quinta-feira, 18 de junho de 2020

Depois do fundo do poço




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Há algum tempo penso em escrever sobre isso. Mas ainda não tinha reunido coragem. São memórias dolorosamente recentes. Ainda não sei lidar muito bem com toda essa história.
Vou voltar um tempo. O necessário para que eu mesma entenda como foi que eu cheguei ao fundo do poço.
Novembro. Não tenho certeza se no começo ou no fim. Ano passado. Um dia qualquer, uma mensagem no celular. Um amigo antigo. Colegas de profissão. Ele, bem posicionado, empresa grande, cargo de destaque. Eu, gerente em uma indústria pequena em um estado pequeno, sem expressão. Uma proposta de emprego. Na verdade, a segunda da mesma empresa. Dessa vez, um cargo de supervisão. Meu coração dispara. A proposta da minha vida, de novo em minha porta.
A proposta de salário me deixa constrangida. Nem tenho coragem de falar quanto ganho atualmente. O dobro. Em um cargo de grandes responsabilidades. Outro estado, tudo novo.
Primeiro pensamento é falar com ele. Passou a ser a minha primeira opção para tudo. Sempre dá atenção às coisas que eu falo. Sempre tem tempo para mim. Nunca me deixa falando sozinha. Enfim, divido com ele.
Ouço suas ideias. Divido meus medos. Trocamos ideias sobre como proceder. Vou deixar a conversa fluir. Avaliar tudo. Afinal, é deixar para trás uma vida que comecei a construir nessa cidade. Por um momento, esqueço de tudo. Só penso na oportunidade de ter um emprego em uma empresa grande. Vinte anos na área e nunca tive essa oportunidade.
Passo a visualizar a possibilidade de sair de casa. A princípio, iria só. Será que a família concordaria? Filho na escola. Marido com carreira consolidada... Mas era a minha chance profissional. Não escondo a animação. Talvez a chance de sair deste relacionamento com classe. Iria, o tempo passaria, longe um do outro, as coisas poderiam acabar por si só. Seria um alívio.
Mas volto para realidade. Penso na minha cirurgia. Fevereiro. Abrir mão disso, sem previsão para nova data. Começar do zero. É o preço.
Preciso falar em casa. Adio o máximo que posso. Sei que não vai ser uma conversa fácil. Mas preciso falar. Falo.
Um balde de água fria é um eufemismo leve demais. Fui jogada de volta à realidade sem nenhuma gentileza, com ênfase na decisão: “Eu não vou nunca. Não sei porque você iria. Só pelo dinheiro, não precisa. Estamos bem aqui.” Foi um choque, apesar que se eu tivesse pensado mais um pouco, não esperaria nada diferente.
Deixou claro sua posição. Mesmo propondo um tempo para me adaptar, para ele avaliar a área em relação à sua experiência profissional. Nada o demoveu. Eu não tive forças para lutar.
Afundei em tristeza. Não sabia nem o que responder para a proposta. Eu estava, definitivamente, fechando uma porta importante na minha vida.
A partir daí, os dias perderam mais ainda o seu encanto. Ele, que tanto tinha me incentivado a ir, ficou decepcionado por eu não lutar, não insistir. Eu não tive forças. Escapou entre meus dedos a oportunidade que busquei a vida toda.
Outro dia, e mais outro, e os dias vão se passando. Tudo cinza. Negro. A tristeza sobre meu coração já não me perturba mais. Estou inerte. Não sinto mais.
Vivo no automático. Até que em outro capricho do destino, recebo uma proposta para um mestrado. Uma orientação de peso, em um programa inovador. Não me interesso. Já foi algo que busquei em outros tempos. Hoje, não me faz mais brilhar os olhos. Mais uns dias, e a proposta ressurge. O edital está aberto. Participe. Gostaria de trabalhar com você.
Eu deixo os dias passarem. Não tenho vontade de me mover.
É véspera do nosso aniversário de casamento. Não penso em nada com relação a isso. A dor da decepção ainda pulsa na minha cabeça. Cada dia mais calada, mais introspectiva dentro de casa.
Sexta-feira. Vejo conversas e risos dissimulados em casa. Não gosto dessa sensação. Ele está preparando alguma coisa para a data. Na hora do almoço pergunta se eu iria para um lugar sem saber onde seria. A tristeza chega de vez. Não tenho coragem de dizer que não.
A animação dele é uma afronta para mim. Não sei se não percebe meu olhar triste, ou se simplesmente não se importa. Ele arruma minha mala. Não tenho ideia para onde quer me levar.
Sábado. Ele me acorda cedo. Nem vai trabalhar. Café da manhã na padaria. Ele faz o roteiro todo para me agradar. Pegamos a estrada. Ainda nem sei para onde estamos indo.
Não consigo interagir. A vontade de chorar a todo instante vem. Por fim, ele revela. Meu Deus... que lugar longe. Realmente, há algum tempo eu já havia falado sobre o local, mas não agora. Não com esse clima. Não com esse humor.
Enfim, chegamos. O clima frio combina com o meu estado. Tento fazer de tudo para retribuir o momento. Tudo é forçado em mim.
Tento não manter o contato com ele. Me proponho a ter um final de semana de dedicação ao meu relacionamento. Mas o esforço só me deixa mais triste ainda.
Falo com o amigo da proposta. Finalmente tenho coragem de dizer que não vou. Ele me ouve, entende por um lado meus argumentos. Eu choro sozinha no banheiro. Realmente, não tem jeito.
Não resisto, falo com ele um pouco. Sinto como se estivesse ganhando um prêmio de consolação por não ter aceitado o emprego. A sensação é de traição, porque todos se envolveram nos planos dele. Fiquei muito triste. Mais do que já estava.
Passeamos, conhecemos a cidade. Meu coração gelado como um iceberg. Mas sou boa em fingir. Só não consigo fingir a parte da cama. A falta de envolvimento, de entrega, de prazer. Acho que ele nota, não sei. Parece não se importar. Tortura.
Chega a hora, vamos embora, finalmente. Converso um pouco com ele. Está com ciúmes, mal nos falamos. Eu sinto sua falta. Às vezes o culpo pelo que estou passando. Como se ele pudesse me tirar deste abismo.
Em casa. Aliviada. Passou. Converso com ele. Abro meu coração, conto a frustração da viagem, a falta de ânimo, a saudade.
Chega a segunda. De fato, o aniversário do casamento. Detesto a data. Recordo como foi nosso casamento. Frio. Sem brilho. Totalmente diferente do que eu poderia ter feito. Ele me podou as asas, não permitiu nada além do que uma comemoração simples no quintal da sogra. Nada como poderia ter sido. Não gosto de comemorar.
É o último dia de inscrição para a prova do mestrado. Ele se propõe a me ajudar. Depois, saímos para comemorar as bodas. Estou exausta, mas aceito. Não vou desistir sem tentar.
O processo de envio dos documentos é chato. Por quê mesmo estou fazendo isso? Enfim, terminamos.
Vamos para o nosso restaurante preferido (dele). Ele traz a mochila junto. Diz que meu presente está lá. Discutimos o cardápio, pedidos alguma coisa que não me recordo. Ele começou a falar.
Falou do começo do nosso relacionamento, como as coisas mudaram desde então. Elogiou as mudanças, disse das nossas aventuras, eu ouvindo e participando com algumas observações. Ele continuou a falar, e de repente, mudou o semblante. Meu coração gelou no peito. Conheço aquela expressão. Ele vai começar a falar sobre coisas que tenho certeza que não vou gostar.
O jantar chega e fica à nossa frente. Ele está com raiva. Olha para mim com olhos duros. Me chama de coisas que não consigo colocar no papel. Diz que eu traí novamente a dedicação e o seu amor. Continuo com as conversas pelo telefone com o outro. Leu nossas ultimas conversas. Meu sangue congela. Fala detalhes dos diálogos. Me ofende. As lágrimas escorrem no meu rosto. Diz coisas pesadas. Que enquanto ele preparava um final de semana maravilhoso para nós dois, eu falava mal dele pelas costas, com uma pessoa que ele já tinha deixado claro que só fazia prejudicar nosso casamento.
Eu imploro para ele parar. Estou chorando e os garçons me olham de canto de olho. Eu só quero ir embora. Ele insiste. Fala mais. Como sou leviana. Como não deixo de viver esse romance paralelo em prol do nosso casamento. Usa de tudo. Diz que eu me humilho e imploro pelo amor de uma pessoa que não me ama. Que me ofereço, que rastejo, que ele tem pena de mim. Que eu não sei reconhecer que o outro não quer nada comigo, só tem pena de mim.
O fundo do poço. Já tinha chegado perto, mas nunca assim. O fundo do poço é sufocante. Você olha para cima e não vê a luz. A água do fundo do poço é gelada e dói em nossos ossos. O espaço é pequeno, e você não consegue se mexer, mal consegue respirar. O fundo do posso é o pior lugar para se estar. E eu estava lá.
Pede a conta e que embrulhem a comida. Quer selar a minha humilhação me fazendo chegar em casa com todo o jantar. No caminho de casa, nem uma palavra. Fecho os olhos e tento me acalmar.
A sordidez de me tirar de casa, me levar para jantar, mesmo tendo lido minhas conversas. Feito eu me arrumar. Levado o presente, que aliás, nem me entregou. Humilhada.
Eu não sei mais o que dizer. Peço desculpas novamente. Milésima vez. Penso em acabar com tudo aquilo. Não aguento mais. Sou fraca, me culpo. Ele está coberto de razão. Sou sem moral, me envolvo com uma pessoa além do meu relacionamento. Além de tudo, uma pessoa que não me quer. Toda a culpa, toda a dor. Eu sou a razão do meu próprio sofrimento. Acabo com tudo isso e pronto. Eu só quero morrer.
Os dias vão passando. Ele se acalma, procura por sexo. Cedo, pela milésima vez. Vai fazer ele se esquecer por um tempo dos problemas. Sinto como se fosse um estupro. Meu corpo invadido sem amor. Usada para a sua satisfação. Morro um pouco mais.
Um dia, almoço, uma conversa pela internet. Voltam as cobranças. Outra conversa lida. Não entendo como ele tem acesso a isso. Vigilância. Sinto como se fosse uma prisioneira. Eu não sei mais chorar. Estou anestesiada. Ele fala, argumenta que eu preciso dar uma oportunidade para o nosso casamento sem a sombra da terceira pessoa entre nós. Dentro de mim, só gelo. Ouço e não me importo mais. Digo que não. Que não quero mais insistir.
Ele se assusta. Diz que quer voltar a conversar em casa. Eu digo que não quero mais falar sobre nada.
Em casa. Ele retoma o assunto. Eu insisto que não quero mais falar sobre nada. Ele insiste. Eu peço para parar. Ele não para. Joga pela milésima vez sobre mim as minhas traições, minha dedicação a outra pessoa. Que eu rastejo e me humilho por quem não está nem ai para mim. Ele pega mais pesado ainda. Pergunta se não me sinto mal com Deus por estar insistindo em acabar com o casamento de outra mulher. Se não penso nos filhos dele. Mas ainda sim diz que ele não me quer. Que tem pena de mim.
O fundo do poço ainda era mais embaixo. Iludida, eu achei que não poderia piorar. Mas sim, havia mais a cavar, mais a me soterrar. Se antes a água me envolvia, no fundo do poço mesmo, havia lama. Pegajosa, que me envolvia os braços e as pernas e me impedia de me mexer. No fundo do poço, com lama até o pescoço, sem conseguir respirar. Para a morte, não faltava mais nada.
Eu reajo. Estou exausta da humilhação. Do cansaço, da invasão. Estou morta por dentro. Eu digo que basta. Que não quero mais. Digo que não quero mais me desculpar, prometer me afastar do outro e não cumprir. Não quero mais ser acusada e carregar as culpas do mundo sobre mim. Não quero mais vender minha dignidade em busca de paz. Chega. É o fim.
Mais uma vez ele se surpreende. Muda o tom. Pergunta se é isso mesmo. Eu digo que sim. Insisto. Ele desconversa. Diz que devemos esfriar a cabeça e conversar depois. Eu não quero mais.
Estou no início do tratamento com o psiquiatra. Meu mundo desaba. Estou me adaptando aos remédios, me livrando da vontade de morrer. Tudo desmorona ao meu redor.
Ele não quer perder. Envolve nosso filho. Passa a sair com ele constantemente. De repente, está usando isso contra mim. Fala que o menino está decepcionado comigo, que sabe do outro, leu coisas no meu telefone. Eu fico sem reação. Eu o culpo de envolver a criança nos nossos assuntos. Nessa altura, a família inteira já sabe. Saio do nosso quarto. Sinto um pouco de paz.
O clima em casa piora assustadoramente. Resolvo que vamos falar com o filho sobre a separação. Ainda não era o fundo do poço. Estou novamente enganada. Havia mais depois da lama. E eu agora, estou coberta dos pés à cabeça. Meu filho me olha com rancor. Quase ódio. Seu corpo se sacode ao me acusar de destruir a família. A lama está por toda parte. Dentro da minha boca, no meu nariz. Já não consigo ver nada. Ele fica calado enquanto eu me justifico. Saboreia a minha dor em tentar me explicar. Ele está por cima na situação. Meu coração não bate mais. Ele me atingiu no único lugar que meu coração não suportaria. Meu filho, agora, tem raiva de mim.
Inferno. Depois da lama, havia a lava. Meu corpo queima no castigo que eu mesma escolhi viver. A culpa de todos os males da humanidade cai sobre mim ao ver meu filho chorar. Culpa minha. Toda minha. Leviana, imoral, traidora. Estou fazendo todos ao meu redor sofrer.
Eu não posso com isso. Estou sozinha e envergonhada. Do outro lado do telefone, ele tenta me ajudar. Está indignado pelo envolvimento do filho. Eu estou cega de dor. Toda a culpa do mundo sobre mim. Os momentos a mais com ele passam a me gerar vergonha. Agora que durmo sozinha, posso falar com ele até cansar. Mas a culpa me traz sentimentos conflitantes. Eu estou fazendo todos sofrerem para poder ter minutos a mais com ele. Vadia. Sou definitivamente uma vadia.
Tenho um retorno com o psiquiatra. Conto a ele a minha decisão. Ele é enfático. Não posso fazer isso neste momento. Ele me empurra mais ainda para a lama do poço. Achei que embora não fosse o momento, ele não iria se opor veementemente a isso. Mas ele não sabe do todo. Da história toda, que eu sou uma mulher sem caráter, que se envolveu com um homem casado e que cultiva esse relacionamento em detrimento do meu próprio casamento. Ele não sabe. Não tenho coragem de contar. Ele é enfático. Desmanche isso. Volte atrás. Use os argumentos que achar necessário, use até o parecer dele próprio. Eu não posso passar por um processo de divórcio nessas condições psicológicas.
Abaixo da lava do fundo do poço ainda podia existir mais coisas. Morta. Castigada na própria representação do inferno que a minha vida se tornou.
Recuo. Peço perdão, digo que não é o momento. Ele já estava ameaçando ir embora para outra cidade. Se mudar. Deixar nosso filho. Me deixar viver o que eu quisesse.
Dez passos para trás. Risco do coração os últimos traços de esperança. Falo com ele, um golpe. Ele não consegue esconder a decepção. Fez planos para essa nova era. Desmanchei tudo. Não sirvo para ser feliz. Não mereço. Sou suja. Faço todos ao meu redor sofrer. Eu devia terminar com isso e tomar logo todos os remédios que tenho em casa.
Mas o castigo seria pouco. Meu castigo é viver.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Dia de hoje

