sexta-feira, 29 de maio de 2020

Expectativas

Perdi o sono essa noite. Nada de anormal. Fiquei pensando na vida. E imaginei uma vida diferente.

Quarta-feira, por volta das 10 horas da manhã. Estou há quase 10 dias fora de casa. Visitando alguns clientes. Reuniões. Quatro, cinco hotéis diferentes. Almoçando e jantando em restaurantes. Saudade de casa. Último cliente do dia. Conversamos sobre novos projetos. Agendamos um teste para a próxima visita, mês que vem. A mala já está no carro. Cento e cinquenta quilômetros de casa. Se eu sair agora, antes das 13 horas estou em casa.
Penso se vou almoçar no caminho ou seguir direto. O café da manhã foi bem cedo, depois de uma corrida de 5 km que eu faço todos os dias quando estou fora de casa. Já está na hora da fome. Talvez eu pare no caminho.
Pego a estrada. Começo a pensar nas coisas para resolver. Passar na lavanderia. Deixar as roupas da viagem, buscar as últimas que deixei pra lavar. O tempo esfriou, vou levar o edredom pra lavar também. Mercado. Cerveja sem álcool, pipoca... Pensar em alguma coisa para o almoço de sexta. São os melhores dias do mês... Pensar em quais coisas vou fazer, algum agrado.
O carro anda rápido na estrada. Trânsito tranquilo. A fome vai apertando. Faltam 50 km e já são mais de onze horas. Melhor parar. Muito tempo sem comer.
Para em um posto de gasolina que tem um restaurante. Cansada de comer fora de casa, querendo uma comida caseira. Sempre lembro do almoço no passeio para a caverna, há alguns anos atrás... Uma das refeições mais saborosas que já comi fora de casa. Sorrio sozinha relembrando este passeio. Nosso segundo encontro. Tanta coisa aconteceu desde lá.
O buffet está posto. Nada me chama a atenção. Um pouco de carne, uma salada. Tenho pressa em voltar pra casa.
Estou novamente na estrada. O pior pedaço da viagem. Atravessar a cidade até chegar em casa. Trânsito do horário do almoço.
Enfim, contorno o quarteirão e entro com o carro na garagem. Moro em um condomínio de apartamentos, bairro residencial. Torres altas, apartamentos pequenos mas confortáveis. Ainda é alugado. Estamos nos organizando para comprar um imóvel nosso.
Subo pelas escadas. Nunca tenho paciência para o elevador. A mala parece mais pesada que o costume. Cansaço.
Procuro as chaves na bolsa, já na porta de casa. Sempre brigamos por conta disso. A bolsa enorme, mil coisas espalhadas. Sempre custo a achar...
Finalmente, acho a chave. Mando uma mensagem pra ele dizendo que cheguei. Pelo horário, ele deve estar descansando. Daqui a pouco visualiza.
O apartamento é pequeno. Tem uma cozinha projetada, preta e cinza. Fogão sobre a bancada, forno e micro-ondas sobre o armário. Geladeira grande. Um balcão com bancos altos. Ao fundo, uma pequena área de serviço separada por uma porta de vidro. Máquina de lavar, secadora, um varal de teto.
A sala é razoavelmente grande. Um sofá reclinável grande, cinza. TV na parede, nada de rack. Decidimos não investir muito em móveis já que pretendemos nos mudar para um lugar definitivo, nosso. Uma mesa redonda com 4 cadeiras, que serve tanto como mesa de jantar, quanto de escritório quando estou em home office.
O apartamento cheira a limpeza. Sempre programo uma faxina para a véspera da minha chegada, deixo uma chave extra com a empresa e pronto. No começo fiquei receosa de ter uma pessoa estranha em casa na nossa ausência, mas serviços domésticos nunca foram meu forte. Ele sabe disso, também acha que eu não preciso me matar lavando um banheiro. Nosso tempo juntos é muito precioso. Nada de tarefas enfadonhas.
Sempre abro a geladeira quando chego. Receio de alguma coisa ter dado errada na minha ausência. Alguma falta de energia, algum problema na geladeira... Checo e está tudo ok.
Entro checando os outros cômodos. O apartamento, embora não seja muito grande, tem três quartos e dois banheiros, sendo um privativo do nosso quarto.
