sexta-feira, 24 de abril de 2020

Pai

Eu me lembro de acordar cedo aos domingos para ir à feira com você. Íamos só nós dois. Comer pastel e caldo de cana. Na época, eu não tinha dimensão do que isso significava, te ver bebendo tão cedo da manhã. Mas era a minha hora com você. A preguiça dos meus irmãos era minha aliada, ninguém queria acordar cedo aos domingos...
Você me levava para a escola. Eu acordava antes, pra estar pronta e não te dar trabalho.
Os domingos depois do almoço eram os meus momentos especiais também. Você no violão, e nós acompanhávamos cantando... La Bamba, Professorinha... Nelson Gonçalves... Essas canções ainda ecoam na minha cabeça e me levam para um tempo que a felicidade era nossa companheira.
Eu não entendia as lutas que você passava. Pra mim, a vida era tão boa, não sentia falta de nada.
Você fez um carrinho de rolimã para o mais novo. Isso foi fantástico... Você tinha a letra mais linda, adorava quando você fazia as capas dos meus trabalhos.
Você tinha orgulho de mim, eu sei disso. Ir na minha reunião de pais e mestres pra quê? Só elogios.
Você fez a árvore de natal. Um ano, arames e bolinhas de isopor pintadas de verde. Outro ano, garrafas pet. Eu nunca imaginei que aquilo era por não ter dinheiro. Porque a minha árvore era a mais especial, única. Ele fez pra mim.
Tudo você entendia. Advogado. Eu tinha tanto orgulho em dizer isso.
Uma pochete preta na cintura, dentro dela alguns trocados, seus documentos. Não tenho certeza, mas acho que você tinha fotos nossas na carteira.
Você gostava de colocar essência de eucalipto no banheiro na hora do banho. Dizia que parecia uma sauna. Eu achava tão engraçado...
Você era tão alto... lembro de você sempre assim. Grande. Bonito. Vaidoso.
Era o mais engraçado. Todos riam perto de você.
Mas seu olhar sempre teve alguma coisa de distante, de renúncia.
Falavam escondido que o seu sonho era ser arquiteto. Você desenhava tão bem. Mas foi ser advogado, porque tia e vó que pagaram sua faculdade, e elas queriam um doutor.
Nunca te vi atuar como advogado. Só uns ternos antigos no cabide deixavam uma pista sobre isso. E uma maleta bonita. Marrom. Tinha uma dessas. Coisa de doutor mesmo.
Eram tantas histórias sobre você. Mozão... era assim que você me chamava.
De repente, as coisas começaram a ficar estranhas.
A frequência que você começou a chegar alterado em casa aumentou. Eu sabia pela sua voz que você não estava bem. Mas você só chegava, falava alguma bobagem, deitava e dormia.
Um dia você não foi mais trabalhar. E nem no outro, e no outro. E eu entendi que alguma coisa errada estava acontecendo.
Ela começou a se desdobrar. Aluguel, três crianças. Não havia mais renda fixa em casa. Ela que sempre fez de tudo, agora fazia muito mais pra manter as coisas em pé.
Eu fui entendendo que você não estava bem. Passava o dia todo no sofá.
Não ajudava em nada. Às vezes nos criticava dizendo que ninguém mais ligava para o que você dizia em casa. Estava desmoralizado. Ela colocava a comida em casa, cuidava de tudo, e ainda lutava por você.
Mas ela nunca deixou transparecer nada. Acho que nunca vi vocês brigando, discutindo. Não tenho lembrança nenhuma disso.
Uma vez acordei de madrugada com o telefone tocando. Você estava de pé prontamente ao lado do móvel. Me viu, disse que era engano.
E de repente você se foi. Do nada. Não lembro direito, mas sei que ligou no natal e perguntou por nós. Ouvi alguma coisa sobre não abandonar seus filhos.
Mas ele se foi.