Mal consigo falar hoje. Ele está insuportavelmente ao meu lado o dia todo, o tempo todo. Não para de falar um minuto. Minha cabeça não aguenta mais.
Eu sei, a TPM potencializa muito as coisas, mas realmente estou cansada até da voz dele.

Eu vivo em dois mundo diferentes. Em um mundo é isso. Momentos bons em família, coisa que há tempos eu não sentia. Estou mais relaxada. Não preciso fazer tanta força para interagir. Mas tem momentos que eu só queria ficar sozinha. Nesse mundo, sou mãe. Dona de casa. Esposa. Trabalho fora também. Tenho muitas responsabilidades no trabalho. Tomo remédio controlado pra dormir e pra acordar. É uma vida mediana. Tenho bons momentos de laser, embora eventuais. Uma vida confortável. É isso.
No outro mundo que eu vivo, sou só eu e o amor da minha vida. Nesse mundo, apesar de ser mãe, não tenho a presença constante do filho. Não sou dona de casa. Acordamos e dormimos em hotéis, café da manhã sempre pronto. Na volta do passeio, nossa cama já está arrumada.
Nesse mundo diferente, sou outra pessoa. Ou a mesma pessoa que já fui. Não sei ao certo.
Sou mulher. Só mulher. Tenho desejos. Desejos de amor. Também tenho desejo de viver. No meu mundo encantado, estou sempre viajando, passeando. Toda noite temos que decidir onde ir. Barzinho, sair pra dançar. Só jantar. Pedir uma comida no quarto mesmo.
No primeiro mundo, tenho a satisfação pelo trabalho. Crescimento, reconhecimento. O sabor da conquista pelo meu próprio esforço. No outro mundo, o trabalho não existe. É sempre feriado, férias...
O primeiro mundo eu preciso todos os dias acordar bem cedo. Decidir, o dia todo tomando decisões precisas. Não posso errar.
Ah... Na outra vida a gente erra. Erra o caminho no GPS, erra na escolha do jantar, mas são erros sem gravidade, que vão somente nos fazer rir ou se aborrecer um pouco.
O agora só existe no mundo do começo. Nesse mundo, as coisas são vividas dia após dia. Não há muito espaço pra devaneios. É pressão, repressão, depressão.
No mundo do depois, tudo é leve. As cobranças mais parecem gestos de amor.
Sou eu no segundo mundo. Riso solto, sentimento de juventude, da arte feita escondida. No depois, tudo é sem pressa. Menos a vontade de estar juntos. Essa, é urgente, pra ontem.
No mundo de verdade, finjo. Suporto. Mas é onde estão meus pés. Sólidos no chão. Tudo medido, tudo controlado. Hora pra dormir, hora pra acordar. Hora de fingir. Hora de ignorar.
Já o mundo paralelo, não existem relógios. O mundo muda de cor quando sou capaz de vê-lo depois de algum tempo. O tempo vibra. Respiramos o mesmo ar. Corações no mesmo ritmo.
Mas o primeiro mundo é o real. Onde eu precisei algemar meus pés. Não tenho como fugir. É onde eu desempenho os papéis que a sociedade espera de mim. Foi onde eu disse o "sim" e aceitei o que viria. Mesmo sem saber o que seria.
No outro mundo, só momentos para se relembrar a vida inteira. Fotos guardadas pra poder acreditar que é tudo verdade. Mas não há o amanhã. Não há planos. Não há chegadas programadas.
Um mundo sabe do outro. Isso me incomoda. Porque cada mundo tenta me fazer entender que devo ficar nesse ou naquela mundo.
Cada dono de um mundo tenta me provar que o outro mundo não tem futuro.
E eu, fico no meio desses dois mundos: um aonde eu encontro segurança, família e conceitos. E no outro, onde sou feliz de verdade.

Um mundo, dois mundos, três pessoas, muitas questões.
Agora chega
Estou cansada de estar cansada.
Vou dormir e ir para o meu mundo paralelo. E buscar ficar mais tempo neste mundo onde posso ser eu mesma. Mesmo que depois eu me troque, tire a máscara e a volte ao mundo real. Mas enquanto eu puder, vou viver isso que eu tenho, pq antes dois mundos do que nenhum...

Muito sono hoje.
Cansada
Pressão grande na Clan.
E ele sem parar de falar um minuto
Mas segue a vida.
Amanhã nos falamos mais

Bjos





sexta-feira, 29 de maio de 2020

Expectativas

Perdi o sono essa noite. Nada de anormal. Fiquei pensando na vida. E imaginei uma vida diferente.

Quarta-feira, por volta das 10 horas da manhã. Estou há quase 10 dias fora de casa. Visitando alguns clientes. Reuniões. Quatro, cinco hotéis diferentes. Almoçando e jantando em restaurantes. Saudade de casa. Último cliente do dia. Conversamos sobre novos projetos. Agendamos um teste para a próxima visita, mês que vem. A mala já está no carro. Cento e cinquenta quilômetros de casa. Se eu sair agora, antes das 13 horas estou em casa.
Penso se vou almoçar no caminho ou seguir direto. O café da manhã foi bem cedo, depois de uma corrida de 5 km que eu faço todos os dias quando estou fora de casa. Já está na hora da fome. Talvez eu pare no caminho.
Pego a estrada. Começo a pensar nas coisas para resolver. Passar na lavanderia. Deixar as roupas da viagem, buscar as últimas que deixei pra lavar. O tempo esfriou, vou levar o edredom pra lavar também. Mercado. Cerveja sem álcool, pipoca... Pensar em alguma coisa para o almoço de sexta. São os melhores dias do mês... Pensar em quais coisas vou fazer, algum agrado.
O carro anda rápido na estrada. Trânsito tranquilo. A fome vai apertando. Faltam 50 km e já são mais de onze horas. Melhor parar. Muito tempo sem comer.
Para em um posto de gasolina que tem um restaurante. Cansada de comer fora de casa, querendo uma comida caseira. Sempre lembro do almoço no passeio para a caverna, há alguns anos atrás... Uma das refeições mais saborosas que já comi fora de casa. Sorrio sozinha relembrando este passeio. Nosso segundo encontro. Tanta coisa aconteceu desde lá.
O buffet está posto. Nada me chama a atenção. Um pouco de carne, uma salada. Tenho pressa em voltar pra casa.
Estou novamente na estrada. O pior pedaço da viagem. Atravessar a cidade até chegar em casa. Trânsito do horário do almoço.
Enfim, contorno o quarteirão e entro com o carro na garagem. Moro em um condomínio de apartamentos, bairro residencial. Torres altas, apartamentos pequenos mas confortáveis. Ainda é alugado. Estamos nos organizando para comprar um imóvel nosso.
Subo pelas escadas. Nunca tenho paciência para o elevador. A mala parece mais pesada que o costume. Cansaço.
Procuro as chaves na bolsa, já na porta de casa. Sempre brigamos por conta disso. A bolsa enorme, mil coisas espalhadas. Sempre custo a achar...
Finalmente, acho a chave. Mando uma mensagem pra ele dizendo que cheguei. Pelo horário, ele deve estar descansando. Daqui a pouco visualiza.
O apartamento é pequeno. Tem uma cozinha projetada, preta e cinza. Fogão sobre a bancada, forno e micro-ondas sobre o armário. Geladeira grande. Um balcão com bancos altos. Ao fundo, uma pequena área de serviço separada por uma porta de vidro. Máquina de lavar, secadora, um varal de teto.
A sala é razoavelmente grande. Um sofá reclinável grande, cinza. TV na parede, nada de rack. Decidimos não investir muito em móveis já que pretendemos nos mudar para um lugar definitivo, nosso. Uma mesa redonda com 4 cadeiras, que serve tanto como mesa de jantar, quanto de escritório quando estou em home office.
O apartamento cheira a limpeza. Sempre programo uma faxina para a véspera da minha chegada, deixo uma chave extra com a empresa e pronto. No começo fiquei receosa de ter uma pessoa estranha em casa na nossa ausência, mas serviços domésticos nunca foram meu forte. Ele sabe disso, também acha que eu não preciso me matar lavando um banheiro. Nosso tempo juntos é muito precioso. Nada de tarefas enfadonhas.
Sempre abro a geladeira quando chego. Receio de alguma coisa ter dado errada na minha ausência. Alguma falta de energia, algum problema na geladeira... Checo e está tudo ok.
Entro checando os outros cômodos. O apartamento, embora não seja muito grande, tem três quartos e dois banheiros, sendo um privativo do nosso quarto.
Um dos quartos tem as coisas do meu filho, que estuda em outra cidade. Vem em casa uma vez por mês, e eu vou visitá-lo também uma vez por mês. As coisas da minha mãe também estão neste quarto. Atualmente ela se divide entre a minha casa e a casa dos meus irmãos. Está no paraíso por estar perto de todos depois de tanto tempo.
O outro quarto é dos filhos dele. Eventualmente algum deles vem passar o final de semana conosco. Ou quando precisam resolver alguma coisa na cidade. O mais velho tem a chave. Mesmo quando não estamos em casa, se ele precisa, ele vem.
E o nosso quarto. Nosso lugar preferido. No começo, uma discussão sobre a TV. Eu não queria uma no quarto, mas ele insistiu. Acho que tira o foco do casal, mas acabou que passamos a assistir filmes e séries juntos, aproveitando todos os momentos possíveis.
Tomo um banho pra me livrar do cansaço da viagem. Ainda tenho muito o que fazer. Saio do banheiro enrolada na toalha.
Checo os e-mails pelo celular. Nada de urgente. Olho nossa conversa, ele ainda não acordou. Logo vê.
Separo as roupas sujas da mala. Levo as minhas hoje, e na sexta, quando for buscar, deixo as dele.
Ele responde minha mensagem. Sorrio sozinha de novo... A véspera da sua chegada sempre é muito difícil pra mim. Misto de alegria com o retorno, preocupação com os deslocamentos. Afasto os pensamentos negativos. Ele está me ligando por uma vídeo chamada.
Nos vemos. Todos os dias neste horário temos essa chamada de vídeo. Faço sempre de tudo pra não deixar de acontecer. Nem que seja breve, só um aceno e um beijo. Mas é nosso trato: todos os dias, pelo menos uma vez, a gente se ver. Há anos cultivamos isso.
Ele sorri ao me ver. Meu coração se enche de alegria. Tem sido assim há muito tempo, e a sensação de felicidade nunca muda.
Ele fala um pouco sobre seu dia, eu falo da viagem. Ele confirma o desembarque amanhã, e eu fico de enviar o voucher da passagem. Eu faço as compras das passagens dele para embarque e desembarque e embora no dia de ir eu sempre envie os arquivos para ele, ele nunca acha quando precisa. Já estou acostumada.
Ele repara que estou só de toalha. Pede pra me ver. Está sozinho no camarote. Eu apoio o celular sobre a cama, ajusto a câmera para que eu fique visível. Me sento de frente para o telefone. Ele gosta quando eu faço isso. Estou com saudades dele, faz duas semanas desde a última noite juntos. Essa brincadeira já me excita.
Ele diz que vai tomar um banho. É sempre nosso momento. Ele vai para o banheiro. Eu estou aguardando por ele pacientemente. Sei que vamos ter momentos gostosos.
Ele liga novamente a câmera. Agora é a vez dele dar as ordens. Pede que eu tire a toalha que envolve meu corpo. Sabe que estou nua por baixo dela. Ele se excita ao me ver. Meu corpo reage mais ainda. Pede que eu afaste os cabelos, quer ver meus seios... Toco levemente com as mãos meus mamilos. Ele se toca também. São momentos assim que nos mantém com tesão um no outro. A provocação, o desejo de ver e tocar o outro, a saudade. Ele fala coisas que eu gosto de ouvir. Sabe o quanto isso me excita. Passo a me tocar com mais intensidade, em outras partes do meu corpo.
Estou com saudades do seu toque em mim. Enquanto ele fala o que pretende fazer quando nos encontrarmos, eu imagino nossos corpos juntos. É muito forte a ligação que temos, principalmente na cama. Perto ou longe.
A brincadeira esquenta. Sempre demoro um pouco mais pra me satisfazer. Ele sabe disso. É paciente e dedicado, mesmo que virtualmente. Me conduz ao meu prazer. Me observa enquanto atinjo o ápice. Sorri satisfeito. Agora se dedica ao próprio prazer. E eu que observo. A saudade é grande. Mas amanhã logo chega.
Hora de voltar ao trabalho. Ele toma um banho pra acalmar o corpo. Deixa o telefone posicionado de forma que eu posso continuar a vê-lo. Termina o banho. Nos despedimos com beijos virtuais. Menos de  30 horas e vamos estar juntos novamente. Daqui a pouco nos falamos mais.
Volto para o chuveiro. Leve. Essa rotina do carinho virtual nos faz bem. Termino o banho e agora me visto. Vamos aos afazeres.

