sábado, 25 de abril de 2020

Dia cinza

Não. Não amanheceu chovendo. Nem nublado. Um dia de sol. Como tantos outros por aqui. Mas alguma coisa está cinza dentro de mim.
Tenho medo de dias assim. Sei que vai ser um dia longo. 
Acordo parecendo que estou bêbada. Têm dias que a impressão que tenho é que o remédio pra dormir começou a fazer efeito na hora de acordar. É horrível.
Tomo um banho pra espantar o sono. Mal consigo manter os olhos abertos. Conheço a sensação. Tem sido comum.
Ele está preparando o café. Nem fome eu sinto. Mas não tem como escapar. Vou pra cozinha. Aquele momento constrangedor de sempre. Hoje nem me esforço pra conversar. Estou em outra dimensão.
Penso no dia de trabalho. Vou vestir o que pra sair hoje? Talvez a mesma roupa de ontem. Tanto faz. 
A hora se arrasta. Ele não vai embora. Estou inquieta. Vontade de voltar pra cama. Avalio a possibilidade de não ir trabalhar. Penso numa desculpa. Febre? Tosse? Em época de pandemia seria a desculpa perfeita. Só que não gosto disso. Inventar doença. Deus castiga. E a minha conta já está muito alta.
Começo a arrumar o quarto. Ele está sentado em um canto do quarto me olhando. Não gosto disso. Parece um raio x.
Sigo na arrumação sem sentido. Os minutos se arrastam.
Ele ensaia um tchau. Dou um beijo. Finalmente ele se vai.
Estou cansada e ainda não são sete horas da manhã. Me deito na cama ainda desarrumada. Preciso me vestir. Os olhos pesam. Confiro o despertador no celular, fecho os olhos. Entregue. Não quero levantar mais.
Os pensamentos correm velozes. Não há controle. Você pensa no esforço que vai ter que fazer para passar o dia. Aperto os olhos para impedir as lágrimas. É mais forte do que eu.
Sempre uma sensação de peso. O mundo sob seus ombros. O choro te domina. Você nem sabe mais ao certo porque chora.
Você só quer paz. Não consegue mais enfrentar as situações do dia a dia. Não quero nem abrir os olhos. A claridade do dia é uma afronta à sua alma triste e cansada.
Preciso levantar. Me vestir. Meu corpo está pesado, muito pesado. Não me obedece. A garganta apertada com uma vontade eterna de chorar. Você só pensa que não dá mais.
A porta está fechada. Assim como meus olhos. Penso nas dificuldades, nas coisas que terei que enfrentar durante o dia.
As coisas no trabalho não esperam. Já ando dispersa demais. Preciso de foco.
Penso em levantar. Uma mão pesada me prende na cama. Uma mão invisível. Má. Essa mão hora está sob meu coração, apertando. Hora na minha garganta, me impedindo de respirar. Eu luto pra continuar viva.
O choro vai cessando lentamente. A boca seca. O coração cansado. Você só pensa que não quer mais.
Não quer mais se levantar. Lutar para realizar o mínimo possível das suas tarefas diárias. Lutar para vencer a inércia.
Você não sente fome. Você não sente sede. Você se sente só. Exausta. Simplesmente chegou ao seu limite. Não dá mais.
Seu coração suspira aliviado. Finalmente você percebeu que não vale mais a pena lutar. Você não tem mais energia para isso. Só precisa deitar e não se levantar mais.
E esta constatação te traz alento. A paz que vc procura. Você só precisa não abrir mais os olhos. Só precisa dar um passo para a escuridão e se entregar.
E nessa entrega você enxerga paz. A paz que vc quer, que seu coração merece. Fechar os olhos, mergulhar na escuridão.
Você pensa nas suas opções. As caixas de medicamento estão sob a cômoda. Tanto me esforcei que convenci a todos que não precisam se preocupar com isso. Podiam deixar novamente os remédios próximos a mim. Não faria nada a este respeito.
Olho para a porta do banheiro. Me trancar lá. Tomar todos os comprimidos, esperam o mundo se apagar de vez... Paz. Você só vê isso ao seu redor. Descansar das suas lutas, do esforço diário para fingir que está tudo bem. Mas se alguém notar a minha falta antes da hora, pode dar errado. Quais as minhas outras opções?
Penso na janela do banheiro. Posso passar um cinto. Presa pelo pescoço, onde tantas vezes me senti sufocada.
De repente, penso no meu filho, me vendo pendurada pela pescoço, na janela do banheiro. Penso em minha mãe desesperada, sabendo que estou presa dentro do banheiro e não respondo. Quem vai me achar? Da última vez que isso aconteceu, havia um anjo lutando por mim. Mas agora, não haveria ninguém a fazer isso.
A certeza da paz se transforma em pesadelo. Não posso permitir isso.  Não em casa. A sensação de falta de ar volta. As mãos formigam. A medida que o ar falta, o coração dispara e a cabeça roda. Você não sabe como se acalmar.
Tem que ser fora de casa, talvez no trabalho. Não consigo forças pra levantar. Preciso de uma forma de fazer acontecer.
Eles vão chorar por mim. Vão se culpar um pouco. Sentir falta talvez. Mas vai passar. Vão ver os sinais que eu vinha mostrando de não estar mais aguentando, que eles fingiram não ver.
Meu anjo talvez custe a saber. Não vai acreditar. Talvez vá se culpar.
A culpa. Desejando tirar a própria vida. Uma vida boa. Estabilizada. Uma vida cercada de realizações pessoais. Uma vida confortável. A culpa de novo. Fazer seus amores mais importantes sofrerem pra você ter paz. Culpa por cima de culpa.
O relógio chama, não descansei nada. Estou pior que antes.
Escovo os dentes. Me forço pra sair do banheiro. Visto qualquer coisa. Vou trabalhar. Não posso fingir e nem me enganar mais.
Guardo a culpa, o cansaço, o desânimo na caixinha que levo junto a mim. Fecho a caixa.
Sigo enfrente. Por mais essa eu escapei. Talvez pelas outras também,mas não posso mais arriscar, preciso de ajuda. Urgente.






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