quarta-feira, 29 de abril de 2020

Noite

As coisas andam meio estranhas. Volto a ter dias cinzas com mais frequência. Os questionamentos sobre o que ando fazendo da vida têm tornado meus dias um castigo.
O trabalho se acumula. A falta de concentração me deixa inquieta... Ou a inquietude me tira a concentração. Não sei a resposta.
Tenho pensamentos negativos novamente. Parece um ciclo. Vão e vem quando querem. O sono está absurdo. Continuo acordando pesada, cansada.
Cansada. Virou meu mantra. Meu hino. Me sinto cansada o tempo todo. Até eu canso de dizer que estou cansada. Mas quando paro pra pensar (e penso o tempo todo) no que estou sentindo, só sinto cansaço.
Pensar e cansar de pensar. O gasto de energia está enorme. O trabalho está sufocante. Uma avalanche de problemas. As pessoas ao meu redor sem objetividade. Isso me estressa. Estou me tornando intolerante. Isso cansa.
Penso em mim. Decidi procurar o psicólogo. As consultas espaçadas com o psiquiatra não estão ajudando muito. Ele trata a causa, preciso tratar as consequências.
Autoconhecimento. Sei que preciso disso. Mas não nego, tenho medo do meu lado sombrio.
As coisas em casa, me sinto em um teatro. Encenação. Ele finge que eu estou bem, eu finjo que ele acredita. Ele está me cercando absurdamente. Se eu falo que senti vontade de alguma coisa, prontamente ele providencia. Quer me tocar o tempo todo, estar próximo. Não respiro.
As noites têm sido as piores. Eu, cansada no ponto máximo, e ele ligado no 220v. Fala o tempo todo. Quer planejar. Quer discutir a relação. Quer saber sobre meu dia. E o contato. Está virando uma luta. Aprendeu agora a falar se encostando em mim. Me seguro para não afastar.
Transamos duas vezes depois que baixei a guarda. A primeira, expectativas e frustração. Não adianta. Ele continua o mesmo. A segunda, diferente do contexto. Começou com uma dor nas costas que ele se propôs a usar o massageador para aliviar. Não tenho paciência para a dor. Nem para ele. Mas deixei.
Das costas, a massagem com o aparelho seguiu para as coxas e bumbum. Queria que eu tirasse a calcinha... sabia que ele não perderia a oportunidade. Mas não tirei. Só que não vou negar, a sensação do massageador nas áreas onde a cirurgia pegou pesado é um alívio incrível. As sessões de drenagem acabaram e o corpo sofre pra voltar ao normal. Mas a sensação é boa de verdade. Um misto de relaxamento e excitação, quando ele começa a ser mais ousado com o massageador. Ele pergunta se eu quero a massagem na barriga. Relaxo, esqueço meus bloqueios com ele e me viro.
Cubro o rosto com a toalha. Ele espalha o óleo e volta a usar o massageador. Me ligo nas sensações. Esqueço quem está ali. Ele está quieto. Nem ouço sua respiração.
Meus pensamentos vão pra outro lugar. A sensação dos olhos vendados. A expectativa. O massageador. E eu permaneço de olhos fechados.
Ele aproxima o aparelho das minhas coxas. Sobe com ele. Faz movimentos me provocando. Sei das suas intensões. Ele tira a minha calcinha. Não ofereço resistência nenhuma. Os olhos fechados, as expressões do rosto escondidas sob a toalha. A culpa começa a me rondar. Sentimento de traição. Permaneço.
Ele ousa, percebe minhas reações. O massageador agora está por áreas que não deveria estar. A sensação é extasiante. Meu corpo reage. Impossível não associar os momentos.
Estou excitada. Muito. Há tempos não me sentia assim. O corpo quente. Úmido. Não quero abrir os olhos.
Sinto vontade de me tocar. Mantenho os olhos fechados. Me toco. Sinto um prazer já conhecido. O corpo se arrepia de satisfação. De novo, meu prazer na minha mão. Ele para com a massagem. Não sei se me olha. Deve estar olhando. Não me importo.
Me concentro no meu prazer. Sinto meu coração acelerado. A respiração mais curta. Até que meu corpo se contrai. Sinto a corrente de energia passando por todas as minhas terminações nervosas. Prolongo a sensação o máximo que posso. O ápice. Relaxo. Realizada.
Abro os olhos. A realidade bruta volta. Vejo quem está do meu lado. Olhos famintos. Sinto  misto de decepção e culpa. Ele quer a parte dele. Tira a roupa. Sua falta de sei lá o que de sempre. E de repente percebo que toda a excitação se foi. O momento dele pra mim é tormento. Incômodo, tensão. Corpo não quer. Mente se sente traindo. Enfim, ele termina.
Volto ao meu mundo de pensamentos negativos. Até quando vou permitir isso? Adormeço.
De manhã, o mundo é o céu pra ele. Não sei disfarçar a sensação de coisa ruim. Me sinto suja. Esses sentimentos me dão raiva.
Todo momento ele usa pra um toque sexual. Isso é desgastante. Mas eu deixei chegar neste ponto. Não posso reclamar.
Finalmente ele se vai. Meus pensamentos que antes já estavam ruins, agora estão piores.
Eu preciso saber como conduzir isso. Ou eu permito, assumo e deixo o barco ir. Ou eu paro. Porque viver assim só torna as coisas piores.
Eu me sinto traindo. Isso está me bloqueando mais ainda. Não estou fazendo nada demais. Indo pra cama com o meu marido. Mas o envolvimento emocional que tenho com outra pessoa tem um peso enorme pra mim. Não sei mais o que fazer com relação a isso.
Preciso tocar a vida. E não vejo alternativas para a paz que eu procuro.
A culpa está sempre me perseguindo. A ausência de carinho e contato físico me assustam. E tudo, absolutamente tudo, me cansa.
Mas não posso me entregar. Não agora. Eu não posso desistir. Meu anjo não está pronto pra isso. Eu preciso achar uma forma de me manter bem até ele estar firme nas decisões que precisa tomar.
Mas esse jogo todo de esperar, escolher ficar sozinha ou continuar, me sentir sozinha, carente e sem prazer, o cansaço... Tudo isso me desnorteia.
Sigo me sentindo fazendo a coisa errada. Traindo meus sentimentos e os dele. Ou não. Pode ser mais uma invenção dos meus pensamentos para continuar me jogando na lama.
Se estou certa ou errada, não sei dizer. Só penso que não é uma coisa muito fácil de se resolver.
Deu a hora. Preciso ir trabalhar.



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