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Há algum tempo penso em escrever
sobre isso. Mas ainda não tinha reunido coragem. São memórias dolorosamente
recentes. Ainda não sei lidar muito bem com toda essa história.
Vou voltar um tempo. O necessário
para que eu mesma entenda como foi que eu cheguei ao fundo do poço.
Novembro. Não tenho certeza se no
começo ou no fim. Ano passado. Um dia qualquer, uma mensagem no celular. Um
amigo antigo. Colegas de profissão. Ele, bem posicionado, empresa grande, cargo
de destaque. Eu, gerente em uma indústria pequena em um estado pequeno, sem
expressão. Uma proposta de emprego. Na verdade, a segunda da mesma empresa.
Dessa vez, um cargo de supervisão. Meu coração dispara. A proposta da minha
vida, de novo em minha porta.
A proposta de salário me deixa constrangida.
Nem tenho coragem de falar quanto ganho atualmente. O dobro. Em um cargo de
grandes responsabilidades. Outro estado, tudo novo.
Primeiro pensamento é falar com
ele. Passou a ser a minha primeira opção para tudo. Sempre dá atenção às coisas
que eu falo. Sempre tem tempo para mim. Nunca me deixa falando sozinha. Enfim,
divido com ele.
Ouço suas ideias. Divido meus
medos. Trocamos ideias sobre como proceder. Vou deixar a conversa fluir.
Avaliar tudo. Afinal, é deixar para trás uma vida que comecei a construir nessa
cidade. Por um momento, esqueço de tudo. Só penso na oportunidade de ter um
emprego em uma empresa grande. Vinte anos na área e nunca tive essa
oportunidade.
Passo a visualizar a
possibilidade de sair de casa. A princípio, iria só. Será que a família
concordaria? Filho na escola. Marido com carreira consolidada... Mas era a
minha chance profissional. Não escondo a animação. Talvez a chance de sair
deste relacionamento com classe. Iria, o tempo passaria, longe um do outro, as
coisas poderiam acabar por si só. Seria um alívio.
Mas volto para realidade. Penso
na minha cirurgia. Fevereiro. Abrir mão disso, sem previsão para nova data.
Começar do zero. É o preço.
Preciso falar em casa. Adio o
máximo que posso. Sei que não vai ser uma conversa fácil. Mas preciso falar. Falo.
Um balde de água fria é um
eufemismo leve demais. Fui jogada de volta à realidade sem nenhuma gentileza,
com ênfase na decisão: “Eu não vou nunca. Não sei porque você iria. Só pelo
dinheiro, não precisa. Estamos bem aqui.” Foi um choque, apesar que se eu
tivesse pensado mais um pouco, não esperaria nada diferente.
Deixou claro sua posição. Mesmo
propondo um tempo para me adaptar, para ele avaliar a área em relação à sua
experiência profissional. Nada o demoveu. Eu não tive forças para lutar.
Afundei em tristeza. Não sabia
nem o que responder para a proposta. Eu estava, definitivamente, fechando uma
porta importante na minha vida.
A partir daí, os dias perderam
mais ainda o seu encanto. Ele, que tanto tinha me incentivado a ir, ficou
decepcionado por eu não lutar, não insistir. Eu não tive forças. Escapou entre
meus dedos a oportunidade que busquei a vida toda.
Outro dia, e mais outro, e os
dias vão se passando. Tudo cinza. Negro. A tristeza sobre meu coração já não me
perturba mais. Estou inerte. Não sinto mais.
Vivo no automático. Até que em
outro capricho do destino, recebo uma proposta para um mestrado. Uma orientação
de peso, em um programa inovador. Não me interesso. Já foi algo que busquei em
outros tempos. Hoje, não me faz mais brilhar os olhos. Mais uns dias, e a
proposta ressurge. O edital está aberto. Participe. Gostaria de trabalhar com
você.
Eu deixo os dias passarem. Não
tenho vontade de me mover.
É véspera do nosso aniversário de
casamento. Não penso em nada com relação a isso. A dor da decepção ainda pulsa
na minha cabeça. Cada dia mais calada, mais introspectiva dentro de casa.
Sexta-feira. Vejo conversas e
risos dissimulados em casa. Não gosto dessa sensação. Ele está preparando
alguma coisa para a data. Na hora do almoço pergunta se eu iria para um lugar
sem saber onde seria. A tristeza chega de vez. Não tenho coragem de dizer que
não.
A animação dele é uma afronta para
mim. Não sei se não percebe meu olhar triste, ou se simplesmente não se
importa. Ele arruma minha mala. Não tenho ideia para onde quer me levar.
Sábado. Ele me acorda cedo. Nem
vai trabalhar. Café da manhã na padaria. Ele faz o roteiro todo para me
agradar. Pegamos a estrada. Ainda nem sei para onde estamos indo.
Não consigo interagir. A vontade
de chorar a todo instante vem. Por fim, ele revela. Meu Deus... que lugar
longe. Realmente, há algum tempo eu já havia falado sobre o local, mas não
agora. Não com esse clima. Não com esse humor.
Enfim, chegamos. O clima frio
combina com o meu estado. Tento fazer de tudo para retribuir o momento. Tudo é
forçado em mim.
Tento não manter o contato com
ele. Me proponho a ter um final de semana de dedicação ao meu relacionamento.
Mas o esforço só me deixa mais triste ainda.
Falo com o amigo da proposta.
Finalmente tenho coragem de dizer que não vou. Ele me ouve, entende por um lado
meus argumentos. Eu choro sozinha no banheiro. Realmente, não tem jeito.
Não resisto, falo com ele um
pouco. Sinto como se estivesse ganhando um prêmio de consolação por não ter
aceitado o emprego. A sensação é de traição, porque todos se envolveram nos
planos dele. Fiquei muito triste. Mais do que já estava.
Passeamos, conhecemos a cidade.
Meu coração gelado como um iceberg. Mas sou boa em fingir. Só não consigo
fingir a parte da cama. A falta de envolvimento, de entrega, de prazer. Acho
que ele nota, não sei. Parece não se importar. Tortura.
Chega a hora, vamos embora,
finalmente. Converso um pouco com ele. Está com ciúmes, mal nos falamos. Eu
sinto sua falta. Às vezes o culpo pelo que estou passando. Como se ele pudesse
me tirar deste abismo.
Em casa. Aliviada. Passou.
Converso com ele. Abro meu coração, conto a frustração da viagem, a falta de
ânimo, a saudade.
Chega a segunda. De fato, o
aniversário do casamento. Detesto a data. Recordo como foi nosso casamento.
Frio. Sem brilho. Totalmente diferente do que eu poderia ter feito. Ele me
podou as asas, não permitiu nada além do que uma comemoração simples no quintal
da sogra. Nada como poderia ter sido. Não gosto de comemorar.
É o último dia de inscrição para
a prova do mestrado. Ele se propõe a me ajudar. Depois, saímos para comemorar
as bodas. Estou exausta, mas aceito. Não vou desistir sem tentar.
O processo de envio dos
documentos é chato. Por quê mesmo estou fazendo isso? Enfim, terminamos.
Vamos para o nosso restaurante
preferido (dele). Ele traz a mochila junto. Diz que meu presente está lá.
Discutimos o cardápio, pedidos alguma coisa que não me recordo. Ele começou a
falar.
Falou do começo do nosso
relacionamento, como as coisas mudaram desde então. Elogiou as mudanças, disse
das nossas aventuras, eu ouvindo e participando com algumas observações. Ele
continuou a falar, e de repente, mudou o semblante. Meu coração gelou no peito.
Conheço aquela expressão. Ele vai começar a falar sobre coisas que tenho
certeza que não vou gostar.
O jantar chega e fica à nossa
frente. Ele está com raiva. Olha para mim com olhos duros. Me chama de coisas
que não consigo colocar no papel. Diz que eu traí novamente a dedicação e o seu
amor. Continuo com as conversas pelo telefone com o outro. Leu nossas ultimas
conversas. Meu sangue congela. Fala detalhes dos diálogos. Me ofende. As
lágrimas escorrem no meu rosto. Diz coisas pesadas. Que enquanto ele preparava
um final de semana maravilhoso para nós dois, eu falava mal dele pelas costas,
com uma pessoa que ele já tinha deixado claro que só fazia prejudicar nosso
casamento.
Eu imploro para ele parar. Estou
chorando e os garçons me olham de canto de olho. Eu só quero ir embora. Ele
insiste. Fala mais. Como sou leviana. Como não deixo de viver esse romance
paralelo em prol do nosso casamento. Usa de tudo. Diz que eu me humilho e
imploro pelo amor de uma pessoa que não me ama. Que me ofereço, que rastejo,
que ele tem pena de mim. Que eu não sei reconhecer que o outro não quer nada
comigo, só tem pena de mim.
O fundo do poço. Já tinha chegado
perto, mas nunca assim. O fundo do poço é sufocante. Você olha para cima e não
vê a luz. A água do fundo do poço é gelada e dói em nossos ossos. O espaço é
pequeno, e você não consegue se mexer, mal consegue respirar. O fundo do posso
é o pior lugar para se estar. E eu estava lá.
Pede a conta e que embrulhem a
comida. Quer selar a minha humilhação me fazendo chegar em casa com todo o
jantar. No caminho de casa, nem uma palavra. Fecho os olhos e tento me acalmar.
A sordidez de me tirar de casa,
me levar para jantar, mesmo tendo lido minhas conversas. Feito eu me arrumar.
Levado o presente, que aliás, nem me entregou. Humilhada.
Eu não sei mais o que dizer. Peço
desculpas novamente. Milésima vez. Penso em acabar com tudo aquilo. Não aguento
mais. Sou fraca, me culpo. Ele está coberto de razão. Sou sem moral, me envolvo
com uma pessoa além do meu relacionamento. Além de tudo, uma pessoa que não me
quer. Toda a culpa, toda a dor. Eu sou a razão do meu próprio sofrimento. Acabo
com tudo isso e pronto. Eu só quero morrer.
Os dias vão passando. Ele se
acalma, procura por sexo. Cedo, pela milésima vez. Vai fazer ele se esquecer
por um tempo dos problemas. Sinto como se fosse um estupro. Meu corpo invadido
sem amor. Usada para a sua satisfação. Morro um pouco mais.
Um dia, almoço, uma conversa pela
internet. Voltam as cobranças. Outra conversa lida. Não entendo como ele tem
acesso a isso. Vigilância. Sinto como se fosse uma prisioneira. Eu não sei mais
chorar. Estou anestesiada. Ele fala, argumenta que eu preciso dar uma
oportunidade para o nosso casamento sem a sombra da terceira pessoa entre nós.
Dentro de mim, só gelo. Ouço e não me importo mais. Digo que não. Que não quero
mais insistir.
Ele se assusta. Diz que quer
voltar a conversar em casa. Eu digo que não quero mais falar sobre nada.
Em casa. Ele retoma o assunto. Eu
insisto que não quero mais falar sobre nada. Ele insiste. Eu peço para parar.
Ele não para. Joga pela milésima vez sobre mim as minhas traições, minha
dedicação a outra pessoa. Que eu rastejo e me humilho por quem não está nem ai
para mim. Ele pega mais pesado ainda. Pergunta se não me sinto mal com Deus por
estar insistindo em acabar com o casamento de outra mulher. Se não penso nos
filhos dele. Mas ainda sim diz que ele não me quer. Que tem pena de mim.
O fundo do poço ainda era mais
embaixo. Iludida, eu achei que não poderia piorar. Mas sim, havia mais a cavar,
mais a me soterrar. Se antes a água me envolvia, no fundo do poço mesmo, havia
lama. Pegajosa, que me envolvia os braços e as pernas e me impedia de me mexer.
No fundo do poço, com lama até o pescoço, sem conseguir respirar. Para a morte,
não faltava mais nada.
Eu reajo. Estou exausta da humilhação.
Do cansaço, da invasão. Estou morta por dentro. Eu digo que basta. Que não
quero mais. Digo que não quero mais me desculpar, prometer me afastar do outro
e não cumprir. Não quero mais ser acusada e carregar as culpas do mundo sobre
mim. Não quero mais vender minha dignidade em busca de paz. Chega. É o fim.
Mais uma vez ele se surpreende.
Muda o tom. Pergunta se é isso mesmo. Eu digo que sim. Insisto. Ele
desconversa. Diz que devemos esfriar a cabeça e conversar depois. Eu não quero
mais.
Estou no início do tratamento com
o psiquiatra. Meu mundo desaba. Estou me adaptando aos remédios, me livrando da
vontade de morrer. Tudo desmorona ao meu redor.
Ele não quer perder. Envolve nosso
filho. Passa a sair com ele constantemente. De repente, está usando isso contra
mim. Fala que o menino está decepcionado comigo, que sabe do outro, leu coisas
no meu telefone. Eu fico sem reação. Eu o culpo de envolver a criança nos
nossos assuntos. Nessa altura, a família inteira já sabe. Saio do nosso quarto.
Sinto um pouco de paz.
O clima em casa piora
assustadoramente. Resolvo que vamos falar com o filho sobre a separação. Ainda
não era o fundo do poço. Estou novamente enganada. Havia mais depois da lama. E
eu agora, estou coberta dos pés à cabeça. Meu filho me olha com rancor. Quase
ódio. Seu corpo se sacode ao me acusar de destruir a família. A lama está por
toda parte. Dentro da minha boca, no meu nariz. Já não consigo ver nada. Ele
fica calado enquanto eu me justifico. Saboreia a minha dor em tentar me
explicar. Ele está por cima na situação. Meu coração não bate mais. Ele me
atingiu no único lugar que meu coração não suportaria. Meu filho, agora, tem
raiva de mim.
Inferno. Depois da lama, havia a
lava. Meu corpo queima no castigo que eu mesma escolhi viver. A culpa de todos
os males da humanidade cai sobre mim ao ver meu filho chorar. Culpa minha. Toda
minha. Leviana, imoral, traidora. Estou fazendo todos ao meu redor sofrer.
Eu não posso com isso. Estou
sozinha e envergonhada. Do outro lado do telefone, ele tenta me ajudar. Está
indignado pelo envolvimento do filho. Eu estou cega de dor. Toda a culpa do
mundo sobre mim. Os momentos a mais com ele passam a me gerar vergonha. Agora
que durmo sozinha, posso falar com ele até cansar. Mas a culpa me traz
sentimentos conflitantes. Eu estou fazendo todos sofrerem para poder ter
minutos a mais com ele. Vadia. Sou definitivamente uma vadia.
Tenho um retorno com o psiquiatra.
Conto a ele a minha decisão. Ele é enfático. Não posso fazer isso neste
momento. Ele me empurra mais ainda para a lama do poço. Achei que embora não
fosse o momento, ele não iria se opor veementemente a isso. Mas ele não sabe do
todo. Da história toda, que eu sou uma mulher sem caráter, que se envolveu com
um homem casado e que cultiva esse relacionamento em detrimento do meu próprio
casamento. Ele não sabe. Não tenho coragem de contar. Ele é enfático. Desmanche
isso. Volte atrás. Use os argumentos que achar necessário, use até o parecer
dele próprio. Eu não posso passar por um processo de divórcio nessas condições
psicológicas.
Abaixo da lava do fundo do poço
ainda podia existir mais coisas. Morta. Castigada na própria representação do
inferno que a minha vida se tornou.
Recuo. Peço perdão, digo que não
é o momento. Ele já estava ameaçando ir embora para outra cidade. Se mudar.
Deixar nosso filho. Me deixar viver o que eu quisesse.
Dez passos para trás. Risco do
coração os últimos traços de esperança. Falo com ele, um golpe. Ele não
consegue esconder a decepção. Fez planos para essa nova era. Desmanchei tudo.
Não sirvo para ser feliz. Não mereço. Sou suja. Faço todos ao meu redor sofrer.
Eu devia terminar com isso e tomar logo todos os remédios que tenho em casa.
Mas o castigo seria pouco. Meu
castigo é viver.
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