quinta-feira, 18 de junho de 2020

Depois do fundo do poço




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Há algum tempo penso em escrever sobre isso. Mas ainda não tinha reunido coragem. São memórias dolorosamente recentes. Ainda não sei lidar muito bem com toda essa história.
Vou voltar um tempo. O necessário para que eu mesma entenda como foi que eu cheguei ao fundo do poço.
Novembro. Não tenho certeza se no começo ou no fim. Ano passado. Um dia qualquer, uma mensagem no celular. Um amigo antigo. Colegas de profissão. Ele, bem posicionado, empresa grande, cargo de destaque. Eu, gerente em uma indústria pequena em um estado pequeno, sem expressão. Uma proposta de emprego. Na verdade, a segunda da mesma empresa. Dessa vez, um cargo de supervisão. Meu coração dispara. A proposta da minha vida, de novo em minha porta.
A proposta de salário me deixa constrangida. Nem tenho coragem de falar quanto ganho atualmente. O dobro. Em um cargo de grandes responsabilidades. Outro estado, tudo novo.
Primeiro pensamento é falar com ele. Passou a ser a minha primeira opção para tudo. Sempre dá atenção às coisas que eu falo. Sempre tem tempo para mim. Nunca me deixa falando sozinha. Enfim, divido com ele.
Ouço suas ideias. Divido meus medos. Trocamos ideias sobre como proceder. Vou deixar a conversa fluir. Avaliar tudo. Afinal, é deixar para trás uma vida que comecei a construir nessa cidade. Por um momento, esqueço de tudo. Só penso na oportunidade de ter um emprego em uma empresa grande. Vinte anos na área e nunca tive essa oportunidade.
Passo a visualizar a possibilidade de sair de casa. A princípio, iria só. Será que a família concordaria? Filho na escola. Marido com carreira consolidada... Mas era a minha chance profissional. Não escondo a animação. Talvez a chance de sair deste relacionamento com classe. Iria, o tempo passaria, longe um do outro, as coisas poderiam acabar por si só. Seria um alívio.
Mas volto para realidade. Penso na minha cirurgia. Fevereiro. Abrir mão disso, sem previsão para nova data. Começar do zero. É o preço.
Preciso falar em casa. Adio o máximo que posso. Sei que não vai ser uma conversa fácil. Mas preciso falar. Falo.
Um balde de água fria é um eufemismo leve demais. Fui jogada de volta à realidade sem nenhuma gentileza, com ênfase na decisão: “Eu não vou nunca. Não sei porque você iria. Só pelo dinheiro, não precisa. Estamos bem aqui.” Foi um choque, apesar que se eu tivesse pensado mais um pouco, não esperaria nada diferente.
Deixou claro sua posição. Mesmo propondo um tempo para me adaptar, para ele avaliar a área em relação à sua experiência profissional. Nada o demoveu. Eu não tive forças para lutar.
Afundei em tristeza. Não sabia nem o que responder para a proposta. Eu estava, definitivamente, fechando uma porta importante na minha vida.
A partir daí, os dias perderam mais ainda o seu encanto. Ele, que tanto tinha me incentivado a ir, ficou decepcionado por eu não lutar, não insistir. Eu não tive forças. Escapou entre meus dedos a oportunidade que busquei a vida toda.
Outro dia, e mais outro, e os dias vão se passando. Tudo cinza. Negro. A tristeza sobre meu coração já não me perturba mais. Estou inerte. Não sinto mais.
Vivo no automático. Até que em outro capricho do destino, recebo uma proposta para um mestrado. Uma orientação de peso, em um programa inovador. Não me interesso. Já foi algo que busquei em outros tempos. Hoje, não me faz mais brilhar os olhos. Mais uns dias, e a proposta ressurge. O edital está aberto. Participe. Gostaria de trabalhar com você.
Eu deixo os dias passarem. Não tenho vontade de me mover.
É véspera do nosso aniversário de casamento. Não penso em nada com relação a isso. A dor da decepção ainda pulsa na minha cabeça. Cada dia mais calada, mais introspectiva dentro de casa.
Sexta-feira. Vejo conversas e risos dissimulados em casa. Não gosto dessa sensação. Ele está preparando alguma coisa para a data. Na hora do almoço pergunta se eu iria para um lugar sem saber onde seria. A tristeza chega de vez. Não tenho coragem de dizer que não.
A animação dele é uma afronta para mim. Não sei se não percebe meu olhar triste, ou se simplesmente não se importa. Ele arruma minha mala. Não tenho ideia para onde quer me levar.
Sábado. Ele me acorda cedo. Nem vai trabalhar. Café da manhã na padaria. Ele faz o roteiro todo para me agradar. Pegamos a estrada. Ainda nem sei para onde estamos indo.
Não consigo interagir. A vontade de chorar a todo instante vem. Por fim, ele revela. Meu Deus... que lugar longe. Realmente, há algum tempo eu já havia falado sobre o local, mas não agora. Não com esse clima. Não com esse humor.
Enfim, chegamos. O clima frio combina com o meu estado. Tento fazer de tudo para retribuir o momento. Tudo é forçado em mim.
Tento não manter o contato com ele. Me proponho a ter um final de semana de dedicação ao meu relacionamento. Mas o esforço só me deixa mais triste ainda.
Falo com o amigo da proposta. Finalmente tenho coragem de dizer que não vou. Ele me ouve, entende por um lado meus argumentos. Eu choro sozinha no banheiro. Realmente, não tem jeito.
Não resisto, falo com ele um pouco. Sinto como se estivesse ganhando um prêmio de consolação por não ter aceitado o emprego. A sensação é de traição, porque todos se envolveram nos planos dele. Fiquei muito triste. Mais do que já estava.
Passeamos, conhecemos a cidade. Meu coração gelado como um iceberg. Mas sou boa em fingir. Só não consigo fingir a parte da cama. A falta de envolvimento, de entrega, de prazer. Acho que ele nota, não sei. Parece não se importar. Tortura.
Chega a hora, vamos embora, finalmente. Converso um pouco com ele. Está com ciúmes, mal nos falamos. Eu sinto sua falta. Às vezes o culpo pelo que estou passando. Como se ele pudesse me tirar deste abismo.
Em casa. Aliviada. Passou. Converso com ele. Abro meu coração, conto a frustração da viagem, a falta de ânimo, a saudade.
Chega a segunda. De fato, o aniversário do casamento. Detesto a data. Recordo como foi nosso casamento. Frio. Sem brilho. Totalmente diferente do que eu poderia ter feito. Ele me podou as asas, não permitiu nada além do que uma comemoração simples no quintal da sogra. Nada como poderia ter sido. Não gosto de comemorar.
É o último dia de inscrição para a prova do mestrado. Ele se propõe a me ajudar. Depois, saímos para comemorar as bodas. Estou exausta, mas aceito. Não vou desistir sem tentar.
O processo de envio dos documentos é chato. Por quê mesmo estou fazendo isso? Enfim, terminamos.
Vamos para o nosso restaurante preferido (dele). Ele traz a mochila junto. Diz que meu presente está lá. Discutimos o cardápio, pedidos alguma coisa que não me recordo. Ele começou a falar.
Falou do começo do nosso relacionamento, como as coisas mudaram desde então. Elogiou as mudanças, disse das nossas aventuras, eu ouvindo e participando com algumas observações. Ele continuou a falar, e de repente, mudou o semblante. Meu coração gelou no peito. Conheço aquela expressão. Ele vai começar a falar sobre coisas que tenho certeza que não vou gostar.
O jantar chega e fica à nossa frente. Ele está com raiva. Olha para mim com olhos duros. Me chama de coisas que não consigo colocar no papel. Diz que eu traí novamente a dedicação e o seu amor. Continuo com as conversas pelo telefone com o outro. Leu nossas ultimas conversas. Meu sangue congela. Fala detalhes dos diálogos. Me ofende. As lágrimas escorrem no meu rosto. Diz coisas pesadas. Que enquanto ele preparava um final de semana maravilhoso para nós dois, eu falava mal dele pelas costas, com uma pessoa que ele já tinha deixado claro que só fazia prejudicar nosso casamento.
