O que pode acontecer em vinte anos? Como estarei daqui há vinte anos? Quem eu era há vinte anos atrás?
2018. A vida vai entrando nos eixos aos poucos. Acho que estou no caminho certo. Faculdade concluída, pós em andamento. Cirurgia feita. Se não fosse pela perda do bebê, talvez eu estivesse melhor. Mas são os revezes da vida. Faz parte.
Mas a verdade é que não. Estou sozinha. Casada e só. A solidão a dois é uma coisa muito forte. Por fora um casamento feliz. Realizações, viagens, compramos uma casa, trocamos de carro a cada dois, três anos. Filho com saúde. As coisas indo bem.
Por dentro, solidão. Não se pode ter tudo.
Dentro de quatro paredes, muita coisa sem sentido. A falta de afeto no dia a dia, a busca incansável em agradar. Andar separados, sem beijos ou carinhos fora da cama. Surpresas e presentes atrelados ao sexo. Por vezes ajo e me sinto como uma prostituta.
Ele me trata como uma. Me agrada na hora do sexo. Fora isso, dois amigos com algumas despesas em comum e um filho.
Mas todos nos vêem como um casal modelo. Sem uma briga, sem discussões. Onde um vai o outro está junto.
Na verdade, o que todos acham que é cumplicidade e amor, pra mim é só posse. Mas segue a vida.
E um dia, meio do ano mais ou menos, uma mensagem por uma rede social: oi, sou seu Anjo, 20 anos depois, lembra de mim? Um perfil sem foto, com informações estranhas. Mas se eu me lembro? Claro que sim.
Quando saí do meu primeiro emprego, nosso contato ficou muito limitado. Nos vimos ainda uma vez, ele foi me ver. Depois, a distância e as dificuldades da época com relação à comunicação nos fizeram perder o contato. Nossas vidas seguiram rumos muito diferentes.
Na primeira conversa já me senti a vontade. Reconhecendo tantas coisas que foram importantes pra mim. Redescobrindo coisas. Conhecendo outras.
Surpresa, que ele ainda está casado, tem mais um filho. Uma certa melancolia bate em mim. Um filho que por vezes quis ter com ele.
Mais tarde descubro que na verdade eram mais dois... Mas isso é outra história.
Vamos conversando com alguma frequência. Passo a ficar ansiosa por esses momentos. Passamos a conversar mais vezes. A internet é uma ferramenta poderosa.
Ele quer saber de mim. Tem sede e pressa de descobrir 20 anos de histórias..
Os dias passam, e o que eram conversas espaçadas começam a virar uma rotina.
Sua presença passa a fazer parte da minha vida constantemente. De repente, não saio mais do telefone.
Os sentimentos vão reaparecendo. Começo a sentir sua falta. Sua rotina me dá uns dias longe da família, no trabalho ele está sempre mais disponível pra mim.
Mas os seus períodos em casa são longos. E eventualmente ele some. Viagens com a família, passeios. Tem uma vida agitada.
E nos dias de ausência, sinto sua falta.
Quando percebo, já estou com todos os sentimentos por ele novamente despertos. Vinte anos adormecidos. Tantas lembranças de volta. E eu começo a me preparar para sofrer de novo.
Primeiro golpe foi sua sinceridade habitual: vida estabilizada, casamento sólido, filhos em formação. Não pretende mexer em nenhum destes pilares.
E então, me pergunto porque ele veio atrás de mim, depois de tantos anos? Porque veio despertar um amor há tanto tempo adormecido? Acho que está somente querendo testar se ainda sinto algo por ele.
Penso neste momento que devo parar. Hora de parar com isso. Já tive uma experiência muito ruim com isso no passado, e a sua ausência moldou a minha vida dali pra frente. Não quero isso de novo.
Mas ele começa a dividir coisas comigo. Quando sofreu uma perda importante na sua vida, falou comigo. Isso me tocou. Problemas sérios com um dos filhos. Dividiu comigo também. A teia de confiança e cuidado um com o outro crescia. Difícil sair.
Começam os questionamentos pelo meu passado. Sei que fiz inúmeras burradas desde que nos separamos. Hoje penso que foi uma forma que eu mesma achei de me punir e não me envolver. Porque amar me fez sofrer demais. Posso dizer com toda a convicção do mundo que não amei ninguém depois dele. Gostei, me encantei, passou. Amor, nunca mais vivi.
Mais uma vez ele me joga a realidade. Em uma ligação, deixa claro de novo que me procurou pra saber como eu estava, pra saber de mim. Nada mais que isso. Havia carinho. Não havia amor.
Mas mesmo assim meu coração espera ansioso por cada mensagem dele. As coisas começam a ficar estranhas em casa comigo.
Conversamos sobre tudo. Nosso assunto preferido, sempre sexo. Gostamos da provocação. Estou totalmente envolvida. Ele, sempre reservado, vai se abrindo ao poucos. Conectados novamente. Como se nunca tivéssemos nos afastado. Amor de novo. Intenso, verdadeiro.
Mas ele tem uma vida construída, e aos poucos vou deixando a minha realidade ser aberta.
Em casa, cada dia pior. Ciúmes, discussões, mensagens lidas.
