sábado, 18 de abril de 2020

Divã


     Não tem como fugir mais. A porta se abre e o mesmo sorriso de agora a pouco estende a mão e me cumprimenta. Tenho certeza que estou com as mãos frias e suadas. Bom, ele já deve estar acostumado.
     Decepcionada. Esperava um divã como nos filmes. Um senhor de aparência séria, talvez uma barba. Mas o que encontro é um consultório com um sofá. Uma poltrona elegante, uma mesa com um Mac book, uma impressora sobre um banco. Uma janela. Nem sei o que tem na paisagem. Uma mesinha de canto. Uma caixa de madeira.
     Na parede, uma pintura meio triste. Olho de relance. Me lembra Van Gogh. Não  ten certeza. O doutor está sorrindo à minha frente. Talvez com fome... Afinal, quase hora do almoço para uns.
     Ele me encara. Penso na minha aparência. Devia ter me vestido melhor. Sempre penso nisso. Sou relapsa com a aparência. Lembro dele me falando que iria me ajudar a mudar meu estilo. Que estilo?
     Enfim, tenho que começar. Olho pra ele mais uma vez. As mãos estão retorcidas no colo. Preciso relaxar, pra não parecer pior do que estou me sentindo. O doutor pergunta sobre mim. Quem é você?
     Reflito um momento: quem sou eu? Faço a clássica apresentação. Nome, idade (quase 40 anos...). Casada, mãe de um jovem de 12 anos, filho único. Penso no bebê que perdi. Respiro e volto a falar. Engenheira (sempre me orgulho disso. Veio a lembrança o vestibular e qual curso escolher). Gerente. De outro estado, 15 anos morando aqui. Já  me sinto nativa. Mas penso que sinto falta do meu lugar, da minha terra. Penso nele. Talvez seja por isso.
     Paro de falar. O doutor me olha sem reação. Não gosto disso. Gosto de saber o que as pessoas pensam enquanto falo. Suas reações me mostram se devo falar mais ou parar. Não consigo ler o que se passa ali. Ele sorri novamente. Começo a ficar com raiva desse sorriso complacente. E de repente, a pergunta que eu sabia que era inevitável: por que você está aqui?
     Paro. Penso nele de novo. Por que foi que eu me comprometi com essa loucura. Concordar em procurar um psiquiatra... Eu não preciso disso. Eu prometi. Lembrei do texto que ele insistiu que eu escrevesse caso não conseguisse falar. A garganta aperta. Olho na direção do quadro. Tenho quase certeza que é Van Gogh. Não tem jeito.
     Abro a boca e as palavras custam a sair. Começo reclamando do cansaço e do desânimo. Pode ser falta de vitamina. Nem devia ter vindo. Falo do sono, da dificuldade de conseguir continuar a dormir. Acordo todas as madrugadas. Acordada por horas. Amanheço exausta. Mas é só preocupação. Quem não sofre disso hoje em dia?
     Lembro do meu filho. E do esforço que faço pra interagir com ele. Adolescentes são difíceis mesmo. Mas ele é tão bonzinho. Me sinto culpada. Culpa. Sempre me sinto assim. Lembro do marido. Da falta de interesse. Não vou falar sobre isso. Falo sobre a troca de emprego. Da angústia de se sentir menosprezada e diminuída. Lembro da vontade de jogar o carro contra a mureta. Só cansaço. Isso não é nada.
     Continuo falando. Ele pergunta alguma coisa sobre a minha infância. Lembro do meu pai. Sempre fico com raiva quando lembro dele. Deixou as responsabilidades dele pra mim. Podia ter sido diferente.
     Falo muito. De repente, estou chorando. Incontrolavelmente. Sinto vergonha. Ele me olha com empatia. Abre a caixa de madeira ao lado da poltrona e tira uma caixa de lenços descartáveis. Já está acostumado com essas cenas. Estou péssima. Detesto parecer vulnerável.
     O mundo desaba. Falo da solidão. Da falta de desejo, da falta de entusiasmo. Não paro de falar. Eventualmente ele anota alguma coisa. Continuo falando.
     Falo sem medo agora. Não tem jeito mesmo. Falo do psicólogo. Não me senti nada à vontade. Ele disse que às vezes acontece. Falo da proposta de emprego que não fui. Falo da viagem frustrada de aniversário de casamento. Não falo nada sobre ele. Foi uma decisão nossa. Abri o jogo com o psicólogo e me senti julgada. É muito difícil alguém entender nosso envolvimento. Melhor não.
     Chego na véspera do ano novo. Relembro a cena com muitos detalhes. Estou preparando uma salada de frutas. A vontade de chorar cada vez maior. Estou sozinha. O marido ainda está no trabalho. Filho e mãe viajando. As lágrimas caem. Entre morangos e kiwis.
     Olho para a faca. Choro. Penso mais uma vez em como as coisas estão difíceis pra mim. Penso no emprego que tive que abrir mão. Eu ficaria mais próxima dele. Sei que ficou decepcionado por eu não ir. Mas ele nunca fala nada pra me influenciar. Muitas vezes tenho raiva disso. Lembro da viagem mês passado. Do tormento do sexo sem vontade de novo. Fingi tanta coisa nos últimos tempos. Lembrei do dia no restaurante. Como fui humilhada. Lembrei de quando ele fingiu ser outra pessoa. Primeiro o medo, depois a desconfiança. Por fim a decepção. Depois a raiva, a dúvida. A mágoa. Pensei no meu filho. Ainda bem que estava longe. Não ia ver nada.
     Olho para a faca mais uma vez. Meus pulsos. Tão próximos dela. Encosto a faca fria no braço. Será que demora muito pra o sangue se esvair? Me vejo deitada no chão. Uma poça de sangue. Muito sangue. Gosto da cozinha. Ainda bem que vai ser fácil de limpar. Quanto tempo demora pra morrer? Olho para o relógio sob o balcão. Só tenho 40 minutos antes dele chegar. Será que dá tempo? Não quero ser socorrida. Já chega. Não quero mais. Penso nele. Os olhos ardendo de tanto chorar. Vai sentir minha falta? Vai se culpar? Penso no meu filho de novo. O que vão dizer a ele? Paro a faca. Jogo na pia. Sento no chão da cozinha e choro. Contei tudo. Ou quase tudo. O doutor continua me olhando complacente. Me acalmo. Paro de chorar.
     Ele começa a falar...





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