Eu imploro para ele parar. Estou chorando e os garçons me olham de canto de olho. Eu só quero ir embora. Ele insiste. Fala mais. Como sou leviana. Como não deixo de viver esse romance paralelo em prol do nosso casamento. Usa de tudo. Diz que eu me humilho e imploro pelo amor de uma pessoa que não me ama. Que me ofereço, que rastejo, que ele tem pena de mim. Que eu não sei reconhecer que o outro não quer nada comigo, só tem pena de mim.
O fundo do poço. Já tinha chegado perto, mas nunca assim. O fundo do poço é sufocante. Você olha para cima e não vê a luz. A água do fundo do poço é gelada e dói em nossos ossos. O espaço é pequeno, e você não consegue se mexer, mal consegue respirar. O fundo do posso é o pior lugar para se estar. E eu estava lá.
Pede a conta e que embrulhem a comida. Quer selar a minha humilhação me fazendo chegar em casa com todo o jantar. No caminho de casa, nem uma palavra. Fecho os olhos e tento me acalmar.
A sordidez de me tirar de casa, me levar para jantar, mesmo tendo lido minhas conversas. Feito eu me arrumar. Levado o presente, que aliás, nem me entregou. Humilhada.
Eu não sei mais o que dizer. Peço desculpas novamente. Milésima vez. Penso em acabar com tudo aquilo. Não aguento mais. Sou fraca, me culpo. Ele está coberto de razão. Sou sem moral, me envolvo com uma pessoa além do meu relacionamento. Além de tudo, uma pessoa que não me quer. Toda a culpa, toda a dor. Eu sou a razão do meu próprio sofrimento. Acabo com tudo isso e pronto. Eu só quero morrer.
Os dias vão passando. Ele se acalma, procura por sexo. Cedo, pela milésima vez. Vai fazer ele se esquecer por um tempo dos problemas. Sinto como se fosse um estupro. Meu corpo invadido sem amor. Usada para a sua satisfação. Morro um pouco mais.
Um dia, almoço, uma conversa pela internet. Voltam as cobranças. Outra conversa lida. Não entendo como ele tem acesso a isso. Vigilância. Sinto como se fosse uma prisioneira. Eu não sei mais chorar. Estou anestesiada. Ele fala, argumenta que eu preciso dar uma oportunidade para o nosso casamento sem a sombra da terceira pessoa entre nós. Dentro de mim, só gelo. Ouço e não me importo mais. Digo que não. Que não quero mais insistir.
Ele se assusta. Diz que quer voltar a conversar em casa. Eu digo que não quero mais falar sobre nada.
Em casa. Ele retoma o assunto. Eu insisto que não quero mais falar sobre nada. Ele insiste. Eu peço para parar. Ele não para. Joga pela milésima vez sobre mim as minhas traições, minha dedicação a outra pessoa. Que eu rastejo e me humilho por quem não está nem ai para mim. Ele pega mais pesado ainda. Pergunta se não me sinto mal com Deus por estar insistindo em acabar com o casamento de outra mulher. Se não penso nos filhos dele. Mas ainda sim diz que ele não me quer. Que tem pena de mim.
O fundo do poço ainda era mais embaixo. Iludida, eu achei que não poderia piorar. Mas sim, havia mais a cavar, mais a me soterrar. Se antes a água me envolvia, no fundo do poço mesmo, havia lama. Pegajosa, que me envolvia os braços e as pernas e me impedia de me mexer. No fundo do poço, com lama até o pescoço, sem conseguir respirar. Para a morte, não faltava mais nada.
Eu reajo. Estou exausta da humilhação. Do cansaço, da invasão. Estou morta por dentro. Eu digo que basta. Que não quero mais. Digo que não quero mais me desculpar, prometer me afastar do outro e não cumprir. Não quero mais ser acusada e carregar as culpas do mundo sobre mim. Não quero mais vender minha dignidade em busca de paz. Chega. É o fim.
Mais uma vez ele se surpreende. Muda o tom. Pergunta se é isso mesmo. Eu digo que sim. Insisto. Ele desconversa. Diz que devemos esfriar a cabeça e conversar depois. Eu não quero mais.
Estou no início do tratamento com o psiquiatra. Meu mundo desaba. Estou me adaptando aos remédios, me livrando da vontade de morrer. Tudo desmorona ao meu redor.
Ele não quer perder. Envolve nosso filho. Passa a sair com ele constantemente. De repente, está usando isso contra mim. Fala que o menino está decepcionado comigo, que sabe do outro, leu coisas no meu telefone. Eu fico sem reação. Eu o culpo de envolver a criança nos nossos assuntos. Nessa altura, a família inteira já sabe. Saio do nosso quarto. Sinto um pouco de paz.
O clima em casa piora assustadoramente. Resolvo que vamos falar com o filho sobre a separação. Ainda não era o fundo do poço. Estou novamente enganada. Havia mais depois da lama. E eu agora, estou coberta dos pés à cabeça. Meu filho me olha com rancor. Quase ódio. Seu corpo se sacode ao me acusar de destruir a família. A lama está por toda parte. Dentro da minha boca, no meu nariz. Já não consigo ver nada. Ele fica calado enquanto eu me justifico. Saboreia a minha dor em tentar me explicar. Ele está por cima na situação. Meu coração não bate mais. Ele me atingiu no único lugar que meu coração não suportaria. Meu filho, agora, tem raiva de mim.
Inferno. Depois da lama, havia a lava. Meu corpo queima no castigo que eu mesma escolhi viver. A culpa de todos os males da humanidade cai sobre mim ao ver meu filho chorar. Culpa minha. Toda minha. Leviana, imoral, traidora. Estou fazendo todos ao meu redor sofrer.
Eu não posso com isso. Estou sozinha e envergonhada. Do outro lado do telefone, ele tenta me ajudar. Está indignado pelo envolvimento do filho. Eu estou cega de dor. Toda a culpa do mundo sobre mim. Os momentos a mais com ele passam a me gerar vergonha. Agora que durmo sozinha, posso falar com ele até cansar. Mas a culpa me traz sentimentos conflitantes. Eu estou fazendo todos sofrerem para poder ter minutos a mais com ele. Vadia. Sou definitivamente uma vadia.
Tenho um retorno com o psiquiatra. Conto a ele a minha decisão. Ele é enfático. Não posso fazer isso neste momento. Ele me empurra mais ainda para a lama do poço. Achei que embora não fosse o momento, ele não iria se opor veementemente a isso. Mas ele não sabe do todo. Da história toda, que eu sou uma mulher sem caráter, que se envolveu com um homem casado e que cultiva esse relacionamento em detrimento do meu próprio casamento. Ele não sabe. Não tenho coragem de contar. Ele é enfático. Desmanche isso. Volte atrás. Use os argumentos que achar necessário, use até o parecer dele próprio. Eu não posso passar por um processo de divórcio nessas condições psicológicas.
Abaixo da lava do fundo do poço ainda podia existir mais coisas. Morta. Castigada na própria representação do inferno que a minha vida se tornou.
Recuo. Peço perdão, digo que não é o momento. Ele já estava ameaçando ir embora para outra cidade. Se mudar. Deixar nosso filho. Me deixar viver o que eu quisesse.
Dez passos para trás. Risco do coração os últimos traços de esperança. Falo com ele, um golpe. Ele não consegue esconder a decepção. Fez planos para essa nova era. Desmanchei tudo. Não sirvo para ser feliz. Não mereço. Sou suja. Faço todos ao meu redor sofrer. Eu devia terminar com isso e tomar logo todos os remédios que tenho em casa.
Mas o castigo seria pouco. Meu castigo é viver.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Dia de hoje

Mal consigo falar hoje. Ele está insuportavelmente ao meu lado o dia todo, o tempo todo. Não para de falar um minuto. Minha cabeça não aguenta mais.
Eu sei, a TPM potencializa muito as coisas, mas realmente estou cansada até da voz dele.