Amanhã eu continuo!










segunda-feira, 25 de maio de 2020

Porque ele.

Vou tentar explicar.
Talvez seja a forma como ele cuida de mim. Sua preocupação em saber se cheguei
 Em pedir que eu não demore, não volte tarde. Seu zelo quando demonstro minhas inseguranças e fraquezas. Talvez seja ciúme, que ele não faz questão nenhuma de disfarçar.
Ou sua voz. Seu jeito de pronunciar as palavras, de construir as frases. Concordância verbal é sexy, não tenho dúvidas...
Mas às vezes acho que é a forma que me olha. O brilho no olhar quando nos encontramos. O olhar alegre, na gratidão do encontro, na certeza de momentos bons.
Em outros momentos, acho que é a forma que me mantém ao seu lado quando estamos juntos. Sempre a procura do meu olhar, de mãos dadas, corpos próximos, beijos roubados, carinhos discretos e sinceros.
Penso também que me encanta a forma como quer me entender. Como tenta me ajudar. Como descontrói meus medos. Reforça minha auto estima, como impõe que eu me valorize.
Mas sei que a forma como me toca faz meu mundo girar diferente. O contato simples do primeiro momento, mãos dadas apertadamente, para demonstrar para o outro que aquele momento é real. Depois o beijo. O primeiro depois de longo tempo. Esse primeiro beijo, o beijo do reencontro, tem o sabor da saudade. A pressa do amor guardado por meses. É um beijo rápido, muitas vezes ainda no meio das pessoas, um saguão de aeroporto qualquer.
No caminho pra algum lugar, as declarações de saudade cercadas de amor. Mãos dadas, como se pudessem manter o tempo congelado naquele momento. É tanta alegria que é possível ouvir nossos corações pularem. Outro beijo, e mais outro. Nossos corpos se reconhecendo no reencontro.
Tudo vibra, tudo pulsa ao seu lado. Meu corpo foi feito na medida para o seu.
Chegamos em algum lugar. Qualquer lugar. Porque o lugar não importa. Uma porta se fecha atrás de nós. É o momento onde sabemos que agora o mundo é nosso. Só eu e ele.
O beijo. Aquele guardado mesmo. Com pressa da boca do outro. Agora sem plateia. Sem medo. Sem olhares ao redor. E sem pressa. A pressa é pelo outro. Estar perto, estar junto, estar.
O beijo. Não sei explicar. Duas bocas unidas como se nunca tivessem estado longe uma da outra. Seu gosto nos meus lábios é tão familiar. A sua respiração junto da minha. Seu coração no compasso do meu. Eu e você, como se fosse assim desde a eternidade.
A sua boca procura pela minha com pressa. Você quer meu gosto em você. Sua língua invadindo, seus lábios nos meus, você me mordendo, sugando minha boca para completar a sua. Juntos, lábios, língua, respiração. Temos pressa em voltar a sermos um só.
Não há tempo pra nada. Seu corpo reage com força ao meu. Te sinto através de nossas roupas. Excitado, quente, rígido contra minhas coxas.
Suas mãos nos meus cabelos, entrelaçando, me puxando pra mais perto, pra dentro do seu beijo.
Uma mão está na minha nuca, firme, dominando os movimentos do nosso beijo. Mantendo minha boca na sua. A outra mão, maliciosa, quer redescobrir cada centímetro do meu corpo. Pescoço, ombros, seios. Com pressa. Com violência, firmeza. Suas coxas pressionam as minhas. Estamos em pé, você me mantém presa contra a parede.
Sempre me visto para esses reencontros pensando em você. Uma saia. Um vestido. Gosto de ver sua reação ao me ver vestida assim. E penso sempre no momento que vamos fechar a porta.
Sua mão agora desce pelo meu abdômen. Para na minha cintura. Aperta, pressiona. Insinua sua perna entre as minhas pernas, forçando-as a se separarem. Sobe a coxa entre as minhas. Empurra seu corpo contra o meu. Quer que eu sinta como está excitado. Te sinto.
Segura meu quadril e me vira de costas pra você. Levanta minhas mãos acima da minha cabeça. Prende meus pulsos com sua mão. A outra mão está livre. Desce pelas minhas costas, me aperta a cintura, desce e me aperta o bumbum. Me empurra contra a parede com o peso do seu corpo. Solta minhas mãos e agora está com a mão no meu rosto, me forçando a virar para poder me beijar mais e mais.
Puxa pelos cabelos. Deixa a nuca livre e me beija o pescoço. Eu já não sei gemer baixo. Esqueço se pode haver alguém por perto.
Agora está com as duas mãos na minha cintura... Força o meu corpo contra seu próprio corpo. Movimenta seus quadris pra eu sentir mais uma vez sua ereção. Meu corpo está tenso de desejo.
Sua mão sai da minha cintura e se insinua sobre a renda da minha calcinha. Ele me sente úmida e quente, mesmo ainda sem me tocar sobre a pele. Tem pressa. A sua mão agora está dentro da minha calcinha. Agora ele tem a dimensão da minha excitação. Seus dedos deslizam sobre toda a umidade que meu corpo produz de tanto tesão. Sinto seus dedos me tocarem com precisão. Me faz gemer mais ainda. Não quer só tocar. Quer sentir meu gosto. Quer que eu sinta meu próprio sabor. Seus dedos, que antes passeavam em mim, agora estão na minha boca. Passo a língua para sentir meu gosto nele.
Ele pressiona mais e mais o corpo no meu. Volta a mão pra dentro da minha calcinha. Estou cada vez mais quente, mais molhada. Ele agora desabotoa a própria calça. Meu corpo vibra de ansiedade.
Rapidamente se livra do calçado, tira a calça, tudo isso me mantendo presa à parede. Agora ele tira minha calcinha. Enquanto desce a peça pelas minhas pernas, beija barriga, coxas, bumbum.. continuo de costas, como se estivesse presa em um castigo quente e excitante.
Agora, sinto seu calor diretamente na minha pele. Quente, rígido... Seu corpo quer o meu com urgência. Ele curva meu corpo pra frente. Meu corpo dói na expectativa do prazer. Se posiciona me segurando pelos quadris. Sua respiração rápida se confunde com a minha. Meu corpo implora pelo dele. De tanta excitação, sinto meu corpo tenso.
Seu sexo pulsa de ansiedade entre minhas pernas. Uma mão me mantém firme pela cintura. A outra agora guia seu corpo para dentro do meu. Impiedoso, se joga em mim. Sem pensar. Apenas instinto. Um segundo, talvez mais, e somos um só.
Parado, dentro de mim. Respiração suspensa. Invade meu corpo que agora é todo seu. Desliza pra dentro de mim. Todo meu corpo estremece. Um só novamente. Entregues.
Ele se movimenta dentro de mim. Meu corpo enlouquece. Quer mais. Minha respiração pesada é a senha que ele precisa pra continuar. E ele continua. Não é o momento pra carinho ou delicadeza. A pressa do prazer de estar juntos de novo nos deixa ferozes. Somos dois bichos se amando.
Sinto seu corpo preencher o meu. Todo. Cada centímetro dele tomando conta de cada espaço em mim. Movimentos fortes. Cada investida dele contra meu corpo me faz delirar.
Ele está tenso. Se segura depois de tanto tempo de expectativas. Somos um só de novo. Como sempre deveria ser.
Pressa. Não conseguimos nos controlar. Ele me vira e me joga sobre a cama. Quer me olhar nos olhos enquanto domina meu corpo.
Afasta minhas pernas, separa minhas coxas. Está olhando pra mim. Olhos quentes de desejo.
Novamente ele está dentro de mim. Se projeta até o fim. Sinto a invasão do meu corpo. Ele domina meu prazer. Me faz gemer a cada investida.
Me beija enquanto penetra meu corpo com o seu. Meus gemidos são abafados pelos seus beijos.
O seu peso está sobre mim. Investe sem dó. Seus movimentos são fortes. Dor e prazer juntos.  Ele acelera as investidas. Meu corpo treme. Estou gemendo. Dor e prazer, sempre.
Ele está em mim. Sinto novamente cada pedaço seu dentro de mim. Aumenta ainda mais meu tesão a cada movimento seu.
Sinto toda a excitação se transformando em energia dentro de mim. Ele sabe que estou no limite. Diminui o ritmo. Meu corpo reclama sob o seu.
Subo meus quadris pedindo mais. Ele penetra mais fundo. Gemo de dor. Ele sabe que me maltrata com isso. Mas não peço pra parar. Pelo contrário, envolvo sua cintura com minhas pernas e com isso, permito que ele vá mais profundo em mim.
Meu corpo se ergue pra receber o seu. O movimento está mais intenso. Seu calor em mim só faz aumentar meu desejo.
Tudo em mim se contrai. Não consigo mais segurar. Ele me segura pelo rosto. Quer meu olhos no dele. Continua se mexendo em mim. Mais... E mais. Já não consigo respirar. O coração está demasiadamente acelerado. Ele intensifica a invasão, bate com força seu corpo contra o meu... Estou quente, dentro e fora. Não tenho mais como resistir.
Mais uma vez, e outra, meu corpo se contorce, se contrai, e em um movimento mais firme seu, tudo em mim vira sensação. Meu gozo explode em mim. E ele gosta do que vê. Meu rosto contraído de tanto prazer. Lábios apertados, tensos. E toda a energia acumulada extravasa em um gemido intenso e profundo. Todo meu corpo treme sob o dele. Tudo é prazer.
Ele observa meu corpo extravasando a tensão. E isso aumenta o tesão dele. Ele sabe que agora pode também desfrutar desse mesmo prazer, porque já me fez sair do chão, já me levou ao céu. O
movimento agora está mais forte. Meu corpo continua reagindo à invasão dele. Ele está cada vez mais rápido dentro de mim. Isso só prolonga meu êxtase... Continuo delirando de prazer. E ele está cada vez mais próximo do dele. Eu sinto agora a tensão. Ele me aperta contra seu corpo, aumenta o ritmo das investidas freneticamente. Crava seus dedos na minha cintura e com isso empurra mais seu corpo contra o meu. Nossos corpos estão banhados de suor. Ele continua. Intenso, firme, quente dentro de mim.
Até que todo o seu corpo se contrai. Ele está feroz sobre mim. O movimento acelera intensamente. Ele se contorce. Quer estar inteiro dentro de mim. Com força, com saudade, com tesão. Me puxa mais e mais. Meu corpo se contrai novamente..ele não pára. Estou gemendo e pressionando meus quadris contra o dele... Ele quer mais. E mais. Muito mais. Até que seu corpo não consegue mais evitar. Ele geme alto, me invade mais uma vez com violência, meu corpo vibra de prazer. Estamos juntos no auge da junção de um no outro. Ele geme mais alto, e seu corpo já não se controla mais. Ele explode em êxtase dentro de mim. Eu sinto meu corpo se encher do seu calor. Ele está dentro de mim. Completamente meu. E eu, completamente sua. Entregues. Em um gozo único, intenso. Mágico.
Permanecemos deitados um no outro. Coração pulsando acelerado, respiração ofegante. Completamos o encontro. Corpo, alma, coração.  Somos um só novamente. Como deve ser.
Suor, calor, corpos colados. Prazer. Nossos cheiros e fluidos se misturam. De novo, somos um só.
Ele ergue seu corpo sobre o meu. Me beija com carinho. Se vira para o lado e me puxa sobre seu peito. Ouço seu coração ainda acelerado. O melhor lugar do mundo... Seu abraço. Adormeço. Segura, amada, completa.
Por que ele? Preciso mesmo explicar?...




domingo, 17 de maio de 2020

Agir como se...


