Ele. Me chamava de meu anjo. Foi amor a primeira vista, embora eu não me lembre disso. Mas foi. Não tinha como ser diferente. Corpo e alma. Em um encontro que só se vive uma vez na vida.
Angel. Vou chamá-lo assim agora. Na época não me lembro de apelidos amorosos. Era a pressa em viver.
Uma troca de olhar. Cumplicidade instantânea. Entrosamento no trabalho. Gosto de estar perto dele. O tempo todo, procuramos motivos pra isso.
Sei pouco sobre ele. Até hoje é assim. Ele sabe tudo sobre mim. Do lado brilhante ao obscuro. E mesmo assim permanece ao meu lado.
Sou boa com idades. Uns 5 anos mais velho que eu. Eu tenho 18. Ele já é casado. Pai. Apesar de tudo, a atração é inegável. Estou saindo do meu primeiro relacionamento. Primeiro em tudo. Não sei ainda lidar muito bem com as questões do coração. Nem com as do corpo. Mas reconheço a tensão sexual entre nós dois. Da pra tocar, de tão densa.
Sou atrevida. Não sei fingir que não quero. Procuro por ele sempre que posso. Sei que ele gosta da atenção. Conversamos muito. Também sou boa nisso. Gosto de falar. Ele gosta de ouvir. Parceria perfeita.
Não me lembro como ele foi parar na minha cama. Mas foi. Várias vezes. Em qualquer lugar. Qualquer mesmo.
O encontro no sexo é intenso. Deixa marcas. Não no corpo. Na alma. Ele me completa. Não sei explicar o que nos une.
Cumplicidade. Olhares durante o dia
Espera pelos momentos a sós. Meu corpo reage à presença dele, sei que ele também sente isso. Percebo. Não tem como esconder.
Mas vai além do sexo. Seu olhar no meu me mostra isso. Sensação de segurança. Conforto. No seu abraço, nada de ruim vai me acontecer.
O tempo passa. Preciso ir embora. Será que volto? Como deixar pra trás um sentimento assim.
Notícias boas. Vou voltar. Vai demorar um tempo ainda, alguns meses, mas vai acontecer.
Nesse tempo, um telefonema. Surpresa. Não havíamos nos falado até então. Uma notícia, um choque. Vai ter outro filho. Como assim? O casamento não estava por um fio?
Desligo e choro. Muito. Pela noite a fora. Sozinha. Tudo em vão. Caí no velho golpe do casamento acabado, e agora ele vai ser pai novamente. Sentimento de vergonha, por ter acreditado nisso. Achei que era amor.
O tempo passa. Oportunidade de ir até ele. Não dá pra resistir. É inverno. Fomos até a praia. Nosso gosto por sexo em lugares públicos não passa. É surreal. De cinema. Intenso.
Hora de ir embora de novo. Congela o tempo. Esquece os problemas.
Sempre o tempo. Melhor remédio. Voltar para o mundo real. Deixar de pensar.
De novo o tempo. Estou de volta. Cara a cara, como se o próprio tempo não passasse. Não tem como evitar. Ele está na minha cama novamente.
Amor. Não sei bem identificar. Mas ele cuida de mim. Amor deve ser isso. Ele se preocupa. Quer que eu cuide de mim. Não entendo muito bem isso. Talvez minha aparência o incomode. Não sei.
De repente, tudo muda. Sua família, antes somente uma referência, agora está perto. Meu coração está aos pedaços. Não sei se ele sofre também. Fico ao lado de fora, escondida na sombra de uma árvore. Olho através da janela. Ele está lá com ela. Dói.
Só que não conseguimos evitar. Talvez as pessoas já tenham percebido. Nem ligo pra isso.
Um dia como outro. Acho que um final de semana. De repente, os vejo na rua. Choque. Tristeza. Realidade. Volto pro meu lugar.
Seu filho adoece. Dias e dias sem notícias suas. Primeira vez que me senti atordoada com a sua ausência. Preocupação. Sentimento de culpa. Medo.
As coisas se acalmam. Nosso coração perto demais um do outro. Não dá pra negar. Amo. O que faço com isso?
Um golpe duro. Demitida. Não penso em nada, a não ser na vida sem a sua presença. Desespero e desesperança. Pra onde vou? O que fazer sem meu Angel.
Os últimos dias são um pesadelo em câmera lenta. Uma despedida a cada segundo. Nossos corações sofrem. É o fim. Ele não me pede pra ficar. Eu não peço pra ele vir comigo. Nossas vidas sempre vão correr em paralelo. Não se cruzam. Caminham juntas.
Eu vou embora. Vazia. Meu coração ficou. Perdi o rumo da vida. O sabor do amor. Vão ser anos de tristeza. Talvez se eu tivesse lutado mais.
Não sou o seu destino. Ele não é o meu. Vai ficar pra sempre no meu coração, mas não quis ficar na minha vida. Preço alto. Solidão.
Tempo. Sempre o tempo. Só ele pra me fazer superar isso. Não sei quanto tempo. Muito tempo. Talvez nem o tempo.
Vida que segue. Mas sempre vou me perguntar se poderia ter sido diferente. E se ele ainda se lembra de mim.

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