Eu vivo em dois mundo diferentes. Em um mundo é isso. Momentos bons em família, coisa que há tempos eu não sentia. Estou mais relaxada. Não preciso fazer tanta força para interagir. Mas tem momentos que eu só queria ficar sozinha. Nesse mundo, sou mãe. Dona de casa. Esposa. Trabalho fora também. Tenho muitas responsabilidades no trabalho. Tomo remédio controlado pra dormir e pra acordar. É uma vida mediana. Tenho bons momentos de laser, embora eventuais. Uma vida confortável. É isso.
No outro mundo que eu vivo, sou só eu e o amor da minha vida. Nesse mundo, apesar de ser mãe, não tenho a presença constante do filho. Não sou dona de casa. Acordamos e dormimos em hotéis, café da manhã sempre pronto. Na volta do passeio, nossa cama já está arrumada.
Nesse mundo diferente, sou outra pessoa. Ou a mesma pessoa que já fui. Não sei ao certo.
Sou mulher. Só mulher. Tenho desejos. Desejos de amor. Também tenho desejo de viver. No meu mundo encantado, estou sempre viajando, passeando. Toda noite temos que decidir onde ir. Barzinho, sair pra dançar. Só jantar. Pedir uma comida no quarto mesmo.
No primeiro mundo, tenho a satisfação pelo trabalho. Crescimento, reconhecimento. O sabor da conquista pelo meu próprio esforço. No outro mundo, o trabalho não existe. É sempre feriado, férias...
O primeiro mundo eu preciso todos os dias acordar bem cedo. Decidir, o dia todo tomando decisões precisas. Não posso errar.
Ah... Na outra vida a gente erra. Erra o caminho no GPS, erra na escolha do jantar, mas são erros sem gravidade, que vão somente nos fazer rir ou se aborrecer um pouco.
O agora só existe no mundo do começo. Nesse mundo, as coisas são vividas dia após dia. Não há muito espaço pra devaneios. É pressão, repressão, depressão.
No mundo do depois, tudo é leve. As cobranças mais parecem gestos de amor.
Sou eu no segundo mundo. Riso solto, sentimento de juventude, da arte feita escondida. No depois, tudo é sem pressa. Menos a vontade de estar juntos. Essa, é urgente, pra ontem.
No mundo de verdade, finjo. Suporto. Mas é onde estão meus pés. Sólidos no chão. Tudo medido, tudo controlado. Hora pra dormir, hora pra acordar. Hora de fingir. Hora de ignorar.
Já o mundo paralelo, não existem relógios. O mundo muda de cor quando sou capaz de vê-lo depois de algum tempo. O tempo vibra. Respiramos o mesmo ar. Corações no mesmo ritmo.
Mas o primeiro mundo é o real. Onde eu precisei algemar meus pés. Não tenho como fugir. É onde eu desempenho os papéis que a sociedade espera de mim. Foi onde eu disse o "sim" e aceitei o que viria. Mesmo sem saber o que seria.
No outro mundo, só momentos para se relembrar a vida inteira. Fotos guardadas pra poder acreditar que é tudo verdade. Mas não há o amanhã. Não há planos. Não há chegadas programadas.
Um mundo sabe do outro. Isso me incomoda. Porque cada mundo tenta me fazer entender que devo ficar nesse ou naquela mundo.
Cada dono de um mundo tenta me provar que o outro mundo não tem futuro.
E eu, fico no meio desses dois mundos: um aonde eu encontro segurança, família e conceitos. E no outro, onde sou feliz de verdade.

Um mundo, dois mundos, três pessoas, muitas questões.
Agora chega
Estou cansada de estar cansada.
Vou dormir e ir para o meu mundo paralelo. E buscar ficar mais tempo neste mundo onde posso ser eu mesma. Mesmo que depois eu me troque, tire a máscara e a volte ao mundo real. Mas enquanto eu puder, vou viver isso que eu tenho, pq antes dois mundos do que nenhum...

Muito sono hoje.
Cansada
Pressão grande na Clan.
E ele sem parar de falar um minuto
Mas segue a vida.
Amanhã nos falamos mais

Bjos





sexta-feira, 29 de maio de 2020

Expectativas

Perdi o sono essa noite. Nada de anormal. Fiquei pensando na vida. E imaginei uma vida diferente.