Aja como se.

Agir como se não estivesse com depressão. Essa é a proposta do psicólogo essa semana. De cara, achei uma tarefa bem fácil. Afinal, passar um dia fazendo só as coisas que gosta e outro se dedicando ao trabalho, não deve ser nenhum problema fora do comum.
Mas uma coisa me intriga desde que ele lançou o exercício: não consigo me lembrar de fazer coisas prazerosas. Não sei o que fazer. Mas calma. Ainda tem dois dias para descobrir.
Paro para pensar na minha vida. Não é tão ruim assim. Viajo com uma certa frequência... isso me dá prazer. Avalio as últimas viagens... definitivamente não me dão prazer. Pode ser reflexo da depressão. Afinal, até hoje não consigo identificar desde quando ela toma conta dos meus pensamentos.
Corto viajar. Não é isso. Exercícios físicos. Acho que é isso. Sou muito comprometida. Fora no auge da depressão, que eu simplesmente inventava mil desculpas para não ir, me lembro que gostava. Ou não. Talvez a motivação fosse não ser mais um caso nas estatísticas de quem já fez a bariátrica e engordou tudo de novo. De fato, não é uma coisa muito prazerosa ficar levantando peso e fazendo os mesmos movimentos repetidas vezes... Corto atividade física.
Embora eu gostasse de correr. Acho que pelo momento só meu. Absorta nos pensamentos. Sozinha, música nos ouvidos, pensamentos soltos. Realmente, momentos de satisfação. Além do desafio contra si mesma. É... mas ainda não posso correr. Quem sabe uma caminhada. Um item para a lista.
Me lembro agora dos últimos momentos que eu me senti verdadeiramente alegre: meu anjo. Sempre me vêm à cabeça essas recordações. São tempos de completa felicidade. Até eu perceber que são passageiros. Ai, toda a tristeza cai de volta sobre mim, e eu volto ao mundo real. Se não fosse a partida sem perspectiva de próxima vez, seriam os tempos perfeitos, onde a depressão não cabe, não entra e não tem vez.
Ler. Era apaixonada por livros. Ler era o meu hobby. Ficção. Romance. Histórias. Remexo numa caixa antiga e empoeirada. Resgato alguns livros que nem lembro se já li. Segundo item na minha lista. Já está melhorando.
Nunca tive talentos na cozinha. Sei fazer o básico para me virar. Nunca me fez falta saber cozinhar. Nem cuidar da casa. Sempre tive quem fizesse por mim. Minha prioridade nunca foi ser bela, recatada e do lar. Cozinhar alguma coisa está fora da minha lista.
Do lar não, mas do bar. Agora que estou pensando nas coisas que gostava de fazer, me vem à mente a lembrança de estar em bares. Às vezes com amigos, às vezes, sozinha. Sempre gostei. Alguma coisa para beber, uma música ao vivo. Ou conversar muito. Com pessoas diferentes. Assuntos novos ou velhos. Uma coisa que me dava prazer. Muito. E simplesmente saiu da minha vida. Como eu deixei isso acontecer?
Amigos. Sempre tive muitos amigos. Vivia rodeada deles. Minha casa era sempre o ponto de encontro. O lugar onde se podia ter um espaço tranquilo e legal. Os pais dos amigos gostavam de mim. Apesar de sempre ter um pouco de bebidas e eventualmente um cigarro, nunca houve drogas nem nada ilícito. Nem brigas, nem desentendimentos.
Havia sempre música. A música sempre esteve comigo. Das tardes de domingo na infância, quando nos reuníamos ao redor do pai ao violão e cantávamos juntos, até os shows que eu sempre gostei de ir. Zé Ramalho pelas madrugadas frias de Barbacena, um maço de gudan e um litro de catuaba. Para sete, oito pessoas. E a gente via o dia amanhecer. Felizes.
Sempre gostei de dançar. Desde os bailinhos na adolescência, ao som de Roxete, Erik Clapton, Simply Red, passando pelo forró gostoso no Espírito Santo e pelo modão lá em Goiás. Dançar juntos. Mãos na cintura, sensualidade e flerte. Essas lembranças me fazem sorrir.
Comer nunca foi uma fonte de prazer. Claro que boas comidas sempre trazem uma sensação boa, mas a minha relação com a comida nunca foi muito amistosa. Além de muito tempo morando sozinha, sem grandes avanços na culinária, a forma como o alimento é visto na minha vida hoje não me agrada. Todos os passeios envolvem comer. E eu não sinto satisfação nisso, por não comer muito e por ter que encarar esses momentos como a principal fonte de lazer da família.
Eu penso nos momentos que eu realmente fui feliz nesses últimos anos da minha vida. Não consigo lembrar de muitos. Os momentos com meu anjo, sempre. Momentos de reconhecimento profissional. Minha formatura, como primeira aluna do curso, depois de seis anos de luta e abdicação. Meu filho. A sombra da depressão faz tudo ficar cinza.
Bom, não quero pensamentos negativos agora. Tenho algumas coisas que posso fazer. Que venha o domingo.
E ele chega. Primeiro plano pra hoje: uma caminhada na praia logo cedo, se a chuva der uma trégua. O relógio desperta por volta das cinco e pouco da manhã. Olho pela janela e vejo um céu limpo, azul, sem sinal de chuva. Que droga, no fundo, queria que amanhecesse chovendo. Ele desliga o despertador e não fala nada. Finjo que estou dormindo. Aguardo ele me perguntar se vamos mesmo caminhar. Ele não fala nada. Eu volto a dormir. Um a zero para a depressão.
E lá vem a culpa. Comecei mal. Penso em levantar e preparar o café da manhã para todos. O sono volta. Quando acordo, mãe já está de pé, preparando tudo. Dois a zero para a depressão. Deixei a preguiça dominar. Vou ficando triste. Mas não. Hoje não.
Levanto, arrumo a cama, coisa rara em um domingo. Normalmente passo o dia todo deitada. Tiro o pijama e visto uma roupa para sair. Não vou ficar de pijama o dia todo. Dois a um. Nessa, a depressão não vai levar.
Venho enrolando sobre fazer as compras no supermercado. Mas não quero perder o meu “happy day” com isso. Mas preciso de alguma coisa para o almoço. Pensei em tantas coisas que poderia comer que me trouxessem algum prazer. Decido. Vamos buscar. Só nos dois. Peço para ir de moto com ele. No início do nosso namoro, quando morávamos no interior, nossa diversão era vir de moto à capital, passear por alguma praia. Quem sabe?
O vento no rosto. A visão do mar. O sol aquecendo meus braços. Fecho os olhos. É uma sensação boa. Não preciso conversar. Não preciso interagir. Só sentir o momento. Quando tudo isso passar, quero vir mais vezes ver o mar. Realmente me sinto bem. Mercado, não tem como escapar. Uma sobremesa que me remete à infância. Uma cerveja sem álcool. Vamos para casa.
Um livro. Muito tempo que não leio. Escolho um que realmente sei que não li. São contos de renomados escritores do mundo inteiro. Textos curtos. Leio rápido. Ele me interrompe algumas vezes. Não entende que estou no meu momento. Isso me chateia. Sinto vontade de parar de ler e dormir. Mas insisto. Ignoro os comentários até ele perceber que quero continuar lendo em paz. Dois a dois. Não vou deixar isso me afetar.
Quase terminando o livro. Levanto, vou tomar minha cerveja. É um prazer passageiro, na verdade, mais uma afronta que um deleite. Sei que ele não gosta. Mas a ideia não é agradá-lo. É agradar a mim. E me trazer recordações de momentos felizes. Bebo com satisfação. Dois a três. Virei o jogo.
Já o almoço não é como eu esperava. A comida não me traz a satisfação de antes. Como em silêncio e todos me acompanham na falta de assunto. Poderia ter escolhido outra comida. Ter feito alguma coisa para todos. Culpa. Três a três. Que droga... Ela empatou a partida.
Termino rápido, a sobremesa já não parece tão gostosa como eu imaginei. A tristeza ronda, o dia vai pela metade e quase não fiz nada. Vou me deitar um pouco. Quatro a três. Está me vencendo.
Não consigo dormir. Inquieta, hora sinto frio, hora sinto calor. Sede, xixi... Vou me irritando. Sempre gostei do meu sono da beleza depois do almoço. Nem isso hoje me dá prazer. A raiva aumenta. Cinco a três. Meu domingo está perdido.
Pensei em tanta coisa. Já são quase três da tarde e eu não fiz quase nada. Volto ao livro. Pelo menos vou terminar. Às vezes tenho que ler o mesmo trecho mais de uma vez pra entender, porque a falta de concentração me faz passar pelas palavras sem conectá-las. Que luta. Mas termino. A sensação é boa. Cinco a quatro. Ainda posso pelo menos empatar.
Resolvo que vou caminhar. Uma atividade física tem que ter. Queria ir sozinha, mas sei que vai ser impossível. Ele quer que seja só nós dois. Mas eu convido a todos. Pelo menos, não preciso interagir. E vamos todos. Coloco meus fones de ouvido na clara demonstração que não quero conversa. Mas vejo o jogo mudar. Cinco a cinco. Eu posso vencer.
A caminhada não é exatamente como queria. Local feio. Puxando outras pessoas, não vou no meu ritmo. Mas não me deixo abater. A lista de música que toca foi toda feita para meu anjo. Vou pensando em nós o tempo todo. No que vivemos. No que poderíamos viver. Penso em falar dele para o psicólogo, admitir que muito do que vivo hoje tem a sua influência. Mas ainda não é o momento. Volto a sonhar.
Estou cansada. Há tempos que não faço nenhuma atividade. Mas me sinto bem. Acho que valeu o ponto positivo.
Já está ficando tarde. Tinha em mente ainda escrever e ver um filme. Escolho escrever, embora não saiba ainda sobre o quê. Escrevo sobre o dia. Mais uma atividade que me faz bem. Cinco a seis. Se eu não me entregar até a hora de dormir, posso encerrar com um saldo positivo. Ainda há coisas que queria ter feito. Mas entendo que foi um bom dia. Talvez eu consiga outros dias assim.
E a vida segue. Devagar...