Simplesmente juntou suas coisas e saiu. Sem um beijo. Sem uma despedida, sem nenhuma explicação. Assim.
Sei que sua presença já nos incomodava na época. Já eramos maiores, e eu via todo o sacrifício que ela fazia, toda a humilhação que ela se sujeitava, e você inerte.
Eu não entendi nada. Dizia a todo mundo que nem tinha ligado, achava bom você ter ido.
As ligações de madrugada, depois fiquei sabendo, eram da amante ligando a cobrar pra falar com você.
A mesma pessoa. Há quase 10 anos, ou mais, não sei. O assunto sempre foi conversado nos cochichos em casa. Ela não disse uma palavra sobre você.
Nunca houve uma crítica, uma palavra de rancor.
Não sei o que passou no coração dela. Mas no meu, havia uma fingida indiferença. Eu não ligava pra o que você tinha feito.
O tempo passou. A mais velha ia se casar. Esperou por ele, não sabia se deveria ou não entrar com ele na igreja. E eu só dizia que se fosse comigo, não teria nem convidado. E ele não apareceu. Eu sabia, dizia pra mim mesma. Melhor esperar sempre o pior pra não sofrer mais.
Eu fui vencendo os degraus que surgiam à minha frente. Era uma questão de honra vencer. Eu assumi a minha família. Ajudava no que podia. Achava que a obrigação era minha, porque eu era a mais forte, a que teve melhores condições.
Mas eu sonhei com você e ela juntos. Você trabalhando, ela em casa cuidando do mais novo. Eu ia te ajudar a comprar um carro. Vocês iam me visitar nas férias. Eu ia comprar um presente pra você.
Eu fingia que não ligava, mas eu fazia por você.
Uma vez nos encontramos. Eu já estava formada. Disse isso pra você. Você perguntou se eu estava ganhando bem, eu disse o quanto, você desdenhou. Achei que você teria orgulho de mim. Continuei na minha pose de indiferença. Vida que segue.
O tempo foi passando, soube do meu novo irmão. Senti um pouco de ciúmes, mas quando fiquei inteirada da situação, quis ele pra mim. Queria cuidar dele, dar um futuro. Mas claro, só na minha cabeça. Nunca fiz um gesto pra me aproximar. Acho que por ela. Não sei.
Outro giro que a vida dá. Casada, com um filho de poucos meses, menos de um ano. A mais velha disse que ele está trabalhando em um bar... Meu Deus, que decadência. Quer ir vê-lo? Levar o neto pra ele conhecer?
Eu fui. E não sabia que seria a última vez que eu o veria. Ele pediu pra não chamar de vovô. Era "tio". Aquilo me entristeceu. Eu olhei pra ele e não o reconheci. Mal vestido, sem o seu bigode que era sua marca registrada. Olhar sofrido. Magro.
Eu não sabia que não teria outra chance. Ele adoeceu. Recebi um telefonema. Ele está internado. Quer vir vê-lo? Eu, orgulhosa, disse que não. Eu não fui. Ele morreu.
Na hora, a fingida indiferença. Eu não sabia que era tão grave assim. A mais velha ia cuidar dele. Eu não quis nem dar um telefonema. Ele morreu.
Acabou. Não tinha outro momento pra conversar e entender. Não havia mais momento pra perdoar e ser perdoada. Ele simplesmente morreu. Como ele pôde fazer isso comigo? Porque não me falaram que era tão grave. Ele se foi. Acabou. Agora, pego a minha fingida indiferença, transformo em remorso, e sigo. Eu não tinha brigado com ele. Dito que ele não podia ter me deixado. Eu não tinha falado pra ele que sabia que amor nenhum dura uma vida toda, que isso não era culpa dele. Não o amor entre homens e mulheres. Mas o amor de pai pra filha não podia acabar.
Eu não tinha chorado descontrolada gritando com ele, dizendo que eu não aceitava ele ter me deixado, eu não tinha recebido um abraço e ouvido ele dizer que foi em busca de ser feliz, mas nunca esqueceu de mim. Ele não me abraçou enquanto eu estava chorando pra me acalmar. Ele morreu.
