domingo, 26 de abril de 2020

Mente sã, corpo são.

Então, o inverso também deve ser verdadeiro. Nas ciências exatas, grandezas diretamente proporcionais.
Difícil é dizer quem comanda o quê. Porque não sei mais se meu corpo está doente porque minha mente está doente, ou se minha mente adoeceu porque meu corpo não está bem.
Tomo o remédio e vou dormir. Um amigo médico me disse que é um indutor do sono. Não te mantém dormindo. Te faz dormir. Eu já havia descoberto isso.
Acordo por volta das 02:30h. Virou um hábito. Vou ao banheiro. Tenho sede também. Bebo o resto da água da garrafa sobre a cômoda. Foi meu erro.
O celular está aceso. Isso me incomoda. Desbloqueio a tela e vejo: whatsapp fazendo donwload. Vejo sua última mensagem. Pergunta se já vou dormir. Fico triste por não ter respondido. Não gosto de dormir sem me despedir. Mas agora é tarde. Literalmente.
Volto pra cama. Sinto uma dor de cabeça começando, bem longe. Penso em tomar um remédio logo. Tomei a água toda. Agora já era. Abrir a porta do quarto está fora de cogitação. Voltou a fazer barulho. Isso me irrita muito. Acorda a casa toda se for abrir. Porque ele demora tanto para resolver essas coisas simples? Tento dormir. Felizmente o sono vem logo. Ou infelizmente.
Tenho sonhos estranhos. Momentos agradáveis entre amigos. Dificuldade em me mover. Um sonho que vem se repetindo. Lembro que tenho que falar sobre isso com o psiquiatra. As pernas não me obedecem no sonho. Pequenas distâncias são um  martírio pra percorrer. Sonho com duas mulheres sendo abusadas por um jacaré em miniatura, que está dentro do corpo delas. Há sangue e dor. Sonhos são estranhos.
A cabeça começa a doer mais. Acordo. Me mexo. Ele está ressonando tão alto. Não chega a ser um ronco. Mas incomoda. Me deito para os pés da cama. Muito comum também. Sempre faço isso. Ele já se acostumou.
Volto a dormir. Sonho com um elevador. Engraçado. Sonho bastante com elevadores. Não sei o que isso significa. Normalmente não consigo chegar ao andar que quero. Há muita gente dentro do elevador.
A dor na cabeça me acorda. Os olhos doem. A sensação é que estão empurrando seus olhos pra dentro. A testa dói também. A parte da frente da cabeça. A dor é pulsante. Acompanha as batidas do meu coração.
Está amanhecendo. Que droga, quando vamos colocar uma cortina neste quarto? Só depois do gesso, ele sempre responde. Porque eu sou tão passiva com essas coisas?
A claridade começa a me incomodar muito. Viro de lado, de costas para a janela. Mas isso faz meus seios doerem. Reflexo da cirurgia ainda.
Deito de costas. Coloco o braço sobre os olhos. Porque fui beber a água toda?Penso em tomar  o remédio com a água da torneira.
Cochilo um pouco.
Acordo de novo com a dor de cabeça mais forte ainda. O braço sobre os olhos está incomodando. A pressão sobre eles gera imagens estranhas dentro do meu cérebro. Preciso tirar o braço dos olhos. Não consigo.
De repente, me dei conta que estou imóvel.
Ouço a respiração dele do outro lado da cama. O ar condicionado está ligado. Arma e desarma pela oscilação da temperatura. Um carro passa na rua.
E eu não consigo me mexer. Acho que é coisa da minha cabeça. Preciso tirar o braço dos olhos. Está doendo.
Ouço o sangue passando por alguma veia perto dos meus ouvidos. O som é alto. Faz minha cabeça doer mais.
Preciso me mexer. Fico com medo. O coração acelera e o som do sangue aumenta.
O braço pesa. De repente, sinto minha boca formigando. Dormente. Somente o lado esquerdo. Agora minha mão esquerda. Meu pé. Só o lado esquerdo. Penso em um derrame. Não sei. A cabeça dói absurdamente. Preciso chamá-lo. Não consigo me mover.
Tento relaxar o corpo. E a cada tentativa, meu corpo se contrai mais. Os dedos das mãos, lentamente estão se fechando. Um por um. Uma mão sobre o rosto. A outra sobre a barriga. Os dedos doem de tanto se contraírem. Eu simplesmente não consigo me mexer.
As mãos, agora completamente fechadas. A cabeça latejando de dor. E eu não me mexo. Nenhum centímetro do meu corpo se mexe.
A boca extremamente seca. Eu preciso sair disso.
Penso nele. No Anjo. Ele pediu que eu acendesse uma vela para meu anjo da guarda. Não tive como fazer isso. Penso nele de novo. Preciso sair disso.
Rezo. Ele sempre me pergunta se eu rezei. Rezo. Peço a Deus que me ajude. Tento chamar marido que dorme profundamente ao meu lado.
Continuo rezando. Consigo afastar a perna, toco no travesseiro dele. Ele está tão distante. Que droga. Sempre dorme perto de mim. Hoje parece que a cama é muito maior do que é realmente. Não consigo emitir nenhum som.
A cabeça está me enlouquecendo. Sinto enjoo. Se eu vomitar aqui vou morrer sufocada. Ninguém vai ver.
As lágrimas escorrem pelos meus olhos. Movimento a perna mas ele não acorda. A força que faço pra isso faz minha cabeça doer mais ainda. Me esforço mais. Senhor, me ajude. Começo a gemer. Bato a perna nele. O braço sobre os olhos, não consigo engolir a saliva que se acumula na minha garganta. Acho que agora vou morrer.
Penso no Anjo. Rezo de novo. Finalmente ele se acorda.
Pergunta o que está acontecendo. Eu não consigo falar. As lágrimas escorrem. Eu peço no meu pensamento pra ele tirar o meu braço dos meus olhos. Ele percebe minhas mãos contraídas. Me abraça. Idiota.. eu grito no meu pensamento. Estou sufocando, não me abrace, solte meus braços. Ele não sabe o que fazer. Coloca o seu braço sobre o meu na minha barriga. Eu só consigo chorar. Agora mal consigo respirar e ele não percebe. Só piora.
Enfim ele percebe. Tira meus braços do lugar. Estão tão tensos que dói. Tenta abrir minhas mãos. O corpo está se soltando. Está passando. Ainda não consigo falar.
Penso que preciso ir para um hospital. A cabeça está insuportável. Os mínimos sons doem profundamente na minha cabeça.
Já tive algumas crises de enxaqueca. Já me senti paralisada assim antes. Mas não tudo junto.
Preciso parar. Vou falar com o psiquiatra. Mas se ele me afastar das minhas atividades, acabou minha carreira. Ninguém quer uma gerente com problemas psicológicos. E se eu ficar em casa, minha família vai ficar apavorada.
Consigo dizer pra ele que estou com dor de cabeça. Ele não quer me dar o remédio porque estou de estômago vazio. Eu insisto. Ele vai buscar água. Quando abre a porta, quase morro com o barulho. Que ódio dessa porta.
Não sei mais o que pensar. Estou doente. Só não sei se do corpo, da mente ou do espírito. Ou de tudo junto.
Penso no Anjo. De longe, me ajudando. Mas se eu estivesse sozinha, teria saído disso?
O medo. Sempre o medo ao meu redor. Estou perdendo a razão. A noção e o bom senso. Não consigo mais me manter sã. Estou apavorada.
Muito.
Eu penso na paz que preciso. O remédio começa a fazer efeito. Fecho os olhos novamente. Não quero abrir mais.


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