terça-feira, 12 de maio de 2020

Solidão

Os dias pesam sobre tudo ao meu redor. Dias bons, intercalados de dias pesados, difíceis. Essas oscilações fazem a gente sofrer mais ainda.
Mas ultimamente as coisas têm sido piores. Um pedaço do meu coração simplesmente parou de bater. Sem vida.
Tive um momento de angústia intensa. Falei coisas demais. Deixei toda a frustração passar para o papel. A mágoa de mais uma vez não ser a escolhida. Toda a decepção de estar sem ele novamente. O mesmo gosto da rejeição que eu senti há tanto tempo atrás. Ele não me escolheu.
Tanto rancor... Fiz tanta coisa pra tê-lo. Mudei minha vida nos últimos anos. Ouvia sua voz pedindo que eu tomasse conta de mim mesma. Cuidasse mais... Virei outra. Por fora principalmente. Sempre tive medo de não ser quem ele esperava de mim.
Por dentro, o mesmo mundo de insegurança, dúvidas. Mas agora, em busca do sol. E ele era meu sol.
Iluminava meus dias com suas flores vermelhas no bom dia. Ouvir ele dizer sobre seu trabalho, seu dia. Suas crianças. Tudo isso me enchia de alegria. Saber de mamis, ouvir suas queixas e preocupações sobre o trabalho.
Mas eu pulei no penhasco. Deixei o peso do passado, misturado com a frustração do futuro... Deixei isso virar palavra... E palavra dói, machuca.
E ele não perdoa. Não volta atrás.
Sentiu a tristeza tomando conta. Deixou as palavras ficarem. Não sabe relevar.
Mas eu já sabia disso. Sabia, assim que vi a visualização de tudo, que eu ia pagar um preço alto. Mas nunca pensei que fosse tanto.
Ele caiu. O Anjo caiu na terra. Nu e sem asas. Se sentiu assim. Permitiu que o meu momento de fúria entrasse no seu coração. Talvez tenha visto alguma verdade no que leu. Ou só viu coisas ruins. Mas machucou, feriu.
Sangrou. Virou dor. Secou. De repente, tudo desmorona. Some. Sigo firme no meu propósito. Não vou mais atrás. Preciso me conformar. De novo, ele não me escolheu. Ouço coisas duras. Olho por olho. Fiz sofrer. Me faz sofrer.
Sabemos atingir, magoar. O tempo todo usamos isso. Ele procura, mas se retrai. Eu simplesmente enxergo a perda. Se foi.
Custo a entender. Ele está irreconhecível. Um dia, dois dias, voltou ao chão. Ele está enterrado. Me arrependo, ele não cede mais.
Dor. Causei dor. Senti dor. Peço perdão. Sei que não adianta. Mas espero no seu amor. E nada.
Dor. Indiferença. Rancor. Ele é ríspido. Paciência e carinho, não vejo mais.
Penso em todos os momentos assim no passado. Até comuns. Mas não como agora.
Preciso entender. Não o vejo mais. Vazio.
Ele ensaia perdão. Mas não consegue perdoar.
A mágoa está em suas palavras o tempo todo.
Não lamento mais. Fiz. Recebi de volta.
Tento acalmar meu coração. Vai passar. Ele pergunta, se preocupa. Mas procuro me conter. Ele tem uma dívida comigo: não pode me deixar. Mas permanece por força. Não está à vontade.
Volto a chorar enquanto tomo banho. Raro momento de paz. Lembro de outros momentos assim. Ele já me viu chorando no banheiro. Culpa. Mais. Como sempre.
Tentamos uma, duas, várias vezes. A conversa não flui. Estou retraída. Culpa, raiva, rejeição. Ele não está mais ali.
Eu só queria estar com ele. Voltar a sonhar com seu abraço e seus carinhos. Voltar a dormir pensando nele. Eu só queria...
O amor... Faz de tudo dentro da gente. Estremece, amedronta. Amar desacelera, desencoraja. Guardo meu amor. Exposta, sozinha. Mágoa por tudo.
Eu só queria que ele entendesse que desistir de lutar é mil vezes pior do que brigar pra ser feliz. Já desisti outras vezes..dessa vez quis lutar. Mas não sei fazer isso. Medo. Estou de volta à solidão. Não sei mais voltar.
Preciso sentir o amor de novo. Descansar no porto seguro. Sentir amor.
Preciso da paz do seu sorriso. Das suas flores no bom dia. Preciso do seu amo vc apaixonado e verdadeiro. Preciso.
Não sei como resgatar. Não sei como retomar. Mas eu estou aqui. Meus sonhos juntos estão guardados no meu coração, simplesmente esperando o seu sim.
Às vezes o coração fraqueja, o medo entra e faz morada. A rejeição aflora. O passado volta. Ele não me escolheu.
Mas eu fecho os olhos, o tempo pára. Um dia vai ser diferente. E eu vou esperar. Porque o amor só se vive uma vez. E sei que mereço isso. Ele também.
Esperar. Não posso mais que isso. Mas meu amor espera pelo amor que ele tem pra mim. Mesmo que ele não seja pra hoje. Nem pra amanhã.
Mesmo que eu pense que não mereço. E que ele pense isso também. Mas meu amor espera pelo seu.
Mais mil anos. Ou um dia. Quando puder ser meu. Inteiro ou pela metade. Todo ou em partes. Espero por você.
Porque amor assim não se perde, não se deixa passar. Nem hoje, nem nunca. Dura pra sempre. Sempre dura.










quarta-feira, 29 de abril de 2020

Noite

As coisas andam meio estranhas. Volto a ter dias cinzas com mais frequência. Os questionamentos sobre o que ando fazendo da vida têm tornado meus dias um castigo.
O trabalho se acumula. A falta de concentração me deixa inquieta... Ou a inquietude me tira a concentração. Não sei a resposta.
Tenho pensamentos negativos novamente. Parece um ciclo. Vão e vem quando querem. O sono está absurdo. Continuo acordando pesada, cansada.
Cansada. Virou meu mantra. Meu hino. Me sinto cansada o tempo todo. Até eu canso de dizer que estou cansada. Mas quando paro pra pensar (e penso o tempo todo) no que estou sentindo, só sinto cansaço.
Pensar e cansar de pensar. O gasto de energia está enorme. O trabalho está sufocante. Uma avalanche de problemas. As pessoas ao meu redor sem objetividade. Isso me estressa. Estou me tornando intolerante. Isso cansa.
Penso em mim. Decidi procurar o psicólogo. As consultas espaçadas com o psiquiatra não estão ajudando muito. Ele trata a causa, preciso tratar as consequências.
Autoconhecimento. Sei que preciso disso. Mas não nego, tenho medo do meu lado sombrio.
As coisas em casa, me sinto em um teatro. Encenação. Ele finge que eu estou bem, eu finjo que ele acredita. Ele está me cercando absurdamente. Se eu falo que senti vontade de alguma coisa, prontamente ele providencia. Quer me tocar o tempo todo, estar próximo. Não respiro.
As noites têm sido as piores. Eu, cansada no ponto máximo, e ele ligado no 220v. Fala o tempo todo. Quer planejar. Quer discutir a relação. Quer saber sobre meu dia. E o contato. Está virando uma luta. Aprendeu agora a falar se encostando em mim. Me seguro para não afastar.
Transamos duas vezes depois que baixei a guarda. A primeira, expectativas e frustração. Não adianta. Ele continua o mesmo. A segunda, diferente do contexto. Começou com uma dor nas costas que ele se propôs a usar o massageador para aliviar. Não tenho paciência para a dor. Nem para ele. Mas deixei.
Das costas, a massagem com o aparelho seguiu para as coxas e bumbum. Queria que eu tirasse a calcinha... sabia que ele não perderia a oportunidade. Mas não tirei. Só que não vou negar, a sensação do massageador nas áreas onde a cirurgia pegou pesado é um alívio incrível. As sessões de drenagem acabaram e o corpo sofre pra voltar ao normal. Mas a sensação é boa de verdade. Um misto de relaxamento e excitação, quando ele começa a ser mais ousado com o massageador. Ele pergunta se eu quero a massagem na barriga. Relaxo, esqueço meus bloqueios com ele e me viro.
Cubro o rosto com a toalha. Ele espalha o óleo e volta a usar o massageador. Me ligo nas sensações. Esqueço quem está ali. Ele está quieto. Nem ouço sua respiração.
Meus pensamentos vão pra outro lugar. A sensação dos olhos vendados. A expectativa. O massageador. E eu permaneço de olhos fechados.
Ele aproxima o aparelho das minhas coxas. Sobe com ele. Faz movimentos me provocando. Sei das suas intensões. Ele tira a minha calcinha. Não ofereço resistência nenhuma. Os olhos fechados, as expressões do rosto escondidas sob a toalha. A culpa começa a me rondar. Sentimento de traição. Permaneço.
Ele ousa, percebe minhas reações. O massageador agora está por áreas que não deveria estar. A sensação é extasiante. Meu corpo reage. Impossível não associar os momentos.
Estou excitada. Muito. Há tempos não me sentia assim. O corpo quente. Úmido. Não quero abrir os olhos.
Sinto vontade de me tocar. Mantenho os olhos fechados. Me toco. Sinto um prazer já conhecido. O corpo se arrepia de satisfação. De novo, meu prazer na minha mão. Ele para com a massagem. Não sei se me olha. Deve estar olhando. Não me importo.
Me concentro no meu prazer. Sinto meu coração acelerado. A respiração mais curta. Até que meu corpo se contrai. Sinto a corrente de energia passando por todas as minhas terminações nervosas. Prolongo a sensação o máximo que posso. O ápice. Relaxo. Realizada.
Abro os olhos. A realidade bruta volta. Vejo quem está do meu lado. Olhos famintos. Sinto  misto de decepção e culpa. Ele quer a parte dele. Tira a roupa. Sua falta de sei lá o que de sempre. E de repente percebo que toda a excitação se foi. O momento dele pra mim é tormento. Incômodo, tensão. Corpo não quer. Mente se sente traindo. Enfim, ele termina.
Volto ao meu mundo de pensamentos negativos. Até quando vou permitir isso? Adormeço.
De manhã, o mundo é o céu pra ele. Não sei disfarçar a sensação de coisa ruim. Me sinto suja. Esses sentimentos me dão raiva.
Todo momento ele usa pra um toque sexual. Isso é desgastante. Mas eu deixei chegar neste ponto. Não posso reclamar.
Finalmente ele se vai. Meus pensamentos que antes já estavam ruins, agora estão piores.
Eu preciso saber como conduzir isso. Ou eu permito, assumo e deixo o barco ir. Ou eu paro. Porque viver assim só torna as coisas piores.
Eu me sinto traindo. Isso está me bloqueando mais ainda. Não estou fazendo nada demais. Indo pra cama com o meu marido. Mas o envolvimento emocional que tenho com outra pessoa tem um peso enorme pra mim. Não sei mais o que fazer com relação a isso.
Preciso tocar a vida. E não vejo alternativas para a paz que eu procuro.
A culpa está sempre me perseguindo. A ausência de carinho e contato físico me assustam. E tudo, absolutamente tudo, me cansa.
Mas não posso me entregar. Não agora. Eu não posso desistir. Meu anjo não está pronto pra isso. Eu preciso achar uma forma de me manter bem até ele estar firme nas decisões que precisa tomar.
Mas esse jogo todo de esperar, escolher ficar sozinha ou continuar, me sentir sozinha, carente e sem prazer, o cansaço... Tudo isso me desnorteia.
Sigo me sentindo fazendo a coisa errada. Traindo meus sentimentos e os dele. Ou não. Pode ser mais uma invenção dos meus pensamentos para continuar me jogando na lama.
Se estou certa ou errada, não sei dizer. Só penso que não é uma coisa muito fácil de se resolver.
Deu a hora. Preciso ir trabalhar.



domingo, 26 de abril de 2020

Vinte anos depois

O que pode acontecer em vinte anos? Como estarei daqui há vinte anos? Quem eu era há vinte anos atrás?