Ele não me viu me tornar uma engenheira. Receber o diploma e a medalha de mérito estudantil. Ele não me viu crescer profissionalmente. Ele não me viu quebrar a cara e voltar pra casa sem trabalho. Ele não me viu chorar quando o amor da minha vida me deixou. Ele não me viu.
E eu não o via. Eu não enxergava nele toda a dor e sofrimento que ele carregou consigo durante anos. Eu não vi nele a desesperança de estar sem futuro. Eu não vi nele a vergonha de ser um provedor que não conseguia sustentar sua família. Eu não vi nele o homem em busca do amor.
Não consegui enxergar o quanto ele sofreu. O quanto deve ter sentido medo. Sozinho. Quantas vezes ele pensou em nós. Quantas vezes teve que beber para esquecer que nos abandonou.
Eu não vi um homem em busca de viver alguma coisa por conta própria, mesmo depois de maduro. Eu poderia ter realizado o sonho dele de ser arquiteto. Podia ter dado conselhos amorosos mais destrambelhados que a minha vida. Podia ter chorado a sua ausência. Eu não fiz isso.
Ele era lindo. Tão lindo. Inteligente. Engraçado. E eu tive dele o melhor e o pior que ele pôde me oferecer. Mas ele me fez quem eu sou. Em tantos aspectos sou como ele. Sonhadora. Desafiadora.
Seu amor preencheu a minha infância. Tanto amor... Sua ausência me tornou quem sou hoje.
Reli uma carta que ele escreveu pra nós. Eu tinha 5 anos. Senti de novo todo o amor que nos uniu. Esse amor não pode ter sumido do coração dele. E não sumiu.
Mas foi substituído talvez pelo sonho de ser feliz, e depois, quando as coisas melhorassem, um retorno aos poucos pra nos reconquistar. Mas as coisas nunca melhoraram.
Eu tenho hoje uma visão diferente do que ele viveu, e na verdade, um certo orgulho. Porque ele teve a coragem que talvez eu não tenha hoje. Ele foi corajoso demais. Foi atrás do amor que ele quis pra vida dele. Talvez um pouco tarde. Mas viveu isso.
Eu teria apoiado ele. Com certeza, teria. Porque todo mundo tem direito de amar. E viver o amor. Mesmo que por pouco tempo, e eu espero que ele tenha vivido isso. De coração.
Espero que ele tenha tido momentos de felicidade ao lado da mulher que ele sonhou pra ele. Espero que ele tenha encontrado a paz no abraço dela, mesmo que por pouco tempo.
Eu queria ter dividido esse momento com ele. O momento que ele me contaria que eu teria um irmão. Eu ia me sentir muito enciumada, mas ficaria tão feliz por ele. De ver o amor florescer em uma criança. O amor de duas pessoas que enfrentaram tanta coisa pra ficarem juntos.
Eu sinto orgulho dele. De verdade. Porque hoje sei que o amor é fundamental na nossa vida. E ele fez uma aposta grande. O nosso amor ele já tinha. E contava que um dia iríamos entender o que ele estava fazendo.
Pai, eu espero de coração que você tenha sido um pouco feliz. Isso é muito importante pra mim. Que você tenha se sentido realizado pelo menos mais uma vez na sua vida. Que tenha sentido a serenidade de repousar no abraço de quem se ama, porque essa é a melhor sensação da vida da gente.
Eu hoje entendo a sua escolha. Você escolheu o amor. E eu acho que você fez a melhor escolha da sua vida.
E de coração, Pai: me perdoa porque eu não deixei a minha braveza de lado. Eu senti demais a sua falta. Eu reclamei também por amor. Porque o amor que eu hoje espero pra minha vida é o amor que você me deu. E eu não aceito nada menos do que isso. Te amo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário