sábado, 18 de abril de 2020

Dia Zero...

O princípio:
     Coloco o endereço no GPS. Ainda não tenho certeza do que estou indo fazer. Preparei um texto caso não conseguisse falar. Me sinto idiota com o pensamento de ficar muda e entregar o papel: vai querer me internar...
     Checo o endereço mais uma vez. Como sempre, saio cedo. Atrasos me irritam e me deixam mais ansiosa. O trânsito perto do almoço está sempre um pouco mais lento. Mas é começo de janeiro, dia 02 pra ser mais exata, a cidade está de ressaca.
     Chego no prédio. Já estive ali há um tempo atrás. Uma consulta com um cirurgião plástico. Agora a história é outra. Penso mais uma vez no que estou fazendo ali... Não têm motivos. São só pensamentos bobos que eu crio quando estou chateada ou triste. Lembro da cena da faca. Realmente tenho que ir.
     Recepção, elevador, chego na porta. Penso mais uma vez no que vim fazer ali. Não preciso disso, é só cansaço. Olho o celular. Ele está me perguntando se já cheguei. Prometi pra ele que ia. Não posso voltar atrás.
     Entro. Uma sala, três portas. A secretária está com as mãos sujas de tinta. Sorri educada. Faço minha ficha. Ela pede que eu aguarde. O coração já está saindo pela boca.
     Sento em uma cadeira. Não consigo absorver as coisas ao meu redor. Penso mais uma vez em me levantar e ir embora. De novo o celular. Ele está perguntando se eu estou bem. A vontade de chorar aumenta. Não consigo ficar ali. Digo a ele que vou embora. Ele me pergunta se estou mesmo no consultório. Tiro uma foto discreta com o celular e envio. Nome do médico escrito na parede. Só agora reparo como o nome dele é estranho. Deve ser um velho. Vai com certeza achar que sou louca.
     Mal respiro pra evitar chorar. Vou embora. Ele, no celular, me pergunta que roupa estou usando. Pra que ele quer saber isso? Eu me olho, a roupa de sempre: calça jeans, blusa preta, uma sapatilha, a bolsa no colo, como um escudo.
     Vou responder, mas a porta se abre. Meu coração congela. Agora vou fugir. Um homem com  seus quase quarenta anos sai. Feição boa, não estava com cara de sofrido. Tem umas caixas de remédio na mão... Não quero tomar remédio, isso é pra desequilibrados... Um homem jovem, talvez mais jovem do que eu me olha e sorri. Acena com a cabeça e fecha a porta.
     Ainda tenho uma chance. Olho pra secretaria, ela continua tentando limpar os dedos sujos de tinta. Acho que ela vai perceber se eu sair. Vai ter certeza que sou louca, afinal, já paguei a consulta.
     O celular vibra dentro da bolsa. Evito olhar. Ele, com certeza, quer saber se estou bem. Penso em levantar. A porta se abre novamente: Storm?



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