2018. A vida vai entrando nos eixos aos poucos.  Acho que estou no caminho certo. Faculdade concluída, pós em andamento. Cirurgia feita. Se não fosse pela perda do bebê, talvez eu estivesse melhor. Mas são os revezes da vida. Faz parte.
Mas a verdade é que não. Estou sozinha. Casada e só. A solidão a dois é uma coisa muito forte. Por fora um casamento feliz. Realizações, viagens, compramos uma casa, trocamos de carro a cada dois, três anos. Filho com saúde. As coisas indo bem.
Por dentro, solidão. Não se pode ter tudo.
Dentro de quatro paredes, muita coisa sem sentido. A falta de afeto no dia a dia, a busca incansável em agradar. Andar separados, sem beijos ou carinhos fora da cama. Surpresas e presentes atrelados ao sexo. Por vezes ajo e me sinto como uma prostituta.
Ele me trata como uma. Me agrada na hora do sexo. Fora isso, dois amigos com algumas despesas em comum e um filho.
Mas todos nos vêem como um casal modelo. Sem uma briga, sem discussões. Onde um vai o outro está junto.
Na verdade, o que todos acham que é cumplicidade e amor, pra mim é só posse. Mas segue a vida.
E um dia, meio do ano mais ou menos, uma mensagem por uma rede social: oi, sou seu Anjo, 20 anos depois, lembra de mim? Um perfil sem foto, com informações estranhas. Mas se eu me lembro? Claro que sim.
Quando saí do meu primeiro emprego, nosso contato ficou muito limitado. Nos vimos ainda uma vez, ele foi me ver. Depois, a distância e as dificuldades da época com relação à comunicação nos fizeram perder o contato. Nossas vidas seguiram rumos muito diferentes.
Na primeira conversa já me senti a vontade. Reconhecendo tantas coisas que foram importantes pra mim. Redescobrindo coisas. Conhecendo outras.
 Surpresa, que ele ainda está casado, tem mais um filho. Uma certa melancolia bate em mim. Um filho que por vezes quis ter com ele.
Mais tarde descubro que na verdade eram mais dois... Mas isso é outra história.
Vamos conversando com alguma frequência. Passo a ficar ansiosa por esses momentos. Passamos a conversar mais vezes. A internet é uma ferramenta poderosa.
Ele quer saber de mim. Tem sede e pressa de descobrir 20 anos de histórias..
Os dias passam, e o que eram conversas espaçadas começam a virar uma rotina.
Sua presença passa a fazer parte da minha vida constantemente. De repente, não saio mais do telefone.
Os sentimentos vão reaparecendo. Começo a sentir sua falta. Sua rotina me dá uns dias longe da família, no trabalho ele está sempre mais disponível pra mim.
Mas os seus períodos em casa são longos. E eventualmente ele some. Viagens com a família, passeios. Tem uma vida agitada.
E nos dias de ausência, sinto sua falta.
Quando percebo, já estou com todos os sentimentos por ele novamente despertos. Vinte anos adormecidos. Tantas lembranças de volta. E eu começo a me preparar para sofrer de novo.
Primeiro golpe foi sua sinceridade habitual: vida estabilizada, casamento sólido, filhos em formação. Não pretende mexer em nenhum destes pilares.
E então, me pergunto porque ele veio atrás de mim, depois de tantos anos? Porque veio despertar um amor há tanto tempo adormecido? Acho que está somente querendo testar se ainda sinto algo por ele.
Penso neste momento que devo parar. Hora de parar com isso. Já tive uma experiência muito ruim com isso no passado, e a sua ausência moldou a minha vida dali pra frente. Não quero isso de novo.
Mas ele começa a dividir coisas comigo. Quando sofreu uma perda importante na sua vida, falou comigo. Isso me tocou. Problemas sérios com um dos filhos. Dividiu comigo também. A teia de confiança e cuidado um com o outro crescia. Difícil sair.
Começam os questionamentos pelo meu passado. Sei que fiz inúmeras burradas desde que nos separamos. Hoje penso que foi uma forma que eu mesma achei de me punir e não me envolver. Porque amar me fez sofrer demais. Posso dizer com toda a convicção do mundo que não amei ninguém depois dele. Gostei, me encantei, passou. Amor, nunca mais vivi.
Mais uma vez ele me joga a realidade. Em uma ligação, deixa claro de novo que me procurou pra saber como eu estava, pra saber de mim. Nada mais que isso. Havia carinho. Não havia amor.
Mas mesmo assim meu coração espera ansioso por cada mensagem dele. As coisas começam a ficar estranhas em casa comigo.
Conversamos sobre tudo. Nosso assunto preferido, sempre sexo. Gostamos da provocação. Estou totalmente envolvida. Ele, sempre reservado, vai se abrindo ao poucos. Conectados novamente. Como se nunca tivéssemos nos afastado. Amor de novo. Intenso, verdadeiro.
Mas ele tem uma vida construída, e aos poucos vou deixando a minha realidade ser aberta.
Em casa, cada dia pior. Ciúmes, discussões, mensagens lidas.
Mas eu só penso nele. Minto, disfarço. Crio situações insustentáveis. Preciso vê-lo.
Ele quer me ver. Nem acredito nisso.
Mas a coragem falta. As mensagens lidas me fazem temer. Ele não consegue disfarçar o desapontamento.
O tempo passa, a sincronia, intimidade e sentimentos só aumentam.
Finalmente ele reconhece também seu envolvimento. Seu amor. Vou às nuvens. Um sonho. O amor de uma vida inteira.
Mas não passa disso. Amor platônico, à distância. Sem chances de ser mais.
Começo a descobrir fantasmas em seu passado. Situações que têm um peso impossível de se carregar.
Ele está preso no seu passado. E o preço disso é a nossa história.
Eu me revolto, choro, não consigo acreditar. Tanto amor, tanta coisa pra viver juntos. Mas nosso passado vai nos afastar.
O primeiro encontro, da apreensão à explosão de amor. E todos os outros dali por diante.
No meu coração não há espaço pra mais nada. Meu corpo só descansa no seu.
Os momentos juntos, sonho e realidade se misturam. O prazer fora do normal. O entendimento. Tudo é intenso.
Mas ele não consegue. Ele simplesmente não acha um lugar pra mim na sua vida.
Seus medos, seus fantasmas, sua dívida. Não há espaço pra mim.
Por mais que ele diga que sim. Eu sei que não.
Novamente eu me revolto. Mais uma vez a dor de não ser a escolhida. A rejeição. Um amor maior que eu e ele juntos. Fadado a não ser nada mais que um lugar de boas memórias.
Eu penso em o quanto a minha vida se transformou depois que ele voltou. Tudo está revirado. Cabeça, coração. Tudo pelo avesso. Avesso ao real que eu vivo.
Imploro, choro, rastejo. Hora penso que posso viver com a sobra do seu amor. Hora acredito que isso vai acabar com o amor que tenho por ele.
Tento, Deus sabe disso, que eu tentei tirá-lo da minha vida. Voltar para a mediocridade que eu vivia antes. Tocar a vida. Voltar ao lugar de antes.
Mas como? Como simplesmente esquecer o que é ser amada de verdade?
Como esquecer o toque com carinho, o sexo com dedicação, a segurança e o amor?
Mas não há lugar pra mim na sua história. Só me cabe no universo paralelo que criamos.
Enquanto meu mundo desabou por causa dele, o dele continua resguardado e intacto.
Minha vida remexida e revirada. Casamento por um fio, exposta, humilhada. Desacreditada. Lutando por um amor que não pode ser meu.
Tantas vezes me perguntei porque não consigo sair disso. Porque não consigo admitir que nossa história não é para essa vida?
Há muitos assuntos mal resolvidos na vida dele, que vão levar mais que essa vida pra serem resolvidos. E enquanto ele não superar isso, não vamos poder viver nosso amor. Ele me ajuda na minha evolução, mas não consegue cumprir a sua.
E com isso, o preço que pagamos é o nosso sofrimento. Estarmos longe um do outro.
Ele talvez só pense no que tem feito por mim, como tem ajudado na minha evolução. Mas não entendeu ainda que a evolução dele é tão importante quanto a minha.
Eu sei hoje que nossa luta não vem dessa vida. Nossa dívida com outras pessoas têm nos mantido afastados durante muito mais tempo do que imaginamos.
Penso em ir embora da sua vida. Pra poder voltar pra minha. Minha vida fria e sem cor. Eu queria que ele me deixasse partir.
Mas a nossa evolução nos prende um ao outro.
E ambos estamos causando o sofrimento em nós. E talvez, não vamos conseguir superar isso. E mais uma vez, mais uma vida, vamos desperdiçar o amor. E vamos pagar o preço por isso. Sofrendo agora.
Eu posso pedir pra ele ir. E sei que ele vai fazer isso por mim. Porque eu já pedi pra ele ficar ao meu lado e aceitar que eu estou com ele para o ajudar a superar suas dívidas com as pessoas que ele tem ao seu redor. Mas ele não aceita minha mão estendida.
Enquanto isso ele se concentra nos meus problemas e na minha evolução. E ele está traindo sua própria evolução.
O nosso amor é imortal. E como eu disse, talvez não tenho seu encontro nessa vida.
E é por isso que eu penso se realmente devo insistir. Se devo deixar meu coração nas suas mãos. Porque talvez não seja o momento dele. E ele precise de mais tempo.
Então, eu só peço aos meus anjos que me protegem que me façam ver e aceitar o que o coração dele tem pra mim.
Me conforta ter a certeza que nosso destino é estar juntos. Mas me entristece saber que talvez não seja agora.
Tenho medo da morte e da perda. Tenho medo de não saber mais seguir sem ele. Mas sei que precisamos passar por tudo isso.
E hoje, a única e mais sincera coisa que espero dele é que me diga que não espero em vão. Mas se ele acha que essa vida ainda é pouco para ele estar pronto pra mim, que ele me diga. Porque eu simplesmente vou esperar. Mais 20 anos. 200 anos. 2000 mil se for preciso. Mas eu ainda vou viver esse amor. Por ele e por mim. Pra sempre.


Mente sã, corpo são.

Então, o inverso também deve ser verdadeiro. Nas ciências exatas, grandezas diretamente proporcionais.
Difícil é dizer quem comanda o quê. Porque não sei mais se meu corpo está doente porque minha mente está doente, ou se minha mente adoeceu porque meu corpo não está bem.
Tomo o remédio e vou dormir. Um amigo médico me disse que é um indutor do sono. Não te mantém dormindo. Te faz dormir. Eu já havia descoberto isso.
Acordo por volta das 02:30h. Virou um hábito. Vou ao banheiro. Tenho sede também. Bebo o resto da água da garrafa sobre a cômoda. Foi meu erro.
O celular está aceso. Isso me incomoda. Desbloqueio a tela e vejo: whatsapp fazendo donwload. Vejo sua última mensagem. Pergunta se já vou dormir. Fico triste por não ter respondido. Não gosto de dormir sem me despedir. Mas agora é tarde. Literalmente.
Volto pra cama. Sinto uma dor de cabeça começando, bem longe. Penso em tomar um remédio logo. Tomei a água toda. Agora já era. Abrir a porta do quarto está fora de cogitação. Voltou a fazer barulho. Isso me irrita muito. Acorda a casa toda se for abrir. Porque ele demora tanto para resolver essas coisas simples? Tento dormir. Felizmente o sono vem logo. Ou infelizmente.
Tenho sonhos estranhos. Momentos agradáveis entre amigos. Dificuldade em me mover. Um sonho que vem se repetindo. Lembro que tenho que falar sobre isso com o psiquiatra. As pernas não me obedecem no sonho. Pequenas distâncias são um  martírio pra percorrer. Sonho com duas mulheres sendo abusadas por um jacaré em miniatura, que está dentro do corpo delas. Há sangue e dor. Sonhos são estranhos.
A cabeça começa a doer mais. Acordo. Me mexo. Ele está ressonando tão alto. Não chega a ser um ronco. Mas incomoda. Me deito para os pés da cama. Muito comum também. Sempre faço isso. Ele já se acostumou.
Volto a dormir. Sonho com um elevador. Engraçado. Sonho bastante com elevadores. Não sei o que isso significa. Normalmente não consigo chegar ao andar que quero. Há muita gente dentro do elevador.
A dor na cabeça me acorda. Os olhos doem. A sensação é que estão empurrando seus olhos pra dentro. A testa dói também. A parte da frente da cabeça. A dor é pulsante. Acompanha as batidas do meu coração.
Está amanhecendo. Que droga, quando vamos colocar uma cortina neste quarto? Só depois do gesso, ele sempre responde. Porque eu sou tão passiva com essas coisas?
A claridade começa a me incomodar muito. Viro de lado, de costas para a janela. Mas isso faz meus seios doerem. Reflexo da cirurgia ainda.
Deito de costas. Coloco o braço sobre os olhos. Porque fui beber a água toda?Penso em tomar  o remédio com a água da torneira.
Cochilo um pouco.
Acordo de novo com a dor de cabeça mais forte ainda. O braço sobre os olhos está incomodando. A pressão sobre eles gera imagens estranhas dentro do meu cérebro. Preciso tirar o braço dos olhos. Não consigo.
De repente, me dei conta que estou imóvel.
Ouço a respiração dele do outro lado da cama. O ar condicionado está ligado. Arma e desarma pela oscilação da temperatura. Um carro passa na rua.
E eu não consigo me mexer. Acho que é coisa da minha cabeça. Preciso tirar o braço dos olhos. Está doendo.
Ouço o sangue passando por alguma veia perto dos meus ouvidos. O som é alto. Faz minha cabeça doer mais.
Preciso me mexer. Fico com medo. O coração acelera e o som do sangue aumenta.
O braço pesa. De repente, sinto minha boca formigando. Dormente. Somente o lado esquerdo. Agora minha mão esquerda. Meu pé. Só o lado esquerdo. Penso em um derrame. Não sei. A cabeça dói absurdamente. Preciso chamá-lo. Não consigo me mover.
Tento relaxar o corpo. E a cada tentativa, meu corpo se contrai mais. Os dedos das mãos, lentamente estão se fechando. Um por um. Uma mão sobre o rosto. A outra sobre a barriga. Os dedos doem de tanto se contraírem. Eu simplesmente não consigo me mexer.
As mãos, agora completamente fechadas. A cabeça latejando de dor. E eu não me mexo. Nenhum centímetro do meu corpo se mexe.
A boca extremamente seca. Eu preciso sair disso.
Penso nele. No Anjo. Ele pediu que eu acendesse uma vela para meu anjo da guarda. Não tive como fazer isso. Penso nele de novo. Preciso sair disso.
Rezo. Ele sempre me pergunta se eu rezei. Rezo. Peço a Deus que me ajude. Tento chamar marido que dorme profundamente ao meu lado.
Continuo rezando. Consigo afastar a perna, toco no travesseiro dele. Ele está tão distante. Que droga. Sempre dorme perto de mim. Hoje parece que a cama é muito maior do que é realmente. Não consigo emitir nenhum som.
A cabeça está me enlouquecendo. Sinto enjoo. Se eu vomitar aqui vou morrer sufocada. Ninguém vai ver.
As lágrimas escorrem pelos meus olhos. Movimento a perna mas ele não acorda. A força que faço pra isso faz minha cabeça doer mais ainda. Me esforço mais. Senhor, me ajude. Começo a gemer. Bato a perna nele. O braço sobre os olhos, não consigo engolir a saliva que se acumula na minha garganta. Acho que agora vou morrer.
Penso no Anjo. Rezo de novo. Finalmente ele se acorda.
Pergunta o que está acontecendo. Eu não consigo falar. As lágrimas escorrem. Eu peço no meu pensamento pra ele tirar o meu braço dos meus olhos. Ele percebe minhas mãos contraídas. Me abraça. Idiota.. eu grito no meu pensamento. Estou sufocando, não me abrace, solte meus braços. Ele não sabe o que fazer. Coloca o seu braço sobre o meu na minha barriga. Eu só consigo chorar. Agora mal consigo respirar e ele não percebe. Só piora.
Enfim ele percebe. Tira meus braços do lugar. Estão tão tensos que dói. Tenta abrir minhas mãos. O corpo está se soltando. Está passando. Ainda não consigo falar.
Penso que preciso ir para um hospital. A cabeça está insuportável. Os mínimos sons doem profundamente na minha cabeça.
Já tive algumas crises de enxaqueca. Já me senti paralisada assim antes. Mas não tudo junto.
Preciso parar. Vou falar com o psiquiatra. Mas se ele me afastar das minhas atividades, acabou minha carreira. Ninguém quer uma gerente com problemas psicológicos. E se eu ficar em casa, minha família vai ficar apavorada.
Consigo dizer pra ele que estou com dor de cabeça. Ele não quer me dar o remédio porque estou de estômago vazio. Eu insisto. Ele vai buscar água. Quando abre a porta, quase morro com o barulho. Que ódio dessa porta.
Não sei mais o que pensar. Estou doente. Só não sei se do corpo, da mente ou do espírito. Ou de tudo junto.
Penso no Anjo. De longe, me ajudando. Mas se eu estivesse sozinha, teria saído disso?
O medo. Sempre o medo ao meu redor. Estou perdendo a razão. A noção e o bom senso. Não consigo mais me manter sã. Estou apavorada.
Muito.
Eu penso na paz que preciso. O remédio começa a fazer efeito. Fecho os olhos novamente. Não quero abrir mais.