Quarta-feira, por volta das 10 horas da manhã. Estou há quase 10 dias fora de casa. Visitando alguns clientes. Reuniões. Quatro, cinco hotéis diferentes. Almoçando e jantando em restaurantes. Saudade de casa. Último cliente do dia. Conversamos sobre novos projetos. Agendamos um teste para a próxima visita, mês que vem. A mala já está no carro. Cento e cinquenta quilômetros de casa. Se eu sair agora, antes das 13 horas estou em casa.
Penso se vou almoçar no caminho ou seguir direto. O café da manhã foi bem cedo, depois de uma corrida de 5 km que eu faço todos os dias quando estou fora de casa. Já está na hora da fome. Talvez eu pare no caminho.
Pego a estrada. Começo a pensar nas coisas para resolver. Passar na lavanderia. Deixar as roupas da viagem, buscar as últimas que deixei pra lavar. O tempo esfriou, vou levar o edredom pra lavar também. Mercado. Cerveja sem álcool, pipoca... Pensar em alguma coisa para o almoço de sexta. São os melhores dias do mês... Pensar em quais coisas vou fazer, algum agrado.
O carro anda rápido na estrada. Trânsito tranquilo. A fome vai apertando. Faltam 50 km e já são mais de onze horas. Melhor parar. Muito tempo sem comer.
Para em um posto de gasolina que tem um restaurante. Cansada de comer fora de casa, querendo uma comida caseira. Sempre lembro do almoço no passeio para a caverna, há alguns anos atrás... Uma das refeições mais saborosas que já comi fora de casa. Sorrio sozinha relembrando este passeio. Nosso segundo encontro. Tanta coisa aconteceu desde lá.
O buffet está posto. Nada me chama a atenção. Um pouco de carne, uma salada. Tenho pressa em voltar pra casa.
Estou novamente na estrada. O pior pedaço da viagem. Atravessar a cidade até chegar em casa. Trânsito do horário do almoço.
Enfim, contorno o quarteirão e entro com o carro na garagem. Moro em um condomínio de apartamentos, bairro residencial. Torres altas, apartamentos pequenos mas confortáveis. Ainda é alugado. Estamos nos organizando para comprar um imóvel nosso.
Subo pelas escadas. Nunca tenho paciência para o elevador. A mala parece mais pesada que o costume. Cansaço.
Procuro as chaves na bolsa, já na porta de casa. Sempre brigamos por conta disso. A bolsa enorme, mil coisas espalhadas. Sempre custo a achar...
Finalmente, acho a chave. Mando uma mensagem pra ele dizendo que cheguei. Pelo horário, ele deve estar descansando. Daqui a pouco visualiza.
O apartamento é pequeno. Tem uma cozinha projetada, preta e cinza. Fogão sobre a bancada, forno e micro-ondas sobre o armário. Geladeira grande. Um balcão com bancos altos. Ao fundo, uma pequena área de serviço separada por uma porta de vidro. Máquina de lavar, secadora, um varal de teto.
A sala é razoavelmente grande. Um sofá reclinável grande, cinza. TV na parede, nada de rack. Decidimos não investir muito em móveis já que pretendemos nos mudar para um lugar definitivo, nosso. Uma mesa redonda com 4 cadeiras, que serve tanto como mesa de jantar, quanto de escritório quando estou em home office.
O apartamento cheira a limpeza. Sempre programo uma faxina para a véspera da minha chegada, deixo uma chave extra com a empresa e pronto. No começo fiquei receosa de ter uma pessoa estranha em casa na nossa ausência, mas serviços domésticos nunca foram meu forte. Ele sabe disso, também acha que eu não preciso me matar lavando um banheiro. Nosso tempo juntos é muito precioso. Nada de tarefas enfadonhas.
Sempre abro a geladeira quando chego. Receio de alguma coisa ter dado errada na minha ausência. Alguma falta de energia, algum problema na geladeira... Checo e está tudo ok.
Entro checando os outros cômodos. O apartamento, embora não seja muito grande, tem três quartos e dois banheiros, sendo um privativo do nosso quarto.
Um dos quartos tem as coisas do meu filho, que estuda em outra cidade. Vem em casa uma vez por mês, e eu vou visitá-lo também uma vez por mês. As coisas da minha mãe também estão neste quarto. Atualmente ela se divide entre a minha casa e a casa dos meus irmãos. Está no paraíso por estar perto de todos depois de tanto tempo.
O outro quarto é dos filhos dele. Eventualmente algum deles vem passar o final de semana conosco. Ou quando precisam resolver alguma coisa na cidade. O mais velho tem a chave. Mesmo quando não estamos em casa, se ele precisa, ele vem.
E o nosso quarto. Nosso lugar preferido. No começo, uma discussão sobre a TV. Eu não queria uma no quarto, mas ele insistiu. Acho que tira o foco do casal, mas acabou que passamos a assistir filmes e séries juntos, aproveitando todos os momentos possíveis.
Tomo um banho pra me livrar do cansaço da viagem. Ainda tenho muito o que fazer. Saio do banheiro enrolada na toalha.
Checo os e-mails pelo celular. Nada de urgente. Olho nossa conversa, ele ainda não acordou. Logo vê.
Separo as roupas sujas da mala. Levo as minhas hoje, e na sexta, quando for buscar, deixo as dele.
Ele responde minha mensagem. Sorrio sozinha de novo... A véspera da sua chegada sempre é muito difícil pra mim. Misto de alegria com o retorno, preocupação com os deslocamentos. Afasto os pensamentos negativos. Ele está me ligando por uma vídeo chamada.
Nos vemos. Todos os dias neste horário temos essa chamada de vídeo. Faço sempre de tudo pra não deixar de acontecer. Nem que seja breve, só um aceno e um beijo. Mas é nosso trato: todos os dias, pelo menos uma vez, a gente se ver. Há anos cultivamos isso.
Ele sorri ao me ver. Meu coração se enche de alegria. Tem sido assim há muito tempo, e a sensação de felicidade nunca muda.
Ele fala um pouco sobre seu dia, eu falo da viagem. Ele confirma o desembarque amanhã, e eu fico de enviar o voucher da passagem. Eu faço as compras das passagens dele para embarque e desembarque e embora no dia de ir eu sempre envie os arquivos para ele, ele nunca acha quando precisa. Já estou acostumada.
Ele repara que estou só de toalha. Pede pra me ver. Está sozinho no camarote. Eu apoio o celular sobre a cama, ajusto a câmera para que eu fique visível. Me sento de frente para o telefone. Ele gosta quando eu faço isso. Estou com saudades dele, faz duas semanas desde a última noite juntos. Essa brincadeira já me excita.
Ele diz que vai tomar um banho. É sempre nosso momento. Ele vai para o banheiro. Eu estou aguardando por ele pacientemente. Sei que vamos ter momentos gostosos.
Ele liga novamente a câmera. Agora é a vez dele dar as ordens. Pede que eu tire a toalha que envolve meu corpo. Sabe que estou nua por baixo dela. Ele se excita ao me ver. Meu corpo reage mais ainda. Pede que eu afaste os cabelos, quer ver meus seios... Toco levemente com as mãos meus mamilos. Ele se toca também. São momentos assim que nos mantém com tesão um no outro. A provocação, o desejo de ver e tocar o outro, a saudade. Ele fala coisas que eu gosto de ouvir. Sabe o quanto isso me excita. Passo a me tocar com mais intensidade, em outras partes do meu corpo.
Estou com saudades do seu toque em mim. Enquanto ele fala o que pretende fazer quando nos encontrarmos, eu imagino nossos corpos juntos. É muito forte a ligação que temos, principalmente na cama. Perto ou longe.
A brincadeira esquenta. Sempre demoro um pouco mais pra me satisfazer. Ele sabe disso. É paciente e dedicado, mesmo que virtualmente. Me conduz ao meu prazer. Me observa enquanto atinjo o ápice. Sorri satisfeito. Agora se dedica ao próprio prazer. E eu que observo. A saudade é grande. Mas amanhã logo chega.
Hora de voltar ao trabalho. Ele toma um banho pra acalmar o corpo. Deixa o telefone posicionado de forma que eu posso continuar a vê-lo. Termina o banho. Nos despedimos com beijos virtuais. Menos de  30 horas e vamos estar juntos novamente. Daqui a pouco nos falamos mais.
Volto para o chuveiro. Leve. Essa rotina do carinho virtual nos faz bem. Termino o banho e agora me visto. Vamos aos afazeres.

Amanhã eu continuo!










segunda-feira, 25 de maio de 2020

Porque ele.