Um dos quartos tem as coisas do meu filho, que estuda em outra cidade. Vem em casa uma vez por mês, e eu vou visitá-lo também uma vez por mês. As coisas da minha mãe também estão neste quarto. Atualmente ela se divide entre a minha casa e a casa dos meus irmãos. Está no paraíso por estar perto de todos depois de tanto tempo.
O outro quarto é dos filhos dele. Eventualmente algum deles vem passar o final de semana conosco. Ou quando precisam resolver alguma coisa na cidade. O mais velho tem a chave. Mesmo quando não estamos em casa, se ele precisa, ele vem.
E o nosso quarto. Nosso lugar preferido. No começo, uma discussão sobre a TV. Eu não queria uma no quarto, mas ele insistiu. Acho que tira o foco do casal, mas acabou que passamos a assistir filmes e séries juntos, aproveitando todos os momentos possíveis.
Tomo um banho pra me livrar do cansaço da viagem. Ainda tenho muito o que fazer. Saio do banheiro enrolada na toalha.
Checo os e-mails pelo celular. Nada de urgente. Olho nossa conversa, ele ainda não acordou. Logo vê.
Separo as roupas sujas da mala. Levo as minhas hoje, e na sexta, quando for buscar, deixo as dele.
Ele responde minha mensagem. Sorrio sozinha de novo... A véspera da sua chegada sempre é muito difícil pra mim. Misto de alegria com o retorno, preocupação com os deslocamentos. Afasto os pensamentos negativos. Ele está me ligando por uma vídeo chamada.
Nos vemos. Todos os dias neste horário temos essa chamada de vídeo. Faço sempre de tudo pra não deixar de acontecer. Nem que seja breve, só um aceno e um beijo. Mas é nosso trato: todos os dias, pelo menos uma vez, a gente se ver. Há anos cultivamos isso.
Ele sorri ao me ver. Meu coração se enche de alegria. Tem sido assim há muito tempo, e a sensação de felicidade nunca muda.
Ele fala um pouco sobre seu dia, eu falo da viagem. Ele confirma o desembarque amanhã, e eu fico de enviar o voucher da passagem. Eu faço as compras das passagens dele para embarque e desembarque e embora no dia de ir eu sempre envie os arquivos para ele, ele nunca acha quando precisa. Já estou acostumada.
Ele repara que estou só de toalha. Pede pra me ver. Está sozinho no camarote. Eu apoio o celular sobre a cama, ajusto a câmera para que eu fique visível. Me sento de frente para o telefone. Ele gosta quando eu faço isso. Estou com saudades dele, faz duas semanas desde a última noite juntos. Essa brincadeira já me excita.
Ele diz que vai tomar um banho. É sempre nosso momento. Ele vai para o banheiro. Eu estou aguardando por ele pacientemente. Sei que vamos ter momentos gostosos.
Ele liga novamente a câmera. Agora é a vez dele dar as ordens. Pede que eu tire a toalha que envolve meu corpo. Sabe que estou nua por baixo dela. Ele se excita ao me ver. Meu corpo reage mais ainda. Pede que eu afaste os cabelos, quer ver meus seios... Toco levemente com as mãos meus mamilos. Ele se toca também. São momentos assim que nos mantém com tesão um no outro. A provocação, o desejo de ver e tocar o outro, a saudade. Ele fala coisas que eu gosto de ouvir. Sabe o quanto isso me excita. Passo a me tocar com mais intensidade, em outras partes do meu corpo.
Estou com saudades do seu toque em mim. Enquanto ele fala o que pretende fazer quando nos encontrarmos, eu imagino nossos corpos juntos. É muito forte a ligação que temos, principalmente na cama. Perto ou longe.
A brincadeira esquenta. Sempre demoro um pouco mais pra me satisfazer. Ele sabe disso. É paciente e dedicado, mesmo que virtualmente. Me conduz ao meu prazer. Me observa enquanto atinjo o ápice. Sorri satisfeito. Agora se dedica ao próprio prazer. E eu que observo. A saudade é grande. Mas amanhã logo chega.
Hora de voltar ao trabalho. Ele toma um banho pra acalmar o corpo. Deixa o telefone posicionado de forma que eu posso continuar a vê-lo. Termina o banho. Nos despedimos com beijos virtuais. Menos de  30 horas e vamos estar juntos novamente. Daqui a pouco nos falamos mais.
Volto para o chuveiro. Leve. Essa rotina do carinho virtual nos faz bem. Termino o banho e agora me visto. Vamos aos afazeres.

Amanhã eu continuo!










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