sábado, 25 de abril de 2020

Dia cinza

Não. Não amanheceu chovendo. Nem nublado. Um dia de sol. Como tantos outros por aqui. Mas alguma coisa está cinza dentro de mim.
Tenho medo de dias assim. Sei que vai ser um dia longo. 
Acordo parecendo que estou bêbada. Têm dias que a impressão que tenho é que o remédio pra dormir começou a fazer efeito na hora de acordar. É horrível.
Tomo um banho pra espantar o sono. Mal consigo manter os olhos abertos. Conheço a sensação. Tem sido comum.
Ele está preparando o café. Nem fome eu sinto. Mas não tem como escapar. Vou pra cozinha. Aquele momento constrangedor de sempre. Hoje nem me esforço pra conversar. Estou em outra dimensão.
Penso no dia de trabalho. Vou vestir o que pra sair hoje? Talvez a mesma roupa de ontem. Tanto faz. 
A hora se arrasta. Ele não vai embora. Estou inquieta. Vontade de voltar pra cama. Avalio a possibilidade de não ir trabalhar. Penso numa desculpa. Febre? Tosse? Em época de pandemia seria a desculpa perfeita. Só que não gosto disso. Inventar doença. Deus castiga. E a minha conta já está muito alta.
Começo a arrumar o quarto. Ele está sentado em um canto do quarto me olhando. Não gosto disso. Parece um raio x.
Sigo na arrumação sem sentido. Os minutos se arrastam.
Ele ensaia um tchau. Dou um beijo. Finalmente ele se vai.
Estou cansada e ainda não são sete horas da manhã. Me deito na cama ainda desarrumada. Preciso me vestir. Os olhos pesam. Confiro o despertador no celular, fecho os olhos. Entregue. Não quero levantar mais.
Os pensamentos correm velozes. Não há controle. Você pensa no esforço que vai ter que fazer para passar o dia. Aperto os olhos para impedir as lágrimas. É mais forte do que eu.
Sempre uma sensação de peso. O mundo sob seus ombros. O choro te domina. Você nem sabe mais ao certo porque chora.
Você só quer paz. Não consegue mais enfrentar as situações do dia a dia. Não quero nem abrir os olhos. A claridade do dia é uma afronta à sua alma triste e cansada.
Preciso levantar. Me vestir. Meu corpo está pesado, muito pesado. Não me obedece. A garganta apertada com uma vontade eterna de chorar. Você só pensa que não dá mais.
A porta está fechada. Assim como meus olhos. Penso nas dificuldades, nas coisas que terei que enfrentar durante o dia.
As coisas no trabalho não esperam. Já ando dispersa demais. Preciso de foco.
Penso em levantar. Uma mão pesada me prende na cama. Uma mão invisível. Má. Essa mão hora está sob meu coração, apertando. Hora na minha garganta, me impedindo de respirar. Eu luto pra continuar viva.
O choro vai cessando lentamente. A boca seca. O coração cansado. Você só pensa que não quer mais.
Não quer mais se levantar. Lutar para realizar o mínimo possível das suas tarefas diárias. Lutar para vencer a inércia.
Você não sente fome. Você não sente sede. Você se sente só. Exausta. Simplesmente chegou ao seu limite. Não dá mais.
Seu coração suspira aliviado. Finalmente você percebeu que não vale mais a pena lutar. Você não tem mais energia para isso. Só precisa deitar e não se levantar mais.
E esta constatação te traz alento. A paz que vc procura. Você só precisa não abrir mais os olhos. Só precisa dar um passo para a escuridão e se entregar.
E nessa entrega você enxerga paz. A paz que vc quer, que seu coração merece. Fechar os olhos, mergulhar na escuridão.
Você pensa nas suas opções. As caixas de medicamento estão sob a cômoda. Tanto me esforcei que convenci a todos que não precisam se preocupar com isso. Podiam deixar novamente os remédios próximos a mim. Não faria nada a este respeito.
Olho para a porta do banheiro. Me trancar lá. Tomar todos os comprimidos, esperam o mundo se apagar de vez... Paz. Você só vê isso ao seu redor. Descansar das suas lutas, do esforço diário para fingir que está tudo bem. Mas se alguém notar a minha falta antes da hora, pode dar errado. Quais as minhas outras opções?
Penso na janela do banheiro. Posso passar um cinto. Presa pelo pescoço, onde tantas vezes me senti sufocada.
De repente, penso no meu filho, me vendo pendurada pela pescoço, na janela do banheiro. Penso em minha mãe desesperada, sabendo que estou presa dentro do banheiro e não respondo. Quem vai me achar? Da última vez que isso aconteceu, havia um anjo lutando por mim. Mas agora, não haveria ninguém a fazer isso.
A certeza da paz se transforma em pesadelo. Não posso permitir isso.  Não em casa. A sensação de falta de ar volta. As mãos formigam. A medida que o ar falta, o coração dispara e a cabeça roda. Você não sabe como se acalmar.
Tem que ser fora de casa, talvez no trabalho. Não consigo forças pra levantar. Preciso de uma forma de fazer acontecer.
Eles vão chorar por mim. Vão se culpar um pouco. Sentir falta talvez. Mas vai passar. Vão ver os sinais que eu vinha mostrando de não estar mais aguentando, que eles fingiram não ver.
Meu anjo talvez custe a saber. Não vai acreditar. Talvez vá se culpar.
A culpa. Desejando tirar a própria vida. Uma vida boa. Estabilizada. Uma vida cercada de realizações pessoais. Uma vida confortável. A culpa de novo. Fazer seus amores mais importantes sofrerem pra você ter paz. Culpa por cima de culpa.
O relógio chama, não descansei nada. Estou pior que antes.
Escovo os dentes. Me forço pra sair do banheiro. Visto qualquer coisa. Vou trabalhar. Não posso fingir e nem me enganar mais.
Guardo a culpa, o cansaço, o desânimo na caixinha que levo junto a mim. Fecho a caixa.
Sigo enfrente. Por mais essa eu escapei. Talvez pelas outras também,mas não posso mais arriscar, preciso de ajuda. Urgente.