Vou tentar explicar.
Talvez seja a forma como ele cuida de mim. Sua preocupação em saber se cheguei
 Em pedir que eu não demore, não volte tarde. Seu zelo quando demonstro minhas inseguranças e fraquezas. Talvez seja ciúme, que ele não faz questão nenhuma de disfarçar.
Ou sua voz. Seu jeito de pronunciar as palavras, de construir as frases. Concordância verbal é sexy, não tenho dúvidas...
Mas às vezes acho que é a forma que me olha. O brilho no olhar quando nos encontramos. O olhar alegre, na gratidão do encontro, na certeza de momentos bons.
Em outros momentos, acho que é a forma que me mantém ao seu lado quando estamos juntos. Sempre a procura do meu olhar, de mãos dadas, corpos próximos, beijos roubados, carinhos discretos e sinceros.
Penso também que me encanta a forma como quer me entender. Como tenta me ajudar. Como descontrói meus medos. Reforça minha auto estima, como impõe que eu me valorize.
Mas sei que a forma como me toca faz meu mundo girar diferente. O contato simples do primeiro momento, mãos dadas apertadamente, para demonstrar para o outro que aquele momento é real. Depois o beijo. O primeiro depois de longo tempo. Esse primeiro beijo, o beijo do reencontro, tem o sabor da saudade. A pressa do amor guardado por meses. É um beijo rápido, muitas vezes ainda no meio das pessoas, um saguão de aeroporto qualquer.
No caminho pra algum lugar, as declarações de saudade cercadas de amor. Mãos dadas, como se pudessem manter o tempo congelado naquele momento. É tanta alegria que é possível ouvir nossos corações pularem. Outro beijo, e mais outro. Nossos corpos se reconhecendo no reencontro.
Tudo vibra, tudo pulsa ao seu lado. Meu corpo foi feito na medida para o seu.
Chegamos em algum lugar. Qualquer lugar. Porque o lugar não importa. Uma porta se fecha atrás de nós. É o momento onde sabemos que agora o mundo é nosso. Só eu e ele.
O beijo. Aquele guardado mesmo. Com pressa da boca do outro. Agora sem plateia. Sem medo. Sem olhares ao redor. E sem pressa. A pressa é pelo outro. Estar perto, estar junto, estar.
O beijo. Não sei explicar. Duas bocas unidas como se nunca tivessem estado longe uma da outra. Seu gosto nos meus lábios é tão familiar. A sua respiração junto da minha. Seu coração no compasso do meu. Eu e você, como se fosse assim desde a eternidade.
A sua boca procura pela minha com pressa. Você quer meu gosto em você. Sua língua invadindo, seus lábios nos meus, você me mordendo, sugando minha boca para completar a sua. Juntos, lábios, língua, respiração. Temos pressa em voltar a sermos um só.
Não há tempo pra nada. Seu corpo reage com força ao meu. Te sinto através de nossas roupas. Excitado, quente, rígido contra minhas coxas.
Suas mãos nos meus cabelos, entrelaçando, me puxando pra mais perto, pra dentro do seu beijo.
Uma mão está na minha nuca, firme, dominando os movimentos do nosso beijo. Mantendo minha boca na sua. A outra mão, maliciosa, quer redescobrir cada centímetro do meu corpo. Pescoço, ombros, seios. Com pressa. Com violência, firmeza. Suas coxas pressionam as minhas. Estamos em pé, você me mantém presa contra a parede.
Sempre me visto para esses reencontros pensando em você. Uma saia. Um vestido. Gosto de ver sua reação ao me ver vestida assim. E penso sempre no momento que vamos fechar a porta.
Sua mão agora desce pelo meu abdômen. Para na minha cintura. Aperta, pressiona. Insinua sua perna entre as minhas pernas, forçando-as a se separarem. Sobe a coxa entre as minhas. Empurra seu corpo contra o meu. Quer que eu sinta como está excitado. Te sinto.
Segura meu quadril e me vira de costas pra você. Levanta minhas mãos acima da minha cabeça. Prende meus pulsos com sua mão. A outra mão está livre. Desce pelas minhas costas, me aperta a cintura, desce e me aperta o bumbum. Me empurra contra a parede com o peso do seu corpo. Solta minhas mãos e agora está com a mão no meu rosto, me forçando a virar para poder me beijar mais e mais.
Puxa pelos cabelos. Deixa a nuca livre e me beija o pescoço. Eu já não sei gemer baixo. Esqueço se pode haver alguém por perto.
Agora está com as duas mãos na minha cintura... Força o meu corpo contra seu próprio corpo. Movimenta seus quadris pra eu sentir mais uma vez sua ereção. Meu corpo está tenso de desejo.
Sua mão sai da minha cintura e se insinua sobre a renda da minha calcinha. Ele me sente úmida e quente, mesmo ainda sem me tocar sobre a pele. Tem pressa. A sua mão agora está dentro da minha calcinha. Agora ele tem a dimensão da minha excitação. Seus dedos deslizam sobre toda a umidade que meu corpo produz de tanto tesão. Sinto seus dedos me tocarem com precisão. Me faz gemer mais ainda. Não quer só tocar. Quer sentir meu gosto. Quer que eu sinta meu próprio sabor. Seus dedos, que antes passeavam em mim, agora estão na minha boca. Passo a língua para sentir meu gosto nele.
Ele pressiona mais e mais o corpo no meu. Volta a mão pra dentro da minha calcinha. Estou cada vez mais quente, mais molhada. Ele agora desabotoa a própria calça. Meu corpo vibra de ansiedade.
Rapidamente se livra do calçado, tira a calça, tudo isso me mantendo presa à parede. Agora ele tira minha calcinha. Enquanto desce a peça pelas minhas pernas, beija barriga, coxas, bumbum.. continuo de costas, como se estivesse presa em um castigo quente e excitante.
Agora, sinto seu calor diretamente na minha pele. Quente, rígido... Seu corpo quer o meu com urgência. Ele curva meu corpo pra frente. Meu corpo dói na expectativa do prazer. Se posiciona me segurando pelos quadris. Sua respiração rápida se confunde com a minha. Meu corpo implora pelo dele. De tanta excitação, sinto meu corpo tenso.
Seu sexo pulsa de ansiedade entre minhas pernas. Uma mão me mantém firme pela cintura. A outra agora guia seu corpo para dentro do meu. Impiedoso, se joga em mim. Sem pensar. Apenas instinto. Um segundo, talvez mais, e somos um só.
Parado, dentro de mim. Respiração suspensa. Invade meu corpo que agora é todo seu. Desliza pra dentro de mim. Todo meu corpo estremece. Um só novamente. Entregues.
Ele se movimenta dentro de mim. Meu corpo enlouquece. Quer mais. Minha respiração pesada é a senha que ele precisa pra continuar. E ele continua. Não é o momento pra carinho ou delicadeza. A pressa do prazer de estar juntos de novo nos deixa ferozes. Somos dois bichos se amando.
Sinto seu corpo preencher o meu. Todo. Cada centímetro dele tomando conta de cada espaço em mim. Movimentos fortes. Cada investida dele contra meu corpo me faz delirar.
Ele está tenso. Se segura depois de tanto tempo de expectativas. Somos um só de novo. Como sempre deveria ser.
Pressa. Não conseguimos nos controlar. Ele me vira e me joga sobre a cama. Quer me olhar nos olhos enquanto domina meu corpo.
Afasta minhas pernas, separa minhas coxas. Está olhando pra mim. Olhos quentes de desejo.
Novamente ele está dentro de mim. Se projeta até o fim. Sinto a invasão do meu corpo. Ele domina meu prazer. Me faz gemer a cada investida.
Me beija enquanto penetra meu corpo com o seu. Meus gemidos são abafados pelos seus beijos.
O seu peso está sobre mim. Investe sem dó. Seus movimentos são fortes. Dor e prazer juntos.  Ele acelera as investidas. Meu corpo treme. Estou gemendo. Dor e prazer, sempre.
Ele está em mim. Sinto novamente cada pedaço seu dentro de mim. Aumenta ainda mais meu tesão a cada movimento seu.
Sinto toda a excitação se transformando em energia dentro de mim. Ele sabe que estou no limite. Diminui o ritmo. Meu corpo reclama sob o seu.
Subo meus quadris pedindo mais. Ele penetra mais fundo. Gemo de dor. Ele sabe que me maltrata com isso. Mas não peço pra parar. Pelo contrário, envolvo sua cintura com minhas pernas e com isso, permito que ele vá mais profundo em mim.
Meu corpo se ergue pra receber o seu. O movimento está mais intenso. Seu calor em mim só faz aumentar meu desejo.
Tudo em mim se contrai. Não consigo mais segurar. Ele me segura pelo rosto. Quer meu olhos no dele. Continua se mexendo em mim. Mais... E mais. Já não consigo respirar. O coração está demasiadamente acelerado. Ele intensifica a invasão, bate com força seu corpo contra o meu... Estou quente, dentro e fora. Não tenho mais como resistir.
Mais uma vez, e outra, meu corpo se contorce, se contrai, e em um movimento mais firme seu, tudo em mim vira sensação. Meu gozo explode em mim. E ele gosta do que vê. Meu rosto contraído de tanto prazer. Lábios apertados, tensos. E toda a energia acumulada extravasa em um gemido intenso e profundo. Todo meu corpo treme sob o dele. Tudo é prazer.
Ele observa meu corpo extravasando a tensão. E isso aumenta o tesão dele. Ele sabe que agora pode também desfrutar desse mesmo prazer, porque já me fez sair do chão, já me levou ao céu. O
movimento agora está mais forte. Meu corpo continua reagindo à invasão dele. Ele está cada vez mais rápido dentro de mim. Isso só prolonga meu êxtase... Continuo delirando de prazer. E ele está cada vez mais próximo do dele. Eu sinto agora a tensão. Ele me aperta contra seu corpo, aumenta o ritmo das investidas freneticamente. Crava seus dedos na minha cintura e com isso empurra mais seu corpo contra o meu. Nossos corpos estão banhados de suor. Ele continua. Intenso, firme, quente dentro de mim.
Até que todo o seu corpo se contrai. Ele está feroz sobre mim. O movimento acelera intensamente. Ele se contorce. Quer estar inteiro dentro de mim. Com força, com saudade, com tesão. Me puxa mais e mais. Meu corpo se contrai novamente..ele não pára. Estou gemendo e pressionando meus quadris contra o dele... Ele quer mais. E mais. Muito mais. Até que seu corpo não consegue mais evitar. Ele geme alto, me invade mais uma vez com violência, meu corpo vibra de prazer. Estamos juntos no auge da junção de um no outro. Ele geme mais alto, e seu corpo já não se controla mais. Ele explode em êxtase dentro de mim. Eu sinto meu corpo se encher do seu calor. Ele está dentro de mim. Completamente meu. E eu, completamente sua. Entregues. Em um gozo único, intenso. Mágico.
Permanecemos deitados um no outro. Coração pulsando acelerado, respiração ofegante. Completamos o encontro. Corpo, alma, coração.  Somos um só novamente. Como deve ser.
Suor, calor, corpos colados. Prazer. Nossos cheiros e fluidos se misturam. De novo, somos um só.
Ele ergue seu corpo sobre o meu. Me beija com carinho. Se vira para o lado e me puxa sobre seu peito. Ouço seu coração ainda acelerado. O melhor lugar do mundo... Seu abraço. Adormeço. Segura, amada, completa.
Por que ele? Preciso mesmo explicar?...




domingo, 17 de maio de 2020

Agir como se...


Aja como se.

Agir como se não estivesse com depressão. Essa é a proposta do psicólogo essa semana. De cara, achei uma tarefa bem fácil. Afinal, passar um dia fazendo só as coisas que gosta e outro se dedicando ao trabalho, não deve ser nenhum problema fora do comum.
Mas uma coisa me intriga desde que ele lançou o exercício: não consigo me lembrar de fazer coisas prazerosas. Não sei o que fazer. Mas calma. Ainda tem dois dias para descobrir.
Paro para pensar na minha vida. Não é tão ruim assim. Viajo com uma certa frequência... isso me dá prazer. Avalio as últimas viagens... definitivamente não me dão prazer. Pode ser reflexo da depressão. Afinal, até hoje não consigo identificar desde quando ela toma conta dos meus pensamentos.
Corto viajar. Não é isso. Exercícios físicos. Acho que é isso. Sou muito comprometida. Fora no auge da depressão, que eu simplesmente inventava mil desculpas para não ir, me lembro que gostava. Ou não. Talvez a motivação fosse não ser mais um caso nas estatísticas de quem já fez a bariátrica e engordou tudo de novo. De fato, não é uma coisa muito prazerosa ficar levantando peso e fazendo os mesmos movimentos repetidas vezes... Corto atividade física.
Embora eu gostasse de correr. Acho que pelo momento só meu. Absorta nos pensamentos. Sozinha, música nos ouvidos, pensamentos soltos. Realmente, momentos de satisfação. Além do desafio contra si mesma. É... mas ainda não posso correr. Quem sabe uma caminhada. Um item para a lista.
Me lembro agora dos últimos momentos que eu me senti verdadeiramente alegre: meu anjo. Sempre me vêm à cabeça essas recordações. São tempos de completa felicidade. Até eu perceber que são passageiros. Ai, toda a tristeza cai de volta sobre mim, e eu volto ao mundo real. Se não fosse a partida sem perspectiva de próxima vez, seriam os tempos perfeitos, onde a depressão não cabe, não entra e não tem vez.
Ler. Era apaixonada por livros. Ler era o meu hobby. Ficção. Romance. Histórias. Remexo numa caixa antiga e empoeirada. Resgato alguns livros que nem lembro se já li. Segundo item na minha lista. Já está melhorando.
Nunca tive talentos na cozinha. Sei fazer o básico para me virar. Nunca me fez falta saber cozinhar. Nem cuidar da casa. Sempre tive quem fizesse por mim. Minha prioridade nunca foi ser bela, recatada e do lar. Cozinhar alguma coisa está fora da minha lista.
Do lar não, mas do bar. Agora que estou pensando nas coisas que gostava de fazer, me vem à mente a lembrança de estar em bares. Às vezes com amigos, às vezes, sozinha. Sempre gostei. Alguma coisa para beber, uma música ao vivo. Ou conversar muito. Com pessoas diferentes. Assuntos novos ou velhos. Uma coisa que me dava prazer. Muito. E simplesmente saiu da minha vida. Como eu deixei isso acontecer?
Amigos. Sempre tive muitos amigos. Vivia rodeada deles. Minha casa era sempre o ponto de encontro. O lugar onde se podia ter um espaço tranquilo e legal. Os pais dos amigos gostavam de mim. Apesar de sempre ter um pouco de bebidas e eventualmente um cigarro, nunca houve drogas nem nada ilícito. Nem brigas, nem desentendimentos.
Havia sempre música. A música sempre esteve comigo. Das tardes de domingo na infância, quando nos reuníamos ao redor do pai ao violão e cantávamos juntos, até os shows que eu sempre gostei de ir. Zé Ramalho pelas madrugadas frias de Barbacena, um maço de gudan e um litro de catuaba. Para sete, oito pessoas. E a gente via o dia amanhecer. Felizes.
Sempre gostei de dançar. Desde os bailinhos na adolescência, ao som de Roxete, Erik Clapton, Simply Red, passando pelo forró gostoso no Espírito Santo e pelo modão lá em Goiás. Dançar juntos. Mãos na cintura, sensualidade e flerte. Essas lembranças me fazem sorrir.
Comer nunca foi uma fonte de prazer. Claro que boas comidas sempre trazem uma sensação boa, mas a minha relação com a comida nunca foi muito amistosa. Além de muito tempo morando sozinha, sem grandes avanços na culinária, a forma como o alimento é visto na minha vida hoje não me agrada. Todos os passeios envolvem comer. E eu não sinto satisfação nisso, por não comer muito e por ter que encarar esses momentos como a principal fonte de lazer da família.
Eu penso nos momentos que eu realmente fui feliz nesses últimos anos da minha vida. Não consigo lembrar de muitos. Os momentos com meu anjo, sempre. Momentos de reconhecimento profissional. Minha formatura, como primeira aluna do curso, depois de seis anos de luta e abdicação. Meu filho. A sombra da depressão faz tudo ficar cinza.
Bom, não quero pensamentos negativos agora. Tenho algumas coisas que posso fazer. Que venha o domingo.
E ele chega. Primeiro plano pra hoje: uma caminhada na praia logo cedo, se a chuva der uma trégua. O relógio desperta por volta das cinco e pouco da manhã. Olho pela janela e vejo um céu limpo, azul, sem sinal de chuva. Que droga, no fundo, queria que amanhecesse chovendo. Ele desliga o despertador e não fala nada. Finjo que estou dormindo. Aguardo ele me perguntar se vamos mesmo caminhar. Ele não fala nada. Eu volto a dormir. Um a zero para a depressão.
E lá vem a culpa. Comecei mal. Penso em levantar e preparar o café da manhã para todos. O sono volta. Quando acordo, mãe já está de pé, preparando tudo. Dois a zero para a depressão. Deixei a preguiça dominar. Vou ficando triste. Mas não. Hoje não.
Levanto, arrumo a cama, coisa rara em um domingo. Normalmente passo o dia todo deitada. Tiro o pijama e visto uma roupa para sair. Não vou ficar de pijama o dia todo. Dois a um. Nessa, a depressão não vai levar.
Venho enrolando sobre fazer as compras no supermercado. Mas não quero perder o meu “happy day” com isso. Mas preciso de alguma coisa para o almoço. Pensei em tantas coisas que poderia comer que me trouxessem algum prazer. Decido. Vamos buscar. Só nos dois. Peço para ir de moto com ele. No início do nosso namoro, quando morávamos no interior, nossa diversão era vir de moto à capital, passear por alguma praia. Quem sabe?
O vento no rosto. A visão do mar. O sol aquecendo meus braços. Fecho os olhos. É uma sensação boa. Não preciso conversar. Não preciso interagir. Só sentir o momento. Quando tudo isso passar, quero vir mais vezes ver o mar. Realmente me sinto bem. Mercado, não tem como escapar. Uma sobremesa que me remete à infância. Uma cerveja sem álcool. Vamos para casa.
Um livro. Muito tempo que não leio. Escolho um que realmente sei que não li. São contos de renomados escritores do mundo inteiro. Textos curtos. Leio rápido. Ele me interrompe algumas vezes. Não entende que estou no meu momento. Isso me chateia. Sinto vontade de parar de ler e dormir. Mas insisto. Ignoro os comentários até ele perceber que quero continuar lendo em paz. Dois a dois. Não vou deixar isso me afetar.
Quase terminando o livro. Levanto, vou tomar minha cerveja. É um prazer passageiro, na verdade, mais uma afronta que um deleite. Sei que ele não gosta. Mas a ideia não é agradá-lo. É agradar a mim. E me trazer recordações de momentos felizes. Bebo com satisfação. Dois a três. Virei o jogo.
Já o almoço não é como eu esperava. A comida não me traz a satisfação de antes. Como em silêncio e todos me acompanham na falta de assunto. Poderia ter escolhido outra comida. Ter feito alguma coisa para todos. Culpa. Três a três. Que droga... Ela empatou a partida.
Termino rápido, a sobremesa já não parece tão gostosa como eu imaginei. A tristeza ronda, o dia vai pela metade e quase não fiz nada. Vou me deitar um pouco. Quatro a três. Está me vencendo.
Não consigo dormir. Inquieta, hora sinto frio, hora sinto calor. Sede, xixi... Vou me irritando. Sempre gostei do meu sono da beleza depois do almoço. Nem isso hoje me dá prazer. A raiva aumenta. Cinco a três. Meu domingo está perdido.
Pensei em tanta coisa. Já são quase três da tarde e eu não fiz quase nada. Volto ao livro. Pelo menos vou terminar. Às vezes tenho que ler o mesmo trecho mais de uma vez pra entender, porque a falta de concentração me faz passar pelas palavras sem conectá-las. Que luta. Mas termino. A sensação é boa. Cinco a quatro. Ainda posso pelo menos empatar.
Resolvo que vou caminhar. Uma atividade física tem que ter. Queria ir sozinha, mas sei que vai ser impossível. Ele quer que seja só nós dois. Mas eu convido a todos. Pelo menos, não preciso interagir. E vamos todos. Coloco meus fones de ouvido na clara demonstração que não quero conversa. Mas vejo o jogo mudar. Cinco a cinco. Eu posso vencer.
A caminhada não é exatamente como queria. Local feio. Puxando outras pessoas, não vou no meu ritmo. Mas não me deixo abater. A lista de música que toca foi toda feita para meu anjo. Vou pensando em nós o tempo todo. No que vivemos. No que poderíamos viver. Penso em falar dele para o psicólogo, admitir que muito do que vivo hoje tem a sua influência. Mas ainda não é o momento. Volto a sonhar.
Estou cansada. Há tempos que não faço nenhuma atividade. Mas me sinto bem. Acho que valeu o ponto positivo.
Já está ficando tarde. Tinha em mente ainda escrever e ver um filme. Escolho escrever, embora não saiba ainda sobre o quê. Escrevo sobre o dia. Mais uma atividade que me faz bem. Cinco a seis. Se eu não me entregar até a hora de dormir, posso encerrar com um saldo positivo. Ainda há coisas que queria ter feito. Mas entendo que foi um bom dia. Talvez eu consiga outros dias assim.
E a vida segue. Devagar...

terça-feira, 12 de maio de 2020

Solidão

Os dias pesam sobre tudo ao meu redor. Dias bons, intercalados de dias pesados, difíceis. Essas oscilações fazem a gente sofrer mais ainda.
Mas ultimamente as coisas têm sido piores. Um pedaço do meu coração simplesmente parou de bater. Sem vida.
Tive um momento de angústia intensa. Falei coisas demais. Deixei toda a frustração passar para o papel. A mágoa de mais uma vez não ser a escolhida. Toda a decepção de estar sem ele novamente. O mesmo gosto da rejeição que eu senti há tanto tempo atrás. Ele não me escolheu.
Tanto rancor... Fiz tanta coisa pra tê-lo. Mudei minha vida nos últimos anos. Ouvia sua voz pedindo que eu tomasse conta de mim mesma. Cuidasse mais... Virei outra. Por fora principalmente. Sempre tive medo de não ser quem ele esperava de mim.
Por dentro, o mesmo mundo de insegurança, dúvidas. Mas agora, em busca do sol. E ele era meu sol.
Iluminava meus dias com suas flores vermelhas no bom dia. Ouvir ele dizer sobre seu trabalho, seu dia. Suas crianças. Tudo isso me enchia de alegria. Saber de mamis, ouvir suas queixas e preocupações sobre o trabalho.
Mas eu pulei no penhasco. Deixei o peso do passado, misturado com a frustração do futuro... Deixei isso virar palavra... E palavra dói, machuca.
E ele não perdoa. Não volta atrás.
Sentiu a tristeza tomando conta. Deixou as palavras ficarem. Não sabe relevar.
Mas eu já sabia disso. Sabia, assim que vi a visualização de tudo, que eu ia pagar um preço alto. Mas nunca pensei que fosse tanto.
Ele caiu. O Anjo caiu na terra. Nu e sem asas. Se sentiu assim. Permitiu que o meu momento de fúria entrasse no seu coração. Talvez tenha visto alguma verdade no que leu. Ou só viu coisas ruins. Mas machucou, feriu.
Sangrou. Virou dor. Secou. De repente, tudo desmorona. Some. Sigo firme no meu propósito. Não vou mais atrás. Preciso me conformar. De novo, ele não me escolheu. Ouço coisas duras. Olho por olho. Fiz sofrer. Me faz sofrer.
Sabemos atingir, magoar. O tempo todo usamos isso. Ele procura, mas se retrai. Eu simplesmente enxergo a perda. Se foi.
Custo a entender. Ele está irreconhecível. Um dia, dois dias, voltou ao chão. Ele está enterrado. Me arrependo, ele não cede mais.
Dor. Causei dor. Senti dor. Peço perdão. Sei que não adianta. Mas espero no seu amor. E nada.
Dor. Indiferença. Rancor. Ele é ríspido. Paciência e carinho, não vejo mais.
Penso em todos os momentos assim no passado. Até comuns. Mas não como agora.
Preciso entender. Não o vejo mais. Vazio.
Ele ensaia perdão. Mas não consegue perdoar.
A mágoa está em suas palavras o tempo todo.
Não lamento mais. Fiz. Recebi de volta.
Tento acalmar meu coração. Vai passar. Ele pergunta, se preocupa. Mas procuro me conter. Ele tem uma dívida comigo: não pode me deixar. Mas permanece por força. Não está à vontade.
Volto a chorar enquanto tomo banho. Raro momento de paz. Lembro de outros momentos assim. Ele já me viu chorando no banheiro. Culpa. Mais. Como sempre.
Tentamos uma, duas, várias vezes. A conversa não flui. Estou retraída. Culpa, raiva, rejeição. Ele não está mais ali.
Eu só queria estar com ele. Voltar a sonhar com seu abraço e seus carinhos. Voltar a dormir pensando nele. Eu só queria...
O amor... Faz de tudo dentro da gente. Estremece, amedronta. Amar desacelera, desencoraja. Guardo meu amor. Exposta, sozinha. Mágoa por tudo.
Eu só queria que ele entendesse que desistir de lutar é mil vezes pior do que brigar pra ser feliz. Já desisti outras vezes..dessa vez quis lutar. Mas não sei fazer isso. Medo. Estou de volta à solidão. Não sei mais voltar.
Preciso sentir o amor de novo. Descansar no porto seguro. Sentir amor.
Preciso da paz do seu sorriso. Das suas flores no bom dia. Preciso do seu amo vc apaixonado e verdadeiro. Preciso.
Não sei como resgatar. Não sei como retomar. Mas eu estou aqui. Meus sonhos juntos estão guardados no meu coração, simplesmente esperando o seu sim.
Às vezes o coração fraqueja, o medo entra e faz morada. A rejeição aflora. O passado volta. Ele não me escolheu.
Mas eu fecho os olhos, o tempo pára. Um dia vai ser diferente. E eu vou esperar. Porque o amor só se vive uma vez. E sei que mereço isso. Ele também.
Esperar. Não posso mais que isso. Mas meu amor espera pelo amor que ele tem pra mim. Mesmo que ele não seja pra hoje. Nem pra amanhã.
Mesmo que eu pense que não mereço. E que ele pense isso também. Mas meu amor espera pelo seu.
Mais mil anos. Ou um dia. Quando puder ser meu. Inteiro ou pela metade. Todo ou em partes. Espero por você.
Porque amor assim não se perde, não se deixa passar. Nem hoje, nem nunca. Dura pra sempre. Sempre dura.










quarta-feira, 29 de abril de 2020

Noite

As coisas andam meio estranhas. Volto a ter dias cinzas com mais frequência. Os questionamentos sobre o que ando fazendo da vida têm tornado meus dias um castigo.
O trabalho se acumula. A falta de concentração me deixa inquieta... Ou a inquietude me tira a concentração. Não sei a resposta.
Tenho pensamentos negativos novamente. Parece um ciclo. Vão e vem quando querem. O sono está absurdo. Continuo acordando pesada, cansada.
Cansada. Virou meu mantra. Meu hino. Me sinto cansada o tempo todo. Até eu canso de dizer que estou cansada. Mas quando paro pra pensar (e penso o tempo todo) no que estou sentindo, só sinto cansaço.
Pensar e cansar de pensar. O gasto de energia está enorme. O trabalho está sufocante. Uma avalanche de problemas. As pessoas ao meu redor sem objetividade. Isso me estressa. Estou me tornando intolerante. Isso cansa.
Penso em mim. Decidi procurar o psicólogo. As consultas espaçadas com o psiquiatra não estão ajudando muito. Ele trata a causa, preciso tratar as consequências.
Autoconhecimento. Sei que preciso disso. Mas não nego, tenho medo do meu lado sombrio.
As coisas em casa, me sinto em um teatro. Encenação. Ele finge que eu estou bem, eu finjo que ele acredita. Ele está me cercando absurdamente. Se eu falo que senti vontade de alguma coisa, prontamente ele providencia. Quer me tocar o tempo todo, estar próximo. Não respiro.
As noites têm sido as piores. Eu, cansada no ponto máximo, e ele ligado no 220v. Fala o tempo todo. Quer planejar. Quer discutir a relação. Quer saber sobre meu dia. E o contato. Está virando uma luta. Aprendeu agora a falar se encostando em mim. Me seguro para não afastar.
Transamos duas vezes depois que baixei a guarda. A primeira, expectativas e frustração. Não adianta. Ele continua o mesmo. A segunda, diferente do contexto. Começou com uma dor nas costas que ele se propôs a usar o massageador para aliviar. Não tenho paciência para a dor. Nem para ele. Mas deixei.
Das costas, a massagem com o aparelho seguiu para as coxas e bumbum. Queria que eu tirasse a calcinha... sabia que ele não perderia a oportunidade. Mas não tirei. Só que não vou negar, a sensação do massageador nas áreas onde a cirurgia pegou pesado é um alívio incrível. As sessões de drenagem acabaram e o corpo sofre pra voltar ao normal. Mas a sensação é boa de verdade. Um misto de relaxamento e excitação, quando ele começa a ser mais ousado com o massageador. Ele pergunta se eu quero a massagem na barriga. Relaxo, esqueço meus bloqueios com ele e me viro.
Cubro o rosto com a toalha. Ele espalha o óleo e volta a usar o massageador. Me ligo nas sensações. Esqueço quem está ali. Ele está quieto. Nem ouço sua respiração.
Meus pensamentos vão pra outro lugar. A sensação dos olhos vendados. A expectativa. O massageador. E eu permaneço de olhos fechados.
Ele aproxima o aparelho das minhas coxas. Sobe com ele. Faz movimentos me provocando. Sei das suas intensões. Ele tira a minha calcinha. Não ofereço resistência nenhuma. Os olhos fechados, as expressões do rosto escondidas sob a toalha. A culpa começa a me rondar. Sentimento de traição. Permaneço.
Ele ousa, percebe minhas reações. O massageador agora está por áreas que não deveria estar. A sensação é extasiante. Meu corpo reage. Impossível não associar os momentos.
Estou excitada. Muito. Há tempos não me sentia assim. O corpo quente. Úmido. Não quero abrir os olhos.
Sinto vontade de me tocar. Mantenho os olhos fechados. Me toco. Sinto um prazer já conhecido. O corpo se arrepia de satisfação. De novo, meu prazer na minha mão. Ele para com a massagem. Não sei se me olha. Deve estar olhando. Não me importo.
Me concentro no meu prazer. Sinto meu coração acelerado. A respiração mais curta. Até que meu corpo se contrai. Sinto a corrente de energia passando por todas as minhas terminações nervosas. Prolongo a sensação o máximo que posso. O ápice. Relaxo. Realizada.
Abro os olhos. A realidade bruta volta. Vejo quem está do meu lado. Olhos famintos. Sinto  misto de decepção e culpa. Ele quer a parte dele. Tira a roupa. Sua falta de sei lá o que de sempre. E de repente percebo que toda a excitação se foi. O momento dele pra mim é tormento. Incômodo, tensão. Corpo não quer. Mente se sente traindo. Enfim, ele termina.
Volto ao meu mundo de pensamentos negativos. Até quando vou permitir isso? Adormeço.
De manhã, o mundo é o céu pra ele. Não sei disfarçar a sensação de coisa ruim. Me sinto suja. Esses sentimentos me dão raiva.
Todo momento ele usa pra um toque sexual. Isso é desgastante. Mas eu deixei chegar neste ponto. Não posso reclamar.
Finalmente ele se vai. Meus pensamentos que antes já estavam ruins, agora estão piores.
Eu preciso saber como conduzir isso. Ou eu permito, assumo e deixo o barco ir. Ou eu paro. Porque viver assim só torna as coisas piores.
Eu me sinto traindo. Isso está me bloqueando mais ainda. Não estou fazendo nada demais. Indo pra cama com o meu marido. Mas o envolvimento emocional que tenho com outra pessoa tem um peso enorme pra mim. Não sei mais o que fazer com relação a isso.
Preciso tocar a vida. E não vejo alternativas para a paz que eu procuro.
A culpa está sempre me perseguindo. A ausência de carinho e contato físico me assustam. E tudo, absolutamente tudo, me cansa.
Mas não posso me entregar. Não agora. Eu não posso desistir. Meu anjo não está pronto pra isso. Eu preciso achar uma forma de me manter bem até ele estar firme nas decisões que precisa tomar.
Mas esse jogo todo de esperar, escolher ficar sozinha ou continuar, me sentir sozinha, carente e sem prazer, o cansaço... Tudo isso me desnorteia.
Sigo me sentindo fazendo a coisa errada. Traindo meus sentimentos e os dele. Ou não. Pode ser mais uma invenção dos meus pensamentos para continuar me jogando na lama.
Se estou certa ou errada, não sei dizer. Só penso que não é uma coisa muito fácil de se resolver.
Deu a hora. Preciso ir trabalhar.