequência que você começou a chegar alterado em casa aumentou. Eu sabia pela sua voz que você não estava bem. Mas você só chegava, falava alguma bobagem, deitava e dormia.
Um dia você não foi mais trabalhar. E nem no outro, e no outro. E eu entendi que alguma coisa errada estava acontecendo.
Ela começou a se desdobrar. Aluguel, três crianças. Não havia mais renda fixa em casa. Ela que sempre fez de tudo, agora fazia muito mais pra manter as coisas em pé.
Eu fui entendendo que você não estava bem. Passava o dia todo no sofá.
Não ajudava em nada. Às vezes nos criticava dizendo que ninguém mais ligava para o que você dizia em casa. Estava desmoralizado. Ela colocava a comida em casa, cuidava de tudo, e ainda lutava por você.
Mas ela nunca deixou transparecer nada. Acho que nunca vi vocês brigando, discutindo. Não tenho lembrança nenhuma disso.
Uma vez acordei de madrugada com o telefone tocando. Você estava de pé prontamente ao lado do móvel. Me viu, disse que era engano.
E de repente você se foi. Do nada. Não lembro direito, mas sei que ligou no natal e perguntou por nós. Ouvi alguma coisa sobre não abandonar seus filhos.
Mas ele se foi.
Simplesmente juntou suas coisas e saiu. Sem um beijo. Sem uma despedida, sem nenhuma explicação. Assim.
Sei que sua presença já nos incomodava na época. Já eramos maiores, e eu via todo o sacrifício que ela fazia, toda a humilhação que ela se sujeitava, e você inerte.
Eu não entendi nada. Dizia a todo mundo que nem tinha ligado, achava bom você ter ido.
As ligações de madrugada, depois fiquei sabendo, eram da amante ligando a cobrar pra falar com você.
A mesma pessoa. Há quase 10 anos, ou mais, não sei. O assunto sempre foi conversado nos cochichos em casa. Ela não disse uma palavra sobre você.
Nunca houve uma crítica, uma palavra de rancor.
Não sei o que passou no coração dela. Mas no meu, havia uma fingida indiferença. Eu não ligava pra o que você tinha feito.
O tempo passou. A mais velha ia se casar. Esperou por ele, não sabia se deveria ou não entrar com ele na igreja. E eu só dizia que se fosse comigo, não teria nem convidado. E ele não apareceu. Eu sabia, dizia pra mim mesma. Melhor esperar sempre o pior pra não sofrer mais.
Eu fui vencendo os degraus que surgiam à minha frente. Era uma questão de honra vencer. Eu assumi a minha família. Ajudava no que podia. Achava que a obrigação era minha, porque eu era a mais forte, a que teve melhores condições.
Mas eu sonhei com você e ela juntos. Você trabalhando, ela em casa cuidando do mais novo. Eu ia te ajudar a comprar um carro. Vocês iam me visitar nas férias. Eu ia comprar um presente pra você.
Eu fingia que não ligava, mas eu fazia por você.
Uma vez nos encontramos. Eu já estava formada. Disse isso pra você. Você perguntou se eu estava ganhando bem, eu disse o quanto, você desdenhou. Achei que você teria orgulho de mim. Continuei na minha pose de indiferença. Vida que segue.
O tempo foi passando, soube do meu novo irmão. Senti um pouco de ciúmes, mas quando fiquei inteirada da situação, quis ele pra mim. Queria cuidar dele, dar um futuro. Mas claro, só na minha cabeça. Nunca fiz um gesto pra me aproximar. Acho que por ela. Não sei.
Outro giro que a vida dá. Casada, com um filho de poucos meses, menos de um ano. A mais velha disse que ele está trabalhando em um bar... Meu Deus, que decadência. Quer ir vê-lo? Levar o neto pra ele conhecer?
Eu fui. E não sabia que seria a última vez que eu o veria. Ele pediu pra não chamar de vovô. Era "tio". Aquilo me entristeceu. Eu olhei pra ele e não o reconheci. Mal vestido, sem o seu bigode que era sua marca registrada. Olhar sofrido. Magro.
Eu não sabia que não teria outra chance. Ele adoeceu. Recebi um telefonema. Ele está internado. Quer vir vê-lo? Eu, orgulhosa, disse que não. Eu não fui. Ele morreu.
Na hora, a fingida indiferença. Eu não sabia que era tão grave assim. A mais velha ia cuidar dele. Eu não quis nem dar um telefonema. Ele morreu.
Acabou. Não tinha outro momento pra conversar e entender. Não havia mais momento pra perdoar e ser perdoada. Ele simplesmente morreu. Como ele pôde fazer isso comigo? Porque não me falaram que era tão grave. Ele se foi. Acabou. Agora, pego a minha fingida indiferença, transformo em remorso, e sigo. Eu não tinha brigado com ele. Dito que ele não podia ter me deixado. Eu não tinha falado pra ele que sabia que amor nenhum dura uma vida toda, que isso não era culpa dele. Não o amor entre homens e mulheres. Mas o amor de pai pra filha não podia acabar.
Eu não tinha chorado descontrolada gritando com ele, dizendo que eu não aceitava ele ter me deixado, eu não tinha recebido um abraço e ouvido ele dizer que foi em busca de ser feliz, mas nunca esqueceu de mim. Ele não me abraçou enquanto eu estava chorando pra me acalmar. Ele morreu.
Ele não me viu me tornar uma engenheira. Receber o diploma e a medalha de mérito estudantil. Ele não me viu crescer profissionalmente. Ele não me viu quebrar a cara e voltar pra casa sem trabalho. Ele não me viu chorar quando o amor da minha vida me deixou. Ele não me viu.
E eu não o via. Eu não enxergava nele toda a dor e sofrimento que ele carregou consigo durante anos. Eu não vi nele a desesperança de estar sem futuro. Eu não vi nele a vergonha de ser um provedor que não conseguia sustentar sua família. Eu não vi nele o homem em busca do amor.
Não consegui enxergar o quanto ele sofreu. O quanto deve ter sentido medo. Sozinho. Quantas vezes ele pensou em nós. Quantas vezes teve que beber para esquecer que nos abandonou.
Eu não vi um homem em busca de viver alguma coisa por conta própria, mesmo depois de maduro. Eu poderia ter realizado o sonho dele de ser arquiteto. Podia ter dado conselhos amorosos mais destrambelhados que a minha vida. Podia ter chorado a sua ausência. Eu não fiz isso.
Ele era lindo. Tão lindo. Inteligente. Engraçado. E eu tive dele o melhor e o pior que ele pôde me oferecer. Mas ele me fez quem eu sou. Em tantos aspectos sou como ele. Sonhadora. Desafiadora.
Seu amor preencheu a minha infância. Tanto amor... Sua ausência me tornou quem sou hoje.
Reli uma carta que ele escreveu pra nós. Eu tinha 5 anos. Senti de novo todo o amor que nos uniu. Esse amor não pode ter sumido do coração dele. E não sumiu.
Mas foi substituído talvez pelo sonho de ser feliz, e depois, quando as coisas melhorassem, um retorno aos poucos pra nos reconquistar. Mas as coisas nunca melhoraram.
Eu tenho hoje uma visão diferente do que ele viveu, e na verdade, um certo orgulho. Porque ele teve a coragem que talvez eu não tenha hoje. Ele foi corajoso demais. Foi atrás do amor que ele quis pra vida dele. Talvez um pouco tarde. Mas viveu isso.
Eu teria apoiado ele. Com certeza, teria. Porque todo mundo tem direito de amar. E viver o amor. Mesmo que por pouco tempo, e eu espero que ele tenha vivido isso. De coração.
Espero que ele tenha tido momentos de felicidade ao lado da mulher que ele sonhou pra ele. Espero que ele tenha encontrado a paz no abraço dela, mesmo que por pouco tempo.
Eu queria ter dividido esse momento com ele. O momento que ele me contaria que eu teria um irmão. Eu ia me sentir muito enciumada, mas ficaria tão feliz por ele. De ver o amor florescer em uma criança. O amor de duas pessoas que enfrentaram tanta coisa pra ficarem juntos.
Eu sinto orgulho dele. De verdade. Porque hoje sei que o amor é fundamental na nossa vida. E ele fez uma aposta grande. O nosso amor ele já tinha. E contava que um dia iríamos entender o que ele estava fazendo.
Pai, eu espero de coração que você tenha sido um pouco feliz. Isso é muito importante pra mim. Que você tenha se sentido realizado pelo menos mais uma vez na sua vida. Que tenha sentido a serenidade de repousar no abraço de quem se ama, porque essa é a melhor sensação da vida da gente.
Eu hoje entendo a sua escolha. Você escolheu o amor. E eu acho que você fez a melhor escolha da sua vida.
E de coração, Pai: me perdoa porque eu não deixei a minha braveza de lado. Eu senti demais a sua falta. Eu reclamei também por amor. Porque o amor que eu hoje espero pra minha vida é o amor que você me deu. E eu não aceito nada menos do que isso. Te amo.
Você me levava para a escola. Eu acordava antes, pra estar pronta e não te dar trabalho.
Os domingos depois do almoço eram os meus momentos especiais também. Você no violão, e nós acompanhávamos cantando... La Bamba, Professorinha... Nelson Gonçalves... Essas canções ainda ecoam na minha cabeça e me levam para um tempo que a felicidade era nossa companheira.
Eu não entendia as lutas que você passava. Pra mim, a vida era tão boa, não sentia falta de nada.
Você fez um carrinho de rolimã para o mais novo. Isso foi fantástico... Você tinha a letra mais linda, adorava quando você fazia as capas dos meus trabalhos.
Você tinha orgulho de mim, eu sei disso. Ir na minha reunião de pais e mestres pra quê? Só elogios.
Você fez a árvore de natal. Um ano, arames e bolinhas de isopor pintadas de verde. Outro ano, garrafas pet. Eu nunca imaginei que aquilo era por não ter dinheiro. Porque a minha árvore era a mais especial, única. Ele fez pra mim.
Tudo você entendia. Advogado. Eu tinha tanto orgulho em dizer isso.
Uma pochete preta na cintura, dentro dela alguns trocados, seus documentos. Não tenho certeza, mas acho que você tinha fotos nossas na carteira.
Você gostava de colocar essência de eucalipto no banheiro na hora do banho. Dizia que parecia uma sauna. Eu achava tão engraçado...
Você era tão alto... lembro de você sempre assim. Grande. Bonito. Vaidoso.
Era o mais engraçado. Todos riam perto de você.
Mas seu olhar sempre teve alguma coisa de distante, de renúncia.
Falavam escondido que o seu sonho era ser arquiteto. Você desenhava tão bem. Mas foi ser advogado, porque tia e vó que pagaram sua faculdade, e elas queriam um doutor.
Nunca te vi atuar como advogado. Só uns ternos antigos no cabide deixavam uma pista sobre isso. E uma maleta bonita. Marrom. Tinha uma dessas. Coisa de doutor mesmo.
Eram tantas histórias sobre você. Mozão... era assim que você me chamava.
De repente, as coisas começaram a ficar estranhas.
A frequência que você começou a chegar alterado em casa aumentou. Eu sabia pela sua voz que você não estava bem. Mas você só chegava, falava alguma bobagem, deitava e dormia.
Um dia você não foi mais trabalhar. E nem no outro, e no outro. E eu entendi que alguma coisa errada estava acontecendo.
Ela começou a se desdobrar. Aluguel, três crianças. Não havia mais renda fixa em casa. Ela que sempre fez de tudo, agora fazia muito mais pra manter as coisas em pé.
Eu fui entendendo que você não estava bem. Passava o dia todo no sofá.
Não ajudava em nada. Às vezes nos criticava dizendo que ninguém mais ligava para o que você dizia em casa. Estava desmoralizado. Ela colocava a comida em casa, cuidava de tudo, e ainda lutava por você.
Mas ela nunca deixou transparecer nada. Acho que nunca vi vocês brigando, discutindo. Não tenho lembrança nenhuma disso.
Uma vez acordei de madrugada com o telefone tocando. Você estava de pé prontamente ao lado do móvel. Me viu, disse que era engano.
E de repente você se foi. Do nada. Não lembro direito, mas sei que ligou no natal e perguntou por nós. Ouvi alguma coisa sobre não abandonar seus filhos.
Mas ele se foi.
Simplesmente juntou suas coisas e saiu. Sem um beijo. Sem uma despedida, sem nenhuma explicação. Assim.
Sei que sua presença já nos incomodava na época. Já eramos maiores, e eu via todo o sacrifício que ela fazia, toda a humilhação que ela se sujeitava, e você inerte.
Eu não entendi nada. Dizia a todo mundo que nem tinha ligado, achava bom você ter ido.
As ligações de madrugada, depois fiquei sabendo, eram da amante ligando a cobrar pra falar com você.
A mesma pessoa. Há quase 10 anos, ou mais, não sei. O assunto sempre foi conversado nos cochichos em casa. Ela não disse uma palavra sobre você.
Nunca houve uma crítica, uma palavra de rancor.
Não sei o que passou no coração dela. Mas no meu, havia uma fingida indiferença. Eu não ligava pra o que você tinha feito.
O tempo passou. A mais velha ia se casar. Esperou por ele, não sabia se deveria ou não entrar com ele na igreja. E eu só dizia que se fosse comigo, não teria nem convidado. E ele não apareceu. Eu sabia, dizia pra mim mesma. Melhor esperar sempre o pior pra não sofrer mais.
Eu fui vencendo os degraus que surgiam à minha frente. Era uma questão de honra vencer. Eu assumi a minha família. Ajudava no que podia. Achava que a obrigação era minha, porque eu era a mais forte, a que teve melhores condições.
Mas eu sonhei com você e ela juntos. Você trabalhando, ela em casa cuidando do mais novo. Eu ia te ajudar a comprar um carro. Vocês iam me visitar nas férias. Eu ia comprar um presente pra você.
Eu fingia que não ligava, mas eu fazia por você.
Uma vez nos encontramos. Eu já estava formada. Disse isso pra você. Você perguntou se eu estava ganhando bem, eu disse o quanto, você desdenhou. Achei que você teria orgulho de mim. Continuei na minha pose de indiferença. Vida que segue.
O tempo foi passando, soube do meu novo irmão. Senti um pouco de ciúmes, mas quando fiquei inteirada da situação, quis ele pra mim. Queria cuidar dele, dar um futuro. Mas claro, só na minha cabeça. Nunca fiz um gesto pra me aproximar. Acho que por ela. Não sei.
Outro giro que a vida dá. Casada, com um filho de poucos meses, menos de um ano. A mais velha disse que ele está trabalhando em um bar... Meu Deus, que decadência. Quer ir vê-lo? Levar o neto pra ele conhecer?
Eu fui. E não sabia que seria a última vez que eu o veria. Ele pediu pra não chamar de vovô. Era "tio". Aquilo me entristeceu. Eu olhei pra ele e não o reconheci. Mal vestido, sem o seu bigode que era sua marca registrada. Olhar sofrido. Magro.
Eu não sabia que não teria outra chance. Ele adoeceu. Recebi um telefonema. Ele está internado. Quer vir vê-lo? Eu, orgulhosa, disse que não. Eu não fui. Ele morreu.
Na hora, a fingida indiferença. Eu não sabia que era tão grave assim. A mais velha ia cuidar dele. Eu não quis nem dar um telefonema. Ele morreu.
Acabou. Não tinha outro momento pra conversar e entender. Não havia mais momento pra perdoar e ser perdoada. Ele simplesmente morreu. Como ele pôde fazer isso comigo? Porque não me falaram que era tão grave. Ele se foi. Acabou. Agora, pego a minha fingida indiferença, transformo em remorso, e sigo. Eu não tinha brigado com ele. Dito que ele não podia ter me deixado. Eu não tinha falado pra ele que sabia que amor nenhum dura uma vida toda, que isso não era culpa dele. Não o amor entre homens e mulheres. Mas o amor de pai pra filha não podia acabar.
Eu não tinha chorado descontrolada gritando com ele, dizendo que eu não aceitava ele ter me deixado, eu não tinha recebido um abraço e ouvido ele dizer que foi em busca de ser feliz, mas nunca esqueceu de mim. Ele não me abraçou enquanto eu estava chorando pra me acalmar. Ele morreu.
Ele não me viu me tornar uma engenheira. Receber o diploma e a medalha de mérito estudantil. Ele não me viu crescer profissionalmente. Ele não me viu quebrar a cara e voltar pra casa sem trabalho. Ele não me viu chorar quando o amor da minha vida me deixou. Ele não me viu.
E eu não o via. Eu não enxergava nele toda a dor e sofrimento que ele carregou consigo durante anos. Eu não vi nele a desesperança de estar sem futuro. Eu não vi nele a vergonha de ser um provedor que não conseguia sustentar sua família. Eu não vi nele o homem em busca do amor.
Não consegui enxergar o quanto ele sofreu. O quanto deve ter sentido medo. Sozinho. Quantas vezes ele pensou em nós. Quantas vezes teve que beber para esquecer que nos abandonou.
Eu não vi um homem em busca de viver alguma coisa por conta própria, mesmo depois de maduro. Eu poderia ter realizado o sonho dele de ser arquiteto. Podia ter dado conselhos amorosos mais destrambelhados que a minha vida. Podia ter chorado a sua ausência. Eu não fiz isso.
Ele era lindo. Tão lindo. Inteligente. Engraçado. E eu tive dele o melhor e o pior que ele pôde me oferecer. Mas ele me fez quem eu sou. Em tantos aspectos sou como ele. Sonhadora. Desafiadora.
Seu amor preencheu a minha infância. Tanto amor... Sua ausência me tornou quem sou hoje.
Reli uma carta que ele escreveu pra nós. Eu tinha 5 anos. Senti de novo todo o amor que nos uniu. Esse amor não pode ter sumido do coração dele. E não sumiu.
Mas foi substituído talvez pelo sonho de ser feliz, e depois, quando as coisas melhorassem, um retorno aos poucos pra nos reconquistar. Mas as coisas nunca melhoraram.
Eu tenho hoje uma visão diferente do que ele viveu, e na verdade, um certo orgulho. Porque ele teve a coragem que talvez eu não tenha hoje. Ele foi corajoso demais. Foi atrás do amor que ele quis pra vida dele. Talvez um pouco tarde. Mas viveu isso.
Eu teria apoiado ele. Com certeza, teria. Porque todo mundo tem direito de amar. E viver o amor. Mesmo que por pouco tempo, e eu espero que ele tenha vivido isso. De coração.
Espero que ele tenha tido momentos de felicidade ao lado da mulher que ele sonhou pra ele. Espero que ele tenha encontrado a paz no abraço dela, mesmo que por pouco tempo.
Eu queria ter dividido esse momento com ele. O momento que ele me contaria que eu teria um irmão. Eu ia me sentir muito enciumada, mas ficaria tão feliz por ele. De ver o amor florescer em uma criança. O amor de duas pessoas que enfrentaram tanta coisa pra ficarem juntos.
Eu sinto orgulho dele. De verdade. Porque hoje sei que o amor é fundamental na nossa vida. E ele fez uma aposta grande. O nosso amor ele já tinha. E contava que um dia iríamos entender o que ele estava fazendo.
Pai, eu espero de coração que você tenha sido um pouco feliz. Isso é muito importante pra mim. Que você tenha se sentido realizado pelo menos mais uma vez na sua vida. Que tenha sentido a serenidade de repousar no abraço de quem se ama, porque essa é a melhor sensação da vida da gente.
Eu hoje entendo a sua escolha. Você escolheu o amor. E eu acho que você fez a melhor escolha da sua vida.
E de coração, Pai: me perdoa porque eu não deixei a minha braveza de lado. Eu senti demais a sua falta. Eu reclamei também por amor. Porque o amor que eu hoje espero pra minha vida é o amor que você me deu. E eu não aceito nada menos do que isso. Te amo.
domingo, 19 de abril de 2020
Ele, o Anjo - 1999
Ele. Me chamava de meu anjo. Foi amor a primeira vista, embora eu não me lembre disso. Mas foi. Não tinha como ser diferente. Corpo e alma. Em um encontro que só se vive uma vez na vida.
Angel. Vou chamá-lo assim agora. Na época não me lembro de apelidos amorosos. Era a pressa em viver.
Uma troca de olhar. Cumplicidade instantânea. Entrosamento no trabalho. Gosto de estar perto dele. O tempo todo, procuramos motivos pra isso.
Sei pouco sobre ele. Até hoje é assim. Ele sabe tudo sobre mim. Do lado brilhante ao obscuro. E mesmo assim permanece ao meu lado.
Sou boa com idades. Uns 5 anos mais velho que eu. Eu tenho 18. Ele já é casado. Pai. Apesar de tudo, a atração é inegável. Estou saindo do meu primeiro relacionamento. Primeiro em tudo. Não sei ainda lidar muito bem com as questões do coração. Nem com as do corpo. Mas reconheço a tensão sexual entre nós dois. Da pra tocar, de tão densa.
Sou atrevida. Não sei fingir que não quero. Procuro por ele sempre que posso. Sei que ele gosta da atenção. Conversamos muito. Também sou boa nisso. Gosto de falar. Ele gosta de ouvir. Parceria perfeita.
Não me lembro como ele foi parar na minha cama. Mas foi. Várias vezes. Em qualquer lugar. Qualquer mesmo.
O encontro no sexo é intenso. Deixa marcas. Não no corpo. Na alma. Ele me completa. Não sei explicar o que nos une.
Cumplicidade. Olhares durante o dia
Espera pelos momentos a sós. Meu corpo reage à presença dele, sei que ele também sente isso. Percebo. Não tem como esconder.
Mas vai além do sexo. Seu olhar no meu me mostra isso. Sensação de segurança. Conforto. No seu abraço, nada de ruim vai me acontecer.
O tempo passa. Preciso ir embora. Será que volto? Como deixar pra trás um sentimento assim.
Notícias boas. Vou voltar. Vai demorar um tempo ainda, alguns meses, mas vai acontecer.
Nesse tempo, um telefonema. Surpresa. Não havíamos nos falado até então. Uma notícia, um choque. Vai ter outro filho. Como assim? O casamento não estava por um fio?
Desligo e choro. Muito. Pela noite a fora. Sozinha. Tudo em vão. Caí no velho golpe do casamento acabado, e agora ele vai ser pai novamente. Sentimento de vergonha, por ter acreditado nisso. Achei que era amor.
O tempo passa. Oportunidade de ir até ele. Não dá pra resistir. É inverno. Fomos até a praia. Nosso gosto por sexo em lugares públicos não passa. É surreal. De cinema. Intenso.
Hora de ir embora de novo. Congela o tempo. Esquece os problemas.
Sempre o tempo. Melhor remédio. Voltar para o mundo real. Deixar de pensar.
De novo o tempo. Estou de volta. Cara a cara, como se o próprio tempo não passasse. Não tem como evitar. Ele está na minha cama novamente.
Amor. Não sei bem identificar. Mas ele cuida de mim. Amor deve ser isso. Ele se preocupa. Quer que eu cuide de mim. Não entendo muito bem isso. Talvez minha aparência o incomode. Não sei.
De repente, tudo muda. Sua família, antes somente uma referência, agora está perto. Meu coração está aos pedaços. Não sei se ele sofre também. Fico ao lado de fora, escondida na sombra de uma árvore. Olho através da janela. Ele está lá com ela. Dói.
Só que não conseguimos evitar. Talvez as pessoas já tenham percebido. Nem ligo pra isso.
Um dia como outro. Acho que um final de semana. De repente, os vejo na rua. Choque. Tristeza. Realidade. Volto pro meu lugar.
Seu filho adoece. Dias e dias sem notícias suas. Primeira vez que me senti atordoada com a sua ausência. Preocupação. Sentimento de culpa. Medo.
As coisas se acalmam. Nosso coração perto demais um do outro. Não dá pra negar. Amo. O que faço com isso?
Um golpe duro. Demitida. Não penso em nada, a não ser na vida sem a sua presença. Desespero e desesperança. Pra onde vou? O que fazer sem meu Angel.
Os últimos dias são um pesadelo em câmera lenta. Uma despedida a cada segundo. Nossos corações sofrem. É o fim. Ele não me pede pra ficar. Eu não peço pra ele vir comigo. Nossas vidas sempre vão correr em paralelo. Não se cruzam. Caminham juntas.
Eu vou embora. Vazia. Meu coração ficou. Perdi o rumo da vida. O sabor do amor. Vão ser anos de tristeza. Talvez se eu tivesse lutado mais.
Não sou o seu destino. Ele não é o meu. Vai ficar pra sempre no meu coração, mas não quis ficar na minha vida. Preço alto. Solidão.
Tempo. Sempre o tempo. Só ele pra me fazer superar isso. Não sei quanto tempo. Muito tempo. Talvez nem o tempo.
Vida que segue. Mas sempre vou me perguntar se poderia ter sido diferente. E se ele ainda se lembra de mim.
Vincent van Gogh
De fato era van Gogh.. Hoje sei. E na verdade, até tenho um leve afeto por ele. Van Gogh sofreu muito na vida com distúrbios psicológicos... E não que eu os tenha, mas uma frase dele, em uma carta para seu irmão, me fez mais próxima do artista:
“Não consigo descrever exatamente o que se passa comigo; ora tenho acessos horríveis de ansiedade, aparentemente sem causa, ora uma sensação de vazio e cansaço na cabeça … e, por vezes, tenho ataques de melancolia e de remorso atroz.”
Talvez se eu soubesse disso antes, teria ido mais tranquila à primeira consulta... Mas não fui preparada para o que iria ouvir.
Ele continua me olhando. Tenho a impressão que ele pisca mais lento que o normal. Isso me dá uma sensação estranha, uma vontade de rir. Mas me controlo. Um ataque de risos ali seria um carimbo para o sanatório. Continuo nervosa. Sinto o telefone vibrando o tempo inteiro na bolsa. Preciso lembrar de desligar o telefone na próxima vez. Que próxima vez? Não pretendo voltar nunca mais ali.
Ele fala. Pausadamente. Isso me irrita. Gosto das coisas rápidas, sem perda de tempo. Começa a dizer que eu tenho alguns traços obssessivos-compulsivos com relação ao trabalho e à minha profissão. Ele é louco? Só porque eu disse que queria ser engenheira pelo status? Só porque fico angustiada de não ser a melhor? Só porque me cobro absurdamente em dar o meu melhor no trabalho? Que perco o sono pensando na melhor forma de fazer as coisas? Porque tenho dificuldades em delegar atribuições por achar que não ficarão bem feitas? Só porque... Só porque... Bom.
Ele continua lentamente. Parece que está processando as informações que recebeu em um computador muito antigo, esperando os dados para a resposta. Isso me enlouquece. Quer dizer, me irrita. Não estou louca.
Está dizendo alguma coisa diferente, mas perdi o início porque estava brigando com a informação anterior. Consigo pegar o fio novamente. Está falando da ansiedade... Mas o termo obssessivo-compulsivo não sai da minha cabeça... Quem ele pensa que é?
Tento me concentrar novamente no que ele fala. A vontade de chorar volta. Ele me explica que os quadros de ansiedade que eu relatei são muito severos: dificuldade de respirar, mãos formigando, coração acelerado, sensação de eminente tragédia. Isso me cerca o tempo todo. Diz que a terapia costuma ajudar, mas que no meu caso parece que não surtiu efeito. Me lembro do psicólogo. Não me acrescentou nada. Me julgava. Via no seu olhar...
Daí ele vem com a pior parte. Você está com vários sintomas associados à depressão. Opa? Como assim? Não é cansaço? Ansiedade? Tristeza? Isso não é depressão. Depressão nem existe, é coisa de mente vazia, pessoas sem amor próprio. Eu não tenho depressão.
Acho que ele percebe meu olhar de espanto. Começa a me explicar lentamente sobre o princípio da depressão: uma doença física, a falta de alguma coisa no seu cérebro. Alguns gatilhos que podem desencadear, o fator hereditário (lembro na hora dos meus irmãos, acho que todos têm os mesmos traços que eu. Talvez meu pai também). Com bastante calma, ele vai me dizendo de outras implicações da doença que eu não havia nem tocado no assunto.
Ele fala sobre as relações conjugais, sempre abaladas nos quadros de depressão. Fala da perda da memória, coisa que sempre me assustou quando percebi. Falou da impulsividade, do sentimento de culpa o tempo todo. O fato de tentar fingir emoções para não chamar a atenção das pessoas ao redor. Fico em choque. Sem saber o que pensar.
Enfim, não tenho como fugir deste diagnóstico. Lembro dele novamente. Da crescente preocupação pela minha situação. Das vezes que chorei com ele, angustiada com a minha situação. Lembro das vezes que ele pediu pra eu falar o que estava sentindo, sem esconder nada. E da sua insistência em dizer que eu precisava de ajuda. Até chegar ao ponto dele dizer que eu estava depressiva, e precisava de ajuda urgente. Agradeço pela insistência. Mais uma vez ele tem razão. Mesmo longe, soube reconhecer que eu não estava bem. E quem estava o tempo todo ao meu lado, nunca percebeu. É só cansaço.
O doutor se levanta da sua poltrona e vai para a sua mesa. Começa a me dizer sobre as linhas de tratamento que poderíamos adotar. Eu posso escolher a psicoterapia. Tem efeitos à médio e longo prazo. Tem uma dependência com a interação do paciente com o terapeuta. Lembro de novo do psicólogo. Isso não vai prestar.
Mas tenho outra opção. Entrar com medicação. Tudo o que eu estava disposta a não fazer quando entrei nessa sala. Os resultados vêm mais rápido. Com quinze dias já se espera alguma melhora. Vai ajudar rapidamente no sono.
A escolha é totalmente minha. Porque é necessário que eu concorde com o tratamento. Esteja ciente de tudo. E sobretudo, disposta. Respondo que sim. Sem pensar, impulsiva como sempre. Se estou doente, não quero arrastar isso.
Ele me olha calado um tempo. Como se avaliasse se eu realmente ouvi o que ele me disse. Enfim, começa a escrever no computador.
Um remédio pra dormir. Próximo ao horário habitual que me deito. Um remédio pra depressão. Uma dose inicial baixa, durante uma semana. Observar as reações. Dobrar a dosagem com sete dias e com quatorze voltar para avaliação.
Me lembro da viagem marcada para a próxima semana. Só eu e marido. Zero empolgada para isso. Ele me explica que não é o melhor momento pra isso. Que não estou bem, e não devo fazer nada que não tenha vontade. E outra viagem no final do mês. Ele olha preocupado. Pede que eu converse com meu marido e explique tudo. Não seria o momento ideal pra essas mudanças de rotina. Mas não tenho como desmarcar. Então, paciência.
Ele pergunta se quero me afastar do trabalho uns dias. Disse a ele que estava postergando muitas coisas no dia a dia, comprometendo meu desempenho na empresa e estava preocupada com isso. Mas não podia me ausentar agora. Tenho uma cirurgia para daqui a menos de dois meses. Preciso trabalhar.
Traz umas amostras do remédio da depressão e me dá. Fico triste com isso. Não pensei que sairia dali com esse diagnóstico e com duas caixas de remédio. Olho para o medicamento. Pelo menos não têm uma tarja preta na caixa. E não é Rivotril...
Ele se levanta. Disse que estaria a disposição. Estende a mão e me dá um abraço. Acho o gesto meio estranho. Mas retribuo. Marque o retorno com a secretária. Eu só concordo com a cabeça e saio.
Saio da sala com as pernas meio doloridas. Talvez o sofá baixo, talvez a tensão acumulada. A secretária continua tentando tirar a tinta dos dedos... Meu Deus... Passe álcool, minha filha. Tenho vontade de dizer. Ela marca o retorno. Depois da primeira viagem. Pego o telefone e me surpreendo: passei uma hora e meia falando com ele.
Caixa de remédio na mão, na outra duas receitas de medicamentos controlados. A cabeça a mil. Sinto fome. Essa nunca me abandona.
Tem um restaurante do outro lado da rua. Preciso falar com ele. Sempre preciso. Vai ser uma conversa longa. Vou almoçar.
“Não consigo descrever exatamente o que se passa comigo; ora tenho acessos horríveis de ansiedade, aparentemente sem causa, ora uma sensação de vazio e cansaço na cabeça … e, por vezes, tenho ataques de melancolia e de remorso atroz.”
Talvez se eu soubesse disso antes, teria ido mais tranquila à primeira consulta... Mas não fui preparada para o que iria ouvir.
Ele continua me olhando. Tenho a impressão que ele pisca mais lento que o normal. Isso me dá uma sensação estranha, uma vontade de rir. Mas me controlo. Um ataque de risos ali seria um carimbo para o sanatório. Continuo nervosa. Sinto o telefone vibrando o tempo inteiro na bolsa. Preciso lembrar de desligar o telefone na próxima vez. Que próxima vez? Não pretendo voltar nunca mais ali.
Ele fala. Pausadamente. Isso me irrita. Gosto das coisas rápidas, sem perda de tempo. Começa a dizer que eu tenho alguns traços obssessivos-compulsivos com relação ao trabalho e à minha profissão. Ele é louco? Só porque eu disse que queria ser engenheira pelo status? Só porque fico angustiada de não ser a melhor? Só porque me cobro absurdamente em dar o meu melhor no trabalho? Que perco o sono pensando na melhor forma de fazer as coisas? Porque tenho dificuldades em delegar atribuições por achar que não ficarão bem feitas? Só porque... Só porque... Bom.
Ele continua lentamente. Parece que está processando as informações que recebeu em um computador muito antigo, esperando os dados para a resposta. Isso me enlouquece. Quer dizer, me irrita. Não estou louca.
Está dizendo alguma coisa diferente, mas perdi o início porque estava brigando com a informação anterior. Consigo pegar o fio novamente. Está falando da ansiedade... Mas o termo obssessivo-compulsivo não sai da minha cabeça... Quem ele pensa que é?
Tento me concentrar novamente no que ele fala. A vontade de chorar volta. Ele me explica que os quadros de ansiedade que eu relatei são muito severos: dificuldade de respirar, mãos formigando, coração acelerado, sensação de eminente tragédia. Isso me cerca o tempo todo. Diz que a terapia costuma ajudar, mas que no meu caso parece que não surtiu efeito. Me lembro do psicólogo. Não me acrescentou nada. Me julgava. Via no seu olhar...
Daí ele vem com a pior parte. Você está com vários sintomas associados à depressão. Opa? Como assim? Não é cansaço? Ansiedade? Tristeza? Isso não é depressão. Depressão nem existe, é coisa de mente vazia, pessoas sem amor próprio. Eu não tenho depressão.
Acho que ele percebe meu olhar de espanto. Começa a me explicar lentamente sobre o princípio da depressão: uma doença física, a falta de alguma coisa no seu cérebro. Alguns gatilhos que podem desencadear, o fator hereditário (lembro na hora dos meus irmãos, acho que todos têm os mesmos traços que eu. Talvez meu pai também). Com bastante calma, ele vai me dizendo de outras implicações da doença que eu não havia nem tocado no assunto.
Ele fala sobre as relações conjugais, sempre abaladas nos quadros de depressão. Fala da perda da memória, coisa que sempre me assustou quando percebi. Falou da impulsividade, do sentimento de culpa o tempo todo. O fato de tentar fingir emoções para não chamar a atenção das pessoas ao redor. Fico em choque. Sem saber o que pensar.
Enfim, não tenho como fugir deste diagnóstico. Lembro dele novamente. Da crescente preocupação pela minha situação. Das vezes que chorei com ele, angustiada com a minha situação. Lembro das vezes que ele pediu pra eu falar o que estava sentindo, sem esconder nada. E da sua insistência em dizer que eu precisava de ajuda. Até chegar ao ponto dele dizer que eu estava depressiva, e precisava de ajuda urgente. Agradeço pela insistência. Mais uma vez ele tem razão. Mesmo longe, soube reconhecer que eu não estava bem. E quem estava o tempo todo ao meu lado, nunca percebeu. É só cansaço.
O doutor se levanta da sua poltrona e vai para a sua mesa. Começa a me dizer sobre as linhas de tratamento que poderíamos adotar. Eu posso escolher a psicoterapia. Tem efeitos à médio e longo prazo. Tem uma dependência com a interação do paciente com o terapeuta. Lembro de novo do psicólogo. Isso não vai prestar.
Mas tenho outra opção. Entrar com medicação. Tudo o que eu estava disposta a não fazer quando entrei nessa sala. Os resultados vêm mais rápido. Com quinze dias já se espera alguma melhora. Vai ajudar rapidamente no sono.
A escolha é totalmente minha. Porque é necessário que eu concorde com o tratamento. Esteja ciente de tudo. E sobretudo, disposta. Respondo que sim. Sem pensar, impulsiva como sempre. Se estou doente, não quero arrastar isso.
Ele me olha calado um tempo. Como se avaliasse se eu realmente ouvi o que ele me disse. Enfim, começa a escrever no computador.
Um remédio pra dormir. Próximo ao horário habitual que me deito. Um remédio pra depressão. Uma dose inicial baixa, durante uma semana. Observar as reações. Dobrar a dosagem com sete dias e com quatorze voltar para avaliação.
Me lembro da viagem marcada para a próxima semana. Só eu e marido. Zero empolgada para isso. Ele me explica que não é o melhor momento pra isso. Que não estou bem, e não devo fazer nada que não tenha vontade. E outra viagem no final do mês. Ele olha preocupado. Pede que eu converse com meu marido e explique tudo. Não seria o momento ideal pra essas mudanças de rotina. Mas não tenho como desmarcar. Então, paciência.
Ele pergunta se quero me afastar do trabalho uns dias. Disse a ele que estava postergando muitas coisas no dia a dia, comprometendo meu desempenho na empresa e estava preocupada com isso. Mas não podia me ausentar agora. Tenho uma cirurgia para daqui a menos de dois meses. Preciso trabalhar.
Traz umas amostras do remédio da depressão e me dá. Fico triste com isso. Não pensei que sairia dali com esse diagnóstico e com duas caixas de remédio. Olho para o medicamento. Pelo menos não têm uma tarja preta na caixa. E não é Rivotril...
Ele se levanta. Disse que estaria a disposição. Estende a mão e me dá um abraço. Acho o gesto meio estranho. Mas retribuo. Marque o retorno com a secretária. Eu só concordo com a cabeça e saio.
Saio da sala com as pernas meio doloridas. Talvez o sofá baixo, talvez a tensão acumulada. A secretária continua tentando tirar a tinta dos dedos... Meu Deus... Passe álcool, minha filha. Tenho vontade de dizer. Ela marca o retorno. Depois da primeira viagem. Pego o telefone e me surpreendo: passei uma hora e meia falando com ele.
Caixa de remédio na mão, na outra duas receitas de medicamentos controlados. A cabeça a mil. Sinto fome. Essa nunca me abandona.
Tem um restaurante do outro lado da rua. Preciso falar com ele. Sempre preciso. Vai ser uma conversa longa. Vou almoçar.
sábado, 18 de abril de 2020
Dia Zero...
O princípio:
Coloco o endereço no GPS. Ainda não tenho certeza do que estou indo fazer. Preparei um texto caso não conseguisse falar. Me sinto idiota com o pensamento de ficar muda e entregar o papel: vai querer me internar...
Checo o endereço mais uma vez. Como sempre, saio cedo. Atrasos me irritam e me deixam mais ansiosa. O trânsito perto do almoço está sempre um pouco mais lento. Mas é começo de janeiro, dia 02 pra ser mais exata, a cidade está de ressaca.
Chego no prédio. Já estive ali há um tempo atrás. Uma consulta com um cirurgião plástico. Agora a história é outra. Penso mais uma vez no que estou fazendo ali... Não têm motivos. São só pensamentos bobos que eu crio quando estou chateada ou triste. Lembro da cena da faca. Realmente tenho que ir.
Recepção, elevador, chego na porta. Penso mais uma vez no que vim fazer ali. Não preciso disso, é só cansaço. Olho o celular. Ele está me perguntando se já cheguei. Prometi pra ele que ia. Não posso voltar atrás.
Entro. Uma sala, três portas. A secretária está com as mãos sujas de tinta. Sorri educada. Faço minha ficha. Ela pede que eu aguarde. O coração já está saindo pela boca.
Sento em uma cadeira. Não consigo absorver as coisas ao meu redor. Penso mais uma vez em me levantar e ir embora. De novo o celular. Ele está perguntando se eu estou bem. A vontade de chorar aumenta. Não consigo ficar ali. Digo a ele que vou embora. Ele me pergunta se estou mesmo no consultório. Tiro uma foto discreta com o celular e envio. Nome do médico escrito na parede. Só agora reparo como o nome dele é estranho. Deve ser um velho. Vai com certeza achar que sou louca.
Mal respiro pra evitar chorar. Vou embora. Ele, no celular, me pergunta que roupa estou usando. Pra que ele quer saber isso? Eu me olho, a roupa de sempre: calça jeans, blusa preta, uma sapatilha, a bolsa no colo, como um escudo.
Vou responder, mas a porta se abre. Meu coração congela. Agora vou fugir. Um homem com seus quase quarenta anos sai. Feição boa, não estava com cara de sofrido. Tem umas caixas de remédio na mão... Não quero tomar remédio, isso é pra desequilibrados... Um homem jovem, talvez mais jovem do que eu me olha e sorri. Acena com a cabeça e fecha a porta.
Ainda tenho uma chance. Olho pra secretaria, ela continua tentando limpar os dedos sujos de tinta. Acho que ela vai perceber se eu sair. Vai ter certeza que sou louca, afinal, já paguei a consulta.
O celular vibra dentro da bolsa. Evito olhar. Ele, com certeza, quer saber se estou bem. Penso em levantar. A porta se abre novamente: Storm?
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