sexta-feira, 24 de abril de 2020

Pai

Eu me lembro de acordar cedo aos domingos para ir à feira com você. Íamos só nós dois. Comer pastel e caldo de cana. Na época, eu não tinha dimensão do que isso significava, te ver bebendo tão cedo da manhã. Mas era a minha hora com você. A preguiça dos meus irmãos era minha aliada, ninguém queria acordar cedo aos domingos...
Você me levava para a escola. Eu acordava antes, pra estar pronta e não te dar trabalho.
Os domingos depois do almoço eram os meus momentos especiais também. Você no violão, e nós acompanhávamos cantando... La Bamba, Professorinha... Nelson Gonçalves... Essas canções ainda ecoam na minha cabeça e me levam para um tempo que a felicidade era nossa companheira.
Eu não entendia as lutas que você passava. Pra mim, a vida era tão boa, não sentia falta de nada.
Você fez um carrinho de rolimã para o mais novo. Isso foi fantástico... Você tinha a letra mais linda, adorava quando você fazia as capas dos meus trabalhos.
Você tinha orgulho de mim, eu sei disso. Ir na minha reunião de pais e mestres pra quê? Só elogios.
Você fez a árvore de natal. Um ano, arames e bolinhas de isopor pintadas de verde. Outro ano, garrafas pet. Eu nunca imaginei que aquilo era por não ter dinheiro. Porque a minha árvore era a mais especial, única. Ele fez pra mim.
Tudo você entendia. Advogado. Eu tinha tanto orgulho em dizer isso.
Uma pochete preta na cintura, dentro dela alguns trocados, seus documentos. Não tenho certeza, mas acho que você tinha fotos nossas na carteira.
Você gostava de colocar essência de eucalipto no banheiro na hora do banho. Dizia que parecia uma sauna. Eu achava tão engraçado...
Você era tão alto... lembro de você sempre assim. Grande. Bonito. Vaidoso.
Era o mais engraçado. Todos riam perto de você.
Mas seu olhar sempre teve alguma coisa de distante, de renúncia.
Falavam escondido que o seu sonho era ser arquiteto. Você desenhava tão bem. Mas foi ser advogado, porque tia e vó que pagaram sua faculdade, e elas queriam um doutor.
Nunca te vi atuar como advogado. Só uns ternos antigos no cabide deixavam uma pista sobre isso. E uma maleta bonita. Marrom. Tinha uma dessas. Coisa de doutor mesmo.
Eram tantas histórias sobre você. Mozão... era assim que você me chamava.
De repente, as coisas começaram a ficar estranhas.
A frequência que você começou a chegar alterado em casa aumentou. Eu sabia pela sua voz que você não estava bem. Mas você só chegava, falava alguma bobagem, deitava e dormia.
Um dia você não foi mais trabalhar. E nem no outro, e no outro. E eu entendi que alguma coisa errada estava acontecendo.
Ela começou a se desdobrar. Aluguel, três crianças. Não havia mais renda fixa em casa. Ela que sempre fez de tudo, agora fazia muito mais pra manter as coisas em pé.
Eu fui entendendo que você não estava bem. Passava o dia todo no sofá.
Não ajudava em nada. Às vezes nos criticava dizendo que ninguém mais ligava para o que você dizia em casa. Estava desmoralizado. Ela colocava a comida em casa, cuidava de tudo, e ainda lutava por você.
Mas ela nunca deixou transparecer nada. Acho que nunca vi vocês brigando, discutindo. Não tenho lembrança nenhuma disso.
Uma vez acordei de madrugada com o telefone tocando. Você estava de pé prontamente ao lado do móvel. Me viu, disse que era engano.
E de repente você se foi. Do nada. Não lembro direito, mas sei que ligou no natal e perguntou por nós. Ouvi alguma coisa sobre não abandonar seus filhos.
Mas ele se foi.
Simplesmente juntou suas coisas e saiu. Sem um beijo. Sem uma despedida, sem nenhuma explicação. Assim.
Sei que sua presença já nos incomodava na época. Já eramos maiores, e eu via todo o sacrifício que ela fazia, toda a humilhação que ela se sujeitava, e você inerte.
Eu não entendi nada. Dizia a todo mundo que nem tinha ligado, achava bom você ter ido.
As ligações de madrugada, depois fiquei sabendo, eram da amante ligando a cobrar pra falar com você.
A mesma pessoa. Há quase 10 anos, ou mais, não sei. O assunto sempre foi conversado nos cochichos em casa. Ela não disse uma palavra sobre você.
Nunca houve uma crítica, uma palavra de rancor.
Não sei o que passou no coração dela. Mas no meu, havia uma fingida indiferença. Eu não ligava pra o que você tinha feito.
O tempo passou. A mais velha ia se casar. Esperou por ele, não sabia se deveria ou não entrar com ele na igreja. E eu só dizia que se fosse comigo, não teria nem convidado. E ele não apareceu. Eu sabia, dizia pra mim mesma. Melhor esperar sempre o pior pra não sofrer mais.
Eu fui vencendo os degraus que surgiam à minha frente. Era uma questão de honra vencer. Eu assumi a minha família. Ajudava no que podia. Achava que a obrigação era minha, porque eu era a mais forte, a que teve melhores condições.
Mas eu sonhei com você e ela juntos. Você trabalhando, ela em casa cuidando do mais novo. Eu ia te ajudar a comprar um carro. Vocês iam me visitar nas férias. Eu ia comprar um presente pra você.
Eu fingia que não ligava, mas eu fazia por você.
Uma vez nos encontramos. Eu já estava formada. Disse isso pra você. Você perguntou se eu estava ganhando bem, eu disse o quanto, você desdenhou. Achei que você teria orgulho de mim. Continuei na minha pose de indiferença. Vida que segue.
O tempo foi passando, soube do meu novo irmão. Senti um pouco de ciúmes, mas quando fiquei inteirada da situação, quis ele pra mim. Queria cuidar dele, dar um futuro. Mas claro, só na minha cabeça. Nunca fiz um gesto pra me aproximar. Acho que por ela. Não sei.
Outro giro que a vida dá. Casada, com um filho de poucos meses, menos de um ano. A mais velha disse que ele está trabalhando em um bar... Meu Deus, que decadência. Quer ir vê-lo? Levar o neto pra ele conhecer?
Eu fui. E não sabia que seria a última vez que eu o veria. Ele pediu pra não chamar de vovô. Era "tio". Aquilo me entristeceu. Eu olhei pra ele e não o reconheci. Mal vestido, sem o seu bigode que era sua marca registrada. Olhar sofrido. Magro.
Eu não sabia que não teria outra chance. Ele adoeceu. Recebi um telefonema. Ele está internado. Quer vir vê-lo? Eu, orgulhosa, disse que não. Eu não fui. Ele morreu.
Na hora, a fingida indiferença. Eu não sabia que era tão grave assim. A mais velha ia cuidar dele. Eu não quis nem dar um telefonema. Ele morreu.
Acabou. Não tinha outro momento pra conversar e entender. Não havia mais momento pra perdoar e ser perdoada. Ele simplesmente morreu. Como ele pôde fazer isso comigo? Porque não me falaram que era tão grave. Ele se foi. Acabou. Agora, pego a minha fingida indiferença, transformo em remorso, e sigo. Eu não tinha brigado com ele. Dito que ele não podia ter me deixado. Eu não tinha falado pra ele que sabia que amor nenhum dura uma vida toda, que isso não era culpa dele. Não o amor entre homens e mulheres. Mas o amor de pai pra filha não podia acabar.
Eu não tinha chorado descontrolada gritando com ele, dizendo que eu não aceitava ele ter me deixado, eu não tinha recebido um abraço e ouvido ele dizer que foi em busca de ser feliz, mas nunca esqueceu de mim. Ele não me abraçou enquanto eu estava chorando pra me acalmar. Ele morreu.
Ele não me viu me tornar uma engenheira. Receber o diploma e a medalha de mérito estudantil. Ele não me viu crescer profissionalmente. Ele não me viu quebrar a cara e voltar pra casa sem trabalho. Ele não me viu chorar quando o amor da minha vida me deixou. Ele não me viu.
E eu não o via. Eu não enxergava nele toda a dor e sofrimento que ele carregou consigo durante anos. Eu não vi nele a desesperança de estar sem futuro. Eu não vi nele a vergonha de ser um provedor que não conseguia sustentar sua família. Eu não vi nele o homem em busca do amor.
Não consegui enxergar o quanto ele sofreu. O quanto deve ter sentido medo. Sozinho. Quantas vezes ele pensou em nós. Quantas vezes teve que beber para esquecer que nos abandonou.
Eu não vi um homem em busca de viver alguma coisa por conta própria, mesmo depois de maduro. Eu poderia ter realizado o sonho dele de ser arquiteto. Podia ter dado conselhos amorosos mais destrambelhados que a minha vida. Podia ter chorado a sua ausência. Eu não fiz isso.
Ele era lindo. Tão lindo. Inteligente. Engraçado. E eu tive dele o melhor e o pior que ele pôde me oferecer. Mas ele me fez quem eu sou. Em tantos aspectos sou como ele. Sonhadora. Desafiadora.
Seu amor preencheu a minha infância. Tanto amor... Sua ausência me tornou quem sou hoje.
Reli uma carta que ele escreveu pra nós. Eu tinha 5 anos. Senti de novo todo o amor que nos uniu. Esse amor não pode ter sumido do coração dele. E não sumiu.
Mas foi substituído talvez pelo sonho de ser feliz, e depois, quando as coisas melhorassem, um retorno aos poucos pra nos reconquistar. Mas as coisas nunca melhoraram.
Eu tenho hoje uma visão diferente do que ele viveu, e na verdade, um certo orgulho. Porque ele teve a coragem que talvez eu não tenha hoje. Ele foi corajoso demais. Foi atrás do amor que ele quis pra vida dele. Talvez um pouco tarde. Mas viveu isso.
Eu teria apoiado ele. Com certeza, teria. Porque todo mundo tem direito de amar. E viver o amor. Mesmo que por pouco tempo, e eu espero que ele tenha vivido isso. De coração.
Espero que ele tenha tido momentos de felicidade ao lado da mulher que ele sonhou pra ele. Espero que ele tenha encontrado a paz no abraço dela, mesmo que por pouco tempo.
Eu queria ter dividido esse momento com ele. O momento que ele me contaria que eu teria um irmão. Eu ia me sentir muito enciumada, mas ficaria tão feliz por ele. De ver o amor florescer em uma criança. O amor de duas pessoas que enfrentaram tanta coisa pra ficarem juntos.
Eu sinto orgulho dele. De verdade. Porque hoje sei que o amor é fundamental na nossa vida. E ele fez uma aposta grande. O nosso amor ele já tinha. E contava que um dia iríamos entender o que ele estava fazendo.
Pai, eu espero de coração que você tenha sido um pouco feliz. Isso é muito importante pra mim. Que você tenha se sentido realizado pelo menos mais uma vez na sua vida. Que tenha sentido a serenidade de repousar no abraço de quem se ama, porque essa é a melhor sensação da vida da gente.
Eu hoje entendo a sua escolha. Você escolheu o amor. E eu acho que você fez a melhor escolha da sua vida.
E de coração, Pai: me perdoa porque eu não deixei a minha braveza de lado. Eu senti demais a sua falta. Eu reclamei também por amor. Porque o amor que eu hoje espero pra minha vida é o amor que você me deu. E eu não aceito nada menos do que isso. Te amo.

domingo, 19 de abril de 2020

Ele, o Anjo - 1999


Ele. Me chamava de meu anjo. Foi amor a primeira vista, embora eu não me lembre disso. Mas foi. Não tinha como ser diferente. Corpo e alma. Em um encontro que só se vive uma vez na vida.
Angel. Vou chamá-lo assim agora. Na época não me lembro de apelidos amorosos. Era a pressa em viver.
Uma troca de olhar. Cumplicidade instantânea. Entrosamento no trabalho. Gosto de estar perto dele. O tempo todo, procuramos motivos pra isso.
Sei pouco sobre ele. Até hoje é assim. Ele sabe tudo sobre mim. Do lado brilhante ao obscuro. E mesmo assim permanece ao meu lado.
Sou boa com idades. Uns 5 anos mais velho que eu. Eu tenho 18. Ele já é casado. Pai. Apesar de tudo, a atração é inegável. Estou saindo do meu primeiro relacionamento. Primeiro em tudo. Não sei ainda lidar muito bem com as questões do coração. Nem com as do corpo. Mas reconheço a tensão sexual entre nós dois. Da pra tocar, de tão densa.
Sou atrevida. Não sei fingir que não quero. Procuro por ele sempre que posso. Sei que ele gosta da atenção. Conversamos muito. Também sou boa nisso. Gosto de falar. Ele gosta de ouvir. Parceria perfeita.
Não me lembro como ele foi parar na minha cama. Mas foi. Várias vezes. Em qualquer lugar. Qualquer mesmo.
O encontro no sexo é intenso. Deixa marcas. Não no corpo. Na alma. Ele me completa. Não sei explicar o que nos une.
Cumplicidade. Olhares durante o dia
Espera pelos momentos a sós. Meu corpo reage à presença dele, sei que ele também sente isso. Percebo. Não tem como esconder.
Mas vai além do sexo. Seu olhar no meu me mostra isso. Sensação de segurança. Conforto. No seu abraço, nada de ruim vai me acontecer.
O tempo passa. Preciso ir embora. Será que volto? Como deixar pra trás um sentimento assim.
Notícias boas. Vou voltar. Vai demorar um tempo ainda, alguns meses, mas vai acontecer.
Nesse tempo, um telefonema. Surpresa. Não havíamos nos falado até então. Uma notícia, um choque. Vai ter outro filho. Como assim? O casamento não estava por um fio?
Desligo e choro. Muito. Pela noite a fora. Sozinha. Tudo em vão. Caí no velho golpe do casamento acabado, e agora ele vai ser pai novamente. Sentimento de vergonha, por ter acreditado nisso. Achei que era amor. 
O tempo passa. Oportunidade de ir até ele. Não dá pra resistir. É inverno. Fomos até a praia. Nosso gosto por sexo em lugares públicos não passa. É surreal. De cinema. Intenso. 
Hora de ir embora de novo. Congela o tempo. Esquece os problemas.
Sempre o tempo. Melhor remédio. Voltar para o mundo real. Deixar de pensar.
De novo o tempo. Estou de volta. Cara a cara, como se o próprio tempo não passasse. Não tem como evitar. Ele está na minha cama novamente. 
Amor. Não sei bem identificar. Mas ele cuida de mim. Amor deve ser isso. Ele se preocupa. Quer que eu cuide de mim. Não entendo muito bem isso. Talvez minha aparência o incomode. Não sei.
De repente, tudo muda. Sua família, antes somente uma referência, agora está perto. Meu coração está aos pedaços. Não sei se ele sofre também. Fico ao lado de fora, escondida na sombra de uma árvore. Olho através da janela. Ele está lá com ela. Dói.
Só que não conseguimos evitar. Talvez as pessoas já tenham percebido. Nem ligo pra isso. 
Um dia como outro. Acho que um final de semana. De repente, os vejo na rua. Choque. Tristeza. Realidade. Volto pro meu lugar.
Seu filho adoece. Dias e dias sem notícias suas. Primeira vez que me senti atordoada com a sua ausência. Preocupação. Sentimento de culpa. Medo.
As coisas se acalmam. Nosso coração perto demais um do outro. Não dá pra negar. Amo. O que faço com isso? 
Um golpe duro. Demitida. Não penso em nada, a não ser na vida sem a sua presença. Desespero e desesperança. Pra onde vou? O que fazer sem meu Angel.
Os últimos dias são um pesadelo em câmera lenta. Uma despedida a cada segundo. Nossos corações sofrem. É o fim. Ele não me pede pra ficar. Eu não peço pra ele vir comigo. Nossas vidas sempre vão correr em paralelo. Não se cruzam. Caminham juntas. 
Eu vou embora. Vazia. Meu coração ficou. Perdi o rumo da vida. O sabor do amor. Vão ser anos de tristeza. Talvez se eu tivesse lutado mais.
Não sou o seu destino. Ele não é o meu. Vai ficar pra sempre no meu coração, mas não quis ficar na minha vida. Preço alto. Solidão.
Tempo. Sempre o tempo. Só ele pra me fazer superar isso. Não sei quanto tempo. Muito tempo. Talvez nem o tempo.
Vida que segue. Mas sempre vou me perguntar se poderia ter sido diferente. E se ele ainda se lembra de mim.