Mas eu só penso nele. Minto, disfarço. Crio situações insustentáveis. Preciso vê-lo.
Ele quer me ver. Nem acredito nisso.
Mas a coragem falta. As mensagens lidas me fazem temer. Ele não consegue disfarçar o desapontamento.
O tempo passa, a sincronia, intimidade e sentimentos só aumentam.
Finalmente ele reconhece também seu envolvimento. Seu amor. Vou às nuvens. Um sonho. O amor de uma vida inteira.
Mas não passa disso. Amor platônico, à distância. Sem chances de ser mais.
Começo a descobrir fantasmas em seu passado. Situações que têm um peso impossível de se carregar.
Ele está preso no seu passado. E o preço disso é a nossa história.
Eu me revolto, choro, não consigo acreditar. Tanto amor, tanta coisa pra viver juntos. Mas nosso passado vai nos afastar.
O primeiro encontro, da apreensão à explosão de amor. E todos os outros dali por diante.
No meu coração não há espaço pra mais nada. Meu corpo só descansa no seu.
Os momentos juntos, sonho e realidade se misturam. O prazer fora do normal. O entendimento. Tudo é intenso.
Mas ele não consegue. Ele simplesmente não acha um lugar pra mim na sua vida.
Seus medos, seus fantasmas, sua dívida. Não há espaço pra mim.
Por mais que ele diga que sim. Eu sei que não.
Novamente eu me revolto. Mais uma vez a dor de não ser a escolhida. A rejeição. Um amor maior que eu e ele juntos. Fadado a não ser nada mais que um lugar de boas memórias.
Eu penso em o quanto a minha vida se transformou depois que ele voltou. Tudo está revirado. Cabeça, coração. Tudo pelo avesso. Avesso ao real que eu vivo.
Imploro, choro, rastejo. Hora penso que posso viver com a sobra do seu amor. Hora acredito que isso vai acabar com o amor que tenho por ele.
Tento, Deus sabe disso, que eu tentei tirá-lo da minha vida. Voltar para a mediocridade que eu vivia antes. Tocar a vida. Voltar ao lugar de antes.
Mas como? Como simplesmente esquecer o que é ser amada de verdade?
Como esquecer o toque com carinho, o sexo com dedicação, a segurança e o amor?
Mas não há lugar pra mim na sua história. Só me cabe no universo paralelo que criamos.
Enquanto meu mundo desabou por causa dele, o dele continua resguardado e intacto.
Minha vida remexida e revirada. Casamento por um fio, exposta, humilhada. Desacreditada. Lutando por um amor que não pode ser meu.
Tantas vezes me perguntei porque não consigo sair disso. Porque não consigo admitir que nossa história não é para essa vida?
Há muitos assuntos mal resolvidos na vida dele, que vão levar mais que essa vida pra serem resolvidos. E enquanto ele não superar isso, não vamos poder viver nosso amor. Ele me ajuda na minha evolução, mas não consegue cumprir a sua.
E com isso, o preço que pagamos é o nosso sofrimento. Estarmos longe um do outro.
Ele talvez só pense no que tem feito por mim, como tem ajudado na minha evolução. Mas não entendeu ainda que a evolução dele é tão importante quanto a minha.
Eu sei hoje que nossa luta não vem dessa vida. Nossa dívida com outras pessoas têm nos mantido afastados durante muito mais tempo do que imaginamos.
Penso em ir embora da sua vida. Pra poder voltar pra minha. Minha vida fria e sem cor. Eu queria que ele me deixasse partir.
Mas a nossa evolução nos prende um ao outro.
E ambos estamos causando o sofrimento em nós. E talvez, não vamos conseguir superar isso. E mais uma vez, mais uma vida, vamos desperdiçar o amor. E vamos pagar o preço por isso. Sofrendo agora.
Eu posso pedir pra ele ir. E sei que ele vai fazer isso por mim. Porque eu já pedi pra ele ficar ao meu lado e aceitar que eu estou com ele para o ajudar a superar suas dívidas com as pessoas que ele tem ao seu redor. Mas ele não aceita minha mão estendida.
Enquanto isso ele se concentra nos meus problemas e na minha evolução. E ele está traindo sua própria evolução.
O nosso amor é imortal. E como eu disse, talvez não tenho seu encontro nessa vida.
E é por isso que eu penso se realmente devo insistir. Se devo deixar meu coração nas suas mãos. Porque talvez não seja o momento dele. E ele precise de mais tempo.
Então, eu só peço aos meus anjos que me protegem que me façam ver e aceitar o que o coração dele tem pra mim.
Me conforta ter a certeza que nosso destino é estar juntos. Mas me entristece saber que talvez não seja agora.
Tenho medo da morte e da perda. Tenho medo de não saber mais seguir sem ele. Mas sei que precisamos passar por tudo isso.
E hoje, a única e mais sincera coisa que espero dele é que me diga que não espero em vão. Mas se ele acha que essa vida ainda é pouco para ele estar pronto pra mim, que ele me diga. Porque eu simplesmente vou esperar. Mais 20 anos. 200 anos. 2000 mil se for preciso. Mas eu ainda vou viver esse amor. Por ele e por mim. Pra sempre.
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