De fato era van Gogh.. Hoje sei. E na verdade, até tenho um leve afeto por ele. Van Gogh sofreu muito na vida com distúrbios psicológicos... E não que eu os tenha, mas uma frase dele, em uma carta para seu irmão, me fez mais próxima do artista:
“Não consigo descrever exatamente o que se passa comigo; ora tenho acessos horríveis de ansiedade, aparentemente sem causa, ora uma sensação de vazio e cansaço na cabeça … e, por vezes, tenho ataques de melancolia e de remorso atroz.”
Talvez se eu soubesse disso antes, teria ido mais tranquila à primeira consulta... Mas não fui preparada para o que iria ouvir.
Ele continua me olhando. Tenho a impressão que ele pisca mais lento que o normal. Isso me dá uma sensação estranha, uma vontade de rir. Mas me controlo. Um ataque de risos ali seria um carimbo para o sanatório. Continuo nervosa. Sinto o telefone vibrando o tempo inteiro na bolsa. Preciso lembrar de desligar o telefone na próxima vez. Que próxima vez? Não pretendo voltar nunca mais ali.
Ele fala. Pausadamente. Isso me irrita. Gosto das coisas rápidas, sem perda de tempo. Começa a dizer que eu tenho alguns traços obssessivos-compulsivos com relação ao trabalho e à minha profissão. Ele é louco? Só porque eu disse que queria ser engenheira pelo status? Só porque fico angustiada de não ser a melhor? Só porque me cobro absurdamente em dar o meu melhor no trabalho? Que perco o sono pensando na melhor forma de fazer as coisas? Porque tenho dificuldades em delegar atribuições por achar que não ficarão bem feitas? Só porque... Só porque... Bom.
Ele continua lentamente. Parece que está processando as informações que recebeu em um computador muito antigo, esperando os dados para a resposta. Isso me enlouquece. Quer dizer, me irrita. Não estou louca.
Está dizendo alguma coisa diferente, mas perdi o início porque estava brigando com a informação anterior. Consigo pegar o fio novamente. Está falando da ansiedade... Mas o termo obssessivo-compulsivo não sai da minha cabeça... Quem ele pensa que é?
Tento me concentrar novamente no que ele fala. A vontade de chorar volta. Ele me explica que os quadros de ansiedade que eu relatei são muito severos: dificuldade de respirar, mãos formigando, coração acelerado, sensação de eminente tragédia. Isso me cerca o tempo todo. Diz que a terapia costuma ajudar, mas que no meu caso parece que não surtiu efeito. Me lembro do psicólogo. Não me acrescentou nada. Me julgava. Via no seu olhar...
Daí ele vem com a pior parte. Você está com vários sintomas associados à depressão. Opa? Como assim? Não é cansaço? Ansiedade? Tristeza? Isso não é depressão. Depressão nem existe, é coisa de mente vazia, pessoas sem amor próprio. Eu não tenho depressão.
Acho que ele percebe meu olhar de espanto. Começa a me explicar lentamente sobre o princípio da depressão: uma doença física, a falta de alguma coisa no seu cérebro. Alguns gatilhos que podem desencadear, o fator hereditário (lembro na hora dos meus irmãos, acho que todos têm os mesmos traços que eu. Talvez meu pai também). Com bastante calma, ele vai me dizendo de outras implicações da doença que eu não havia nem tocado no assunto.
Ele fala sobre as relações conjugais, sempre abaladas nos quadros de depressão. Fala da perda da memória, coisa que sempre me assustou quando percebi. Falou da impulsividade, do sentimento de culpa o tempo todo. O fato de tentar fingir emoções para não chamar a atenção das pessoas ao redor. Fico em choque. Sem saber o que pensar.
Enfim, não tenho como fugir deste diagnóstico. Lembro dele novamente. Da crescente preocupação pela minha situação. Das vezes que chorei com ele, angustiada com a minha situação. Lembro das vezes que ele pediu pra eu falar o que estava sentindo, sem esconder nada. E da sua insistência em dizer que eu precisava de ajuda. Até chegar ao ponto dele dizer que eu estava depressiva, e precisava de ajuda urgente. Agradeço pela insistência. Mais uma vez ele tem razão. Mesmo longe, soube reconhecer que eu não estava bem. E quem estava o tempo todo ao meu lado, nunca percebeu. É só cansaço.
O doutor se levanta da sua poltrona e vai para a sua mesa. Começa a me dizer sobre as linhas de tratamento que poderíamos adotar. Eu posso escolher a psicoterapia. Tem efeitos à médio e longo prazo. Tem uma dependência com a interação do paciente com o terapeuta. Lembro de novo do psicólogo. Isso não vai prestar.
Mas tenho outra opção. Entrar com medicação. Tudo o que eu estava disposta a não fazer quando entrei nessa sala. Os resultados vêm mais rápido. Com quinze dias já se espera alguma melhora. Vai ajudar rapidamente no sono.
A escolha é totalmente minha. Porque é necessário que eu concorde com o tratamento. Esteja ciente de tudo. E sobretudo, disposta. Respondo que sim. Sem pensar, impulsiva como sempre. Se estou doente, não quero arrastar isso.
Ele me olha calado um tempo. Como se avaliasse se eu realmente ouvi o que ele me disse. Enfim, começa a escrever no computador.
Um remédio pra dormir. Próximo ao horário habitual que me deito. Um remédio pra depressão. Uma dose inicial baixa, durante uma semana. Observar as reações. Dobrar a dosagem com sete dias e com quatorze voltar para avaliação.
Me lembro da viagem marcada para a próxima semana. Só eu e marido. Zero empolgada para isso. Ele me explica que não é o melhor momento pra isso. Que não estou bem, e não devo fazer nada que não tenha vontade. E outra viagem no final do mês. Ele olha preocupado. Pede que eu converse com meu marido e explique tudo. Não seria o momento ideal pra essas mudanças de rotina. Mas não tenho como desmarcar. Então, paciência.
Ele pergunta se quero me afastar do trabalho uns dias. Disse a ele que estava postergando muitas coisas no dia a dia, comprometendo meu desempenho na empresa e estava preocupada com isso. Mas não podia me ausentar agora. Tenho uma cirurgia para daqui a menos de dois meses. Preciso trabalhar.
Traz umas amostras do remédio da depressão e me dá. Fico triste com isso. Não pensei que sairia dali com esse diagnóstico e com duas caixas de remédio. Olho para o medicamento. Pelo menos não têm uma tarja preta na caixa. E não é Rivotril...
Ele se levanta. Disse que estaria a disposição. Estende a mão e me dá um abraço. Acho o gesto meio estranho. Mas retribuo. Marque o retorno com a secretária. Eu só concordo com a cabeça e saio.
Saio da sala com as pernas meio doloridas. Talvez o sofá baixo, talvez a tensão acumulada. A secretária continua tentando tirar a tinta dos dedos... Meu Deus... Passe álcool, minha filha. Tenho vontade de dizer. Ela marca o retorno. Depois da primeira viagem. Pego o telefone e me surpreendo: passei uma hora e meia falando com ele.
Caixa de remédio na mão, na outra duas receitas de medicamentos controlados. A cabeça a mil. Sinto fome. Essa nunca me abandona.
Tem um restaurante do outro lado da rua. Preciso falar com ele. Sempre preciso. Vai ser uma conversa longa. Vou almoçar.
“Não consigo descrever exatamente o que se passa comigo; ora tenho acessos horríveis de ansiedade, aparentemente sem causa, ora uma sensação de vazio e cansaço na cabeça … e, por vezes, tenho ataques de melancolia e de remorso atroz.”
Talvez se eu soubesse disso antes, teria ido mais tranquila à primeira consulta... Mas não fui preparada para o que iria ouvir.
Ele continua me olhando. Tenho a impressão que ele pisca mais lento que o normal. Isso me dá uma sensação estranha, uma vontade de rir. Mas me controlo. Um ataque de risos ali seria um carimbo para o sanatório. Continuo nervosa. Sinto o telefone vibrando o tempo inteiro na bolsa. Preciso lembrar de desligar o telefone na próxima vez. Que próxima vez? Não pretendo voltar nunca mais ali.
Ele fala. Pausadamente. Isso me irrita. Gosto das coisas rápidas, sem perda de tempo. Começa a dizer que eu tenho alguns traços obssessivos-compulsivos com relação ao trabalho e à minha profissão. Ele é louco? Só porque eu disse que queria ser engenheira pelo status? Só porque fico angustiada de não ser a melhor? Só porque me cobro absurdamente em dar o meu melhor no trabalho? Que perco o sono pensando na melhor forma de fazer as coisas? Porque tenho dificuldades em delegar atribuições por achar que não ficarão bem feitas? Só porque... Só porque... Bom.
Ele continua lentamente. Parece que está processando as informações que recebeu em um computador muito antigo, esperando os dados para a resposta. Isso me enlouquece. Quer dizer, me irrita. Não estou louca.
Está dizendo alguma coisa diferente, mas perdi o início porque estava brigando com a informação anterior. Consigo pegar o fio novamente. Está falando da ansiedade... Mas o termo obssessivo-compulsivo não sai da minha cabeça... Quem ele pensa que é?
Tento me concentrar novamente no que ele fala. A vontade de chorar volta. Ele me explica que os quadros de ansiedade que eu relatei são muito severos: dificuldade de respirar, mãos formigando, coração acelerado, sensação de eminente tragédia. Isso me cerca o tempo todo. Diz que a terapia costuma ajudar, mas que no meu caso parece que não surtiu efeito. Me lembro do psicólogo. Não me acrescentou nada. Me julgava. Via no seu olhar...
Daí ele vem com a pior parte. Você está com vários sintomas associados à depressão. Opa? Como assim? Não é cansaço? Ansiedade? Tristeza? Isso não é depressão. Depressão nem existe, é coisa de mente vazia, pessoas sem amor próprio. Eu não tenho depressão.
Acho que ele percebe meu olhar de espanto. Começa a me explicar lentamente sobre o princípio da depressão: uma doença física, a falta de alguma coisa no seu cérebro. Alguns gatilhos que podem desencadear, o fator hereditário (lembro na hora dos meus irmãos, acho que todos têm os mesmos traços que eu. Talvez meu pai também). Com bastante calma, ele vai me dizendo de outras implicações da doença que eu não havia nem tocado no assunto.
Ele fala sobre as relações conjugais, sempre abaladas nos quadros de depressão. Fala da perda da memória, coisa que sempre me assustou quando percebi. Falou da impulsividade, do sentimento de culpa o tempo todo. O fato de tentar fingir emoções para não chamar a atenção das pessoas ao redor. Fico em choque. Sem saber o que pensar.
Enfim, não tenho como fugir deste diagnóstico. Lembro dele novamente. Da crescente preocupação pela minha situação. Das vezes que chorei com ele, angustiada com a minha situação. Lembro das vezes que ele pediu pra eu falar o que estava sentindo, sem esconder nada. E da sua insistência em dizer que eu precisava de ajuda. Até chegar ao ponto dele dizer que eu estava depressiva, e precisava de ajuda urgente. Agradeço pela insistência. Mais uma vez ele tem razão. Mesmo longe, soube reconhecer que eu não estava bem. E quem estava o tempo todo ao meu lado, nunca percebeu. É só cansaço.
O doutor se levanta da sua poltrona e vai para a sua mesa. Começa a me dizer sobre as linhas de tratamento que poderíamos adotar. Eu posso escolher a psicoterapia. Tem efeitos à médio e longo prazo. Tem uma dependência com a interação do paciente com o terapeuta. Lembro de novo do psicólogo. Isso não vai prestar.
Mas tenho outra opção. Entrar com medicação. Tudo o que eu estava disposta a não fazer quando entrei nessa sala. Os resultados vêm mais rápido. Com quinze dias já se espera alguma melhora. Vai ajudar rapidamente no sono.
A escolha é totalmente minha. Porque é necessário que eu concorde com o tratamento. Esteja ciente de tudo. E sobretudo, disposta. Respondo que sim. Sem pensar, impulsiva como sempre. Se estou doente, não quero arrastar isso.
Ele me olha calado um tempo. Como se avaliasse se eu realmente ouvi o que ele me disse. Enfim, começa a escrever no computador.
Um remédio pra dormir. Próximo ao horário habitual que me deito. Um remédio pra depressão. Uma dose inicial baixa, durante uma semana. Observar as reações. Dobrar a dosagem com sete dias e com quatorze voltar para avaliação.
Me lembro da viagem marcada para a próxima semana. Só eu e marido. Zero empolgada para isso. Ele me explica que não é o melhor momento pra isso. Que não estou bem, e não devo fazer nada que não tenha vontade. E outra viagem no final do mês. Ele olha preocupado. Pede que eu converse com meu marido e explique tudo. Não seria o momento ideal pra essas mudanças de rotina. Mas não tenho como desmarcar. Então, paciência.
Ele pergunta se quero me afastar do trabalho uns dias. Disse a ele que estava postergando muitas coisas no dia a dia, comprometendo meu desempenho na empresa e estava preocupada com isso. Mas não podia me ausentar agora. Tenho uma cirurgia para daqui a menos de dois meses. Preciso trabalhar.
Traz umas amostras do remédio da depressão e me dá. Fico triste com isso. Não pensei que sairia dali com esse diagnóstico e com duas caixas de remédio. Olho para o medicamento. Pelo menos não têm uma tarja preta na caixa. E não é Rivotril...
Ele se levanta. Disse que estaria a disposição. Estende a mão e me dá um abraço. Acho o gesto meio estranho. Mas retribuo. Marque o retorno com a secretária. Eu só concordo com a cabeça e saio.
Saio da sala com as pernas meio doloridas. Talvez o sofá baixo, talvez a tensão acumulada. A secretária continua tentando tirar a tinta dos dedos... Meu Deus... Passe álcool, minha filha. Tenho vontade de dizer. Ela marca o retorno. Depois da primeira viagem. Pego o telefone e me surpreendo: passei uma hora e meia falando com ele.
Caixa de remédio na mão, na outra duas receitas de medicamentos controlados. A cabeça a mil. Sinto fome. Essa nunca me abandona.
Tem um restaurante do outro lado da rua. Preciso falar com ele. Sempre preciso. Vai ser uma conversa longa. Vou